quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Dany

No centro da Praça do Orgulho havia uma fonte de tijolo vermelho cujas águas cheiravam a enxofre, e no meio da fonte erguia-se uma monstruosa harpia feita de bronze martelado. Empinava-se até seis metros de altura. Tinha rosto de mulher, com cabelos dourados, olhos de marfim e dentes pontiagudos também de marfim. A água jorrava amarela de seus seios pesados. Mas, no lugar dos braços, possuía as asas de um morcego ou dragão; suas pernas eram as de uma águia, e atrás tinha a cauda enrolada e venenosa de um escorpião. A barpia de Gbis, pensou Dany. A Velha Ghis caíra havia cinco mil anos, se bem se lembrava; suas legiões foram despedaçadas pelo poderio da jovem Valíria; suas muralhas de tijolo, arrasadas; suas ruas e seus edifícios, transformados em cinzas e brasas por fogo de dragão; os campos, semeados com sal, enxofre e crânios. Os deuses de Ghis es- tavam mortos, e seu povo também; aqueles astapori eram mestiços, dizia Sor Jorah. Até a língua ghiscari estava quase completamente esquecida; as cidades escravagistas falavam o Alto Valiriano de seus conquistadores, ou aquilo em que o tinham transformado. Mas o símbolo do Velho Império ainda resistia ali, embora aquele monstro de bronze tivesse uma pesada corrente pendurada das garras, com uma algema aberta em cada extremidade, A barpia de Ghis tinha um relâmpago nas garras. Esta é a harpia de Astapor. - Diga à prostituta westerosi para baixar os olhos - resmungou o senhor de escravos Kraznys mo Nakloz para a jovem escrava que falava por ele. - Eu negocio carne, não metal. O bronze não está à venda. Diga-lhe para olhar para os soldados. Até os fracos olhos púrpuras de uma selvagem do poente são certamente capazes de ver como as minhas criaturas são magníficas, O Alto Valiriano de Kraznys era tortuoso e carregado com o rosnado característico de Ghis e temperado aqui e ali com palavras de calão de feitor. Dany compreendia-o bastante bem, mas sorriu e olhou sem expressão para a escrava, como quem se interroga sobre o que ele teria dito. - O Bom Mestre Kraznys pergunta, não são magníficos? - a garota falava bem o Idioma Comum, para alguém que nunca estivera em Westeros. Com não mais de dez anos, tinha o rosto redondo e achatado, pele morena e olhos dourados de Naath. Chamavam seu povo de Povo  
Pacífico, Todos eram unânimes em afirmar que davam os melhores escravos. - Podem ser adequados para as minhas necessidades - respondeu Dany. Tinha sido sugestão de Sor Jorah que ela falasse apenas em dothraki e no Idioma Comum enquanto estivesse em Astapor. 0 meu urso é mais esperto do que parece. - Fale-me de seu treinamento. - Eles agradam à mulher westerosi, mas ela não os elogia, para manter o preço baixo - disse a tradutora ao seu dono. - Quer saber como foram treinados. Kraznys mo Nakloz inclinou a cabeça. Aquele senhor de escravos cheirava como se tivesse tomado banho em framboesas, e sua protuberante barba vermelha e negra brilhava de óleo. Os seios dele são maiores do que os meus, refletiu Dany. Via-os através da seda verde-marinho do tokar debruado de ouro que ele trazia enrolado em volta do corpo e por cima de um ombro. A mão esquerda mantinha o tokar no lugar ao caminhar, enquanto a direita empunhava um curto chicote de couro. - Todos os porcos westerosi são assim tão ignorantes? - protestou. - O mundo inteiro sabe que os Imaculados são mestres de lança, escudo e espada curta, - Dirigiu a Dany um largo sorriso. - Diga-lhe o que quer saber, escrava, e depressa. O dia está quente. Isso, pelo menos, não é mentira nenhuma. Um par de jovens escravas encontrava-se atrás deles, segurando por cima de suas cabeças um toldo de seda riscado, mas, mesmo à sombra, Dany sentia-se um pouco tonta, e Kraznys transpirava abundantemente. A Praça do Orgulho cozia ao sol desde o nascer do dia, Dany conseguia sentir o calor dos tijolos vermelhos sob os pés mesmo através do solado de suas sandálias. Ondas de calor erguiam-se desses tijolos, estremecendo o ar e fazendo com que as pirâmides de degraus de Astapor que se erguiam ao redor da praça quase parecessem fazer parte de um sonho. Se os Imaculados sentiam o calor, não mostravam qualquer sinal disso. Eles mesmos podiam ser feitos de tijolo, julgando pelo modo como estão ali. Um milhar tinha sido trazido das casernas para a sua inspeção; alinhados em dez formações de cem homens perante a fonte e a sua grande harpia de bronze, estavam rigidamente em sentido, com os olhos de pedra fixos à frente. Nada vestiam além de panos de linho branco atados na altura dos rins e elmos cônicos de bronze rematados por um espigão afiado com trinta centímetros de altura. Kraznys ordenara-lhes que apoiassem as lanças e os escudos no chão e des- pissem os cintos de espadas e as túnicas acolchoadas, para que a Rainha de Westeros pudesse inspecionar melhor a rigidez esguia de seus corpos.
- São escolhidos ainda jovens, pelo tamanho, rapidez e força - disse-lhe a escrava. - Iniciam o treinamento aos cinco anos. Treinam todos os dias, da alvorada ao pôr do sol, até dominarem a espada curta, o escudo e as três lanças. O treino é muito rigoroso, Vossa Graça. Só um garoto em três sobrevive a ele, Isso todos sabem. Entre os Imaculados diz-se que no dia em que ganham seu capacete de espigão o pior ficou para trás, pois nenhum dever que for atribuído a eles poderá ser tão duro quanto o treinamento. Kraznys mo Nakloz, supostamente, não falava o Idioma Comum, mas balançava a cabeça enquanto escutava e de vez em quando empurrava a escrava com a ponta do chicote. - Diga-lhe que aqueles estão ali em pé há um dia e uma noite, sem comida nem água. Diga-lhe que ficarão ali até caírem se eu lhes ordenar que o façam, e que quando novecentos e noventa e nove tiverem caído e morrido sobre os tijolos, o último ainda estará ali e não se moverá até que a própria morte o reclame. É assim a coragem deles. Diga-lhe isso. - Eu chamo isso de loucura, não de coragem - disse Arstan Barba-Branca quando a solene pequena escriba terminou. Bateu com a ponta de seu bastão de madeira nos tijolos, tap tap, como que para afirmar seu descontentamento. O velho não quisera viajar até Astapor; tampouco era favorável à compra daquele exército de escravos, Uma rainha devia escutar todos os lados antes de tomar uma decisão. Era por isso que Dany o havia trazido consigo até a Praça do Orgulho, não para mantê-la em segurança. Seus companheiros de sangue fariam isso suficientemente bem. Deixara Sor Jorah Mormont a bordo do Balerion para proteger seu povo e seus dragões. Muito a contragosto, havia prendido os dragões no porão. Deixá-los voar livremente sobre a cidade era perigoso demais; o mundo estava repleto de homens que os matariam de bom grado por nenhum outro motivo além de poder se autodenominar matador de dragões. - O que disse o velho fedorento? - perguntou o feitor à tradutora. Quando ela lhe disse, ele sorriu e falou: - Informe os selvagens de que chamamos isso de obediência. Outros podem ser mais fortes, mais rápidos ou maiores do que os Imaculados. Alguns, poucos, podem até igualar a sua perícia com a espada, a lança e o escudo. Mas em nenhum lugar entre os mares encontrarão alguém mais obediente. - As ovelhas são obedientes - disse Arstan quando as palavras foram traduzidas. Ele também sabia algum valiriano, embora não tanto quanto Dany, mas, assim como ela, fingia ignorância. - Kraznys mo Nakloz mostrou seus grandes dentes brancos quando aquilo lhe foi transmitido, - Uma palavra minha e aquelas ovelhas derramam as velhas tripas fedorentas dele nos tijolos - disse ele -, mas não lhe diga isso. Diga-lhes
que estas criaturas são mais cães do que ovelhas. Eles comem cão ou cavalo lá nos Sete Reinos? - Preferem porcos e vacas, excelência. - Carne de vaca. Pfuá. Comida para selvagens que não se lavam. - Ignorando-os, Dany percorreu lentamente a fileira de soldados escravos. As mulheres - seguiram-na de perto com o toldo de seda, para mantê-la à sombra, mas os mil homens à sua frente não desfrutavam de tal proteção. Mais da metade possuía pele acobreada e olhos amendoados dos dothraki e dos lhazarenos, mas Dany também viu nas fileiras homens das Cidades Livres, bem como qarthenos de pele clara, ilhéus de verão com rosto de ébano, e outros cuja origem não era capaz de adivinhar. E alguns tinham pele do mesmo tom de âmbar de Kraznys mo Nakloz, e os cabelos rijos vermelhos e negros que identificavam o antigo povo de Ghis, aqueles que chamavam a si mesmos de filhos da harpia. Até vendem os seus. Não a devia ter surpreendido. Os dothraki faziam o mesmo, quando khalasar se encontrava com kbalasar no mar de erva. - Alguns dos soldados eram altos e outros, baixos. Dany calculou que as idades oscilariam entre os catorze e os vinte anos. Os rostos eram lisos, e os olhos todos iguais, fossem negros, castanhos, azuis, cinza ou ambarinos. São como um único homem, pensou, até se lembrar de que não eram homens coisa nenhuma. Os Imaculados eram eunucos, todos eles. - Por que os cortam? - perguntou a Kraznys através da escrava. - Sempre ouvi dizer que homens inteiros são mais fortes do que eunucos. - Um eunuco cortado ainda novo nunca terá a força bruta de um de seus cavaleiros westerosi, é verdade - disse Kraznys mo Nakloz quando a pergunta lhe foi colocada. - Um touro também é forte, mas touros morrem todos os dias nas arenas de luta. Uma menina de nove anos matou um há três dias na Arena de Jothiel. Os Imaculados têm algo melhor do que a força, diga-lhe. Têm disciplina. Lutamos à maneira do Velho Império, sim. São as legiões marchantes da Velha Ghis regressadas, absolutamente obedientes, absolutamente leais, e totalmente desprovidas de medo, Dany escutou pacientemente a tradução. - Até os homens mais corajosos temem a morte e a mutilação - disse Arstan quando a garota terminou. Kraznys voltou a sorrir quando ouviu aquilo. - Diga ao velho que ele cheira a mijo e precisa de uma bengala para mantê-lo em pé. - Digo mesmo, excelência? Ele cutucou-a com o chicote.
- Não, não diz mesmo, é uma menina ou uma cabra para fazer uma pergunta tão imbecil? Diga que os Imaculados não são homens. Diga que a morte não significa nada para eles, e a mutilação menos do que nada. - Parou perante um homem atarracado com traços de Lhazar e ergueu violentamente o chicote, deixando uma linha de sangue em sua face acobreada. O eunuco piscou, e ali ficou, sangrando. - Quer outra? - Se sua excelência desejar. Foi difícil fingir não entender. Dany pousou uma mão no braço de Kraznys antes de ele ter tempo de voltar a erguer o chicote. - Diga ao Bom Mestre que eu vejo como seus Imaculados são fortes e suportam corajosamente a dor. Kraznys soltou um risinho quando ouviu as palavras dela em valiriano. - Diga a essa prostituta ignorante do ocidente que coragem não tem nada a ver com o assunto. - O Bom Mestre diz que aquilo não foi coragem, Vossa Graça. - Diga-lhe para abrir esses olhos de cadela. - Ele pede-lhe que observe com atenção, Vossa Graça. Kraznys aproximou-se do eunuco que se seguia na fileira, um jovem muito alto com os olhos azuis e os cabelos louros de Lys. - A sua espada - disse. O eunuco ajoelhou, desembainhou a arma e ofereceu-a, com o cabo para a frente. Era uma espada curta, feita mais para trespassar do que para cortar, mas o gume parecia afiado como uma navalha. - Fique em pé - ordenou Kraznys. - Sua excelência. - O eunuco levantou-se, e Kraznys mo Nakloz deslizou lentamente a espada por seu tronco acima, deixando uma fina linha vermelha na barriga e entre as costelas. Depois espetou a ponta da espada por baixo de um grande mamilo cor-de-rosa e começou a manejá-la para trás e para a frente. - O que ele está fazendo? - perguntou Dany à garota, enquanto o sangue escorria pelo peito do homem. - Diga à vaca que pare de mugir - disse Kraznys sem esperar pela tradução, - Isso não lhe fará grande mal. Os homens não precisam dos mamilos, e os eunucos menos ainda, - O mamilo pendeu, preso por um fio de pele. Ele o cortou e fez com que rolasse pelos tijolos, deixando em seu lugar um olho vermelho que chorava sangue copiosamen- te. O eunuco não se mexeu, até que Kraznys entregou-lhe a espada de volta, com o cabo para a frente. - Tome, está dispensado. - Este está feliz por tê-lo servido. Kraznys virou-se para Dany. - Eles não sentem dor, está vendo? - Como isso é possível? - ela quis saber através da escriba. - O vinho da coragem - foi a resposta que ele lhe deu, - Não é um vinho de verdade, mas sim uma bebida feita a partir de beladona, larvas de
mosca de sangue, raízes de lótus negra e muitas coisas secretas, Bebem-no em todas as refeições desde o dia de seu corte, e a cada ano que passa sentem cada vez menos. Isso torna-os destemidos em batalha. E também não podem ser torturados. Diga à selvagem que seus segredos estão seguros com os Imaculados. Ela pode colocá-los de guarda em seus conselhos e até em seu quarto, sem nunca se preocupar com o que eles possam ouvir. "Em Yunkai e Meeren, os eunucos são freqüentemente gerados através da remoção dos testículos de um rapaz, deixando o pênis. Uma criatura dessas é infértil, mas freqüentemente ainda capaz de ereção. Apenas problemas podem advir de tal prática. Nós removemos também o pênis, sem deixar nada. Os Imaculados são as criaturas mais puras da face da Terra. "Ofereceu a Dany e Arstan outro largo sorriso branco." Ouvi dizer que nos Reinos do Poente os homens fazem votos solenes de se manterem castos e não gerar filhos, mas viver apenas para o seu dever, E verdade?" - E - disse Arstan, quando a pergunta foi colocada. - Há muitas ordens dessas. Os meistres da Cidadela, os septÕes e as septãs que servem os Sete, as irmãs silenciosas dos mortos, a Guarda Real e a Patrulha da Noite... - Pobres coitados - rosnou o senhor de escravos depois da tradução. - Os homens não deveriam viver assim. Seus dias são um tormento de tentação, qualquer tolo pode ver isso, e não há dúvida de que a maioria sucumbe aos seus instintos mais primários. Nossos Imaculados não são assim. Estão casados com suas espadas de uma maneira que seus Irmãos Juramentados não podem ter esperanças de igualar. Nenhuma mulher poderá alguma vez tentá-los, e nenhum homem também. A garota transmitiu a essência do discurso, com mais delicadeza. - Há outras maneiras de tentar os homens, além da carne - retrucou Arstan Barba- -Branca depois de ela terminar. - Os homens, sim, mas os Imaculados, não. O saque não lhes interessa mais do que a violação. Nada possuem além de suas armas. Nem sequer permitimos que tenham nomes. - Não têm nomes? - Dany franziu a testa para a pequena escriba. - Poderá ser isso que o Bom Mestre disse? Eles não têm nomes? - E verdade, Vossa Graça, Kraznys parou na frente de um ghiscari que podia ter sido um irmão seu mais alto e em melhor forma e estalou o chicote num pequeno disco de bronze que ele tinha preso no cinto da espada, a seus pés. - O nome dele está ali. Pergunte à rameira de Westeros se sabe ler glifos ghiscari. - Quando Dany admitiu que não sabia, o feitor virou-se para o Imaculado. - Como se chama? - quis saber. - O nome deste é Pulga Vermelha, excelência.
A garota repetiu a conversa no Idioma Comum. - E ontem, qual era? - Rato Preto, reverência. - No dia anterior? - Pulga Marrom, reverência. - E antes disso? - Este não se lembra, reverência. Talvez Sapo Azul. Ou Verme Azul. - Diga-lhe que todos os nomes deles são assim - ordenou Kraznys à garota. - Recordam-lhes de que, por conta própria, são bichos. Os discos com os nomes são atirados dentro de um barril vazio ao terminarem os deveres do dia, e todas as alvoradas são de lá sorteados. - Mais loucuras - disse Arstan quando ouviu aquilo. - Como um homem pode se lembrar de um nome novo todos os dias? - Os que não podem são excluídos no treino, com aqueles que não são capazes de correr o dia inteiro com a bagagem completa, escalar uma montanha no meio da noite, caminhar sobre brasas ou matar uma criança. A boca de Dany certamente se contorceu ao ouvir aquilo. Ele terá visto, ou será tão cego quanto é cruel? Virou-se depressa, tentando manter uma máscara no rosto até ouvir a tradução. Foi só então que se permitiu dizer: - De quem são as crianças que matam? - Para conquistar seu capacete de espigão, um Imaculado deve ir aos mercados de escravos com um marco de prata, encontrar um recém-nascido qualquer e matá-lo diante dos olhos da mãe. Dessa maneira, certificamo-nos de que não resta neles qualquer fraqueza. Dany sentiu-se prestes a desmaiar. 0 calor, tentou dizer a si própria. - Arrancam um bebê dos braços da mãe, matam-no com ela assistindo e pagam por sua dor com uma moeda de prata? Quando a tradução lhe chegou, Kraznys mo Nakloz soltou uma sonora gargalhada. - Que idiota chorona e molenga esta aí é. Diga à puta de Westeros que o marco é para o dono da criança, não para a mãe. Os Imaculados não estão autorizados a roubar. - Bateu com o chicote na perna. - Diga-lhe que são poucos os que falham nesse teste. Os cães são mais difíceis para eles, na verdade. Damos um cachorro a cada garoto no dia em que é cortado. Ao fim do primeiro ano, ele deve estrangulá-lo. Todos os que não conseguem fazer isso são mortos e dados de comer aos cães sobreviventes. Achamos que isso serve como uma boa e forte lição. Arstan Barba-Branca batucou com a ponta de seu bastão nos tijolos enquanto ouvia aquilo. Tap tap tap. Lenta e regularmente. Tap tap tap. Dany viu-o afastar os olhos, como se não conseguisse olhar mais para Kraznys.
- O Bom Mestre disse que esses eunucos não podem ser tentados com moedas ou carne - disse Dany à garota mas se algum inimigo meu lhes oferecesse a liberdade por me traírem... - Eles iriam matá-lo imediatamente e trariam-lhe a cabeça, diga-lhe isso - respondeu o feitor. - Outros escravos podem roubar e guardar prata em segredo na esperança de comprar a liberdade, mas um Imaculado não a aceitaria se a eguazinha a oferecesse de presente. Não têm vida fora de seu dever. São soldados, e só. - E de soldados que preciso - admitiu Dany. - Diga-lhe que, nesse caso, fez bem em vir a Astapor. Pergunte-lhe qual é o tamanho do exército que deseja comprar. - Quantos Imaculados tem para vender? - Oito mil completamente treinados e disponíveis de imediato. Ela deve saber que só os vendemos em larga escala. Em milhares ou centenas. Antes os vendíamos em dezenas, para guardas domésticos, mas isso revelou-se um erro. Dez são poucos demais. Misturam-se com os outros escravos, e até com homens livres e esquecem-se de quem e do que são. — Kraznys esperou que aquilo fosse transmitido no Idioma Comum e depois prosseguiu. - Essa rainha pedinte precisa compreender que tais maravilhas não saem baratas. Em Yunkai e Meereen, espadachins escravos podem ser obtidos por menos do que o preço de suas espadas, mas os Imaculados são a melhor infantaria do mundo inteiro, e cada um deles representa muitos anos de treino. Diga-lhe que eles são como aço valiriano, dobrados uma e mais uma vez e martelados anos a fio, até ficarem mais fortes e resistentes do que qualquer metal da Terra. - Eu conheço o aço valiriano - disse Dany. - Pergunte ao Bom Mestre se os Imaculados têm seus próprios oficiais. - Precisa pôr seus oficiais à frente deles. Nós os treinamos para obedecer, não para pensar. Se é inteligência que ela quer, que compre escribas. - E o equipamento? - Espada, escudo, lança, sandálias e túnica acolchoada estão incluídos - disse Kraznys. - E os capacetes de espigão, com certeza. Eles usarão qualquer armadura que você queira, mas quem vai fornecê-la é você, Dany não conseguia pensar em mais perguntas. Olhou para Arstan. - Viveu longo tempo no mundo, Barba-Branca. Agora que já os viu, o que diz? - Digo que não, Vossa Graça - o velho respondeu de imediato. - Por quê? - perguntou ela. - Fale livremente, - Dany julgava saber o que ele diria, mas queria que a menina escrava o escutasse, para que Kraznys mo Nakloz ouvisse depois.
- Minha rainha - disse Arstan -, não há escravos nos Sete Reinos há milhares de anos. Tanto os velhos deuses como os novos consideram a escravidão uma abomínação. Maligna. Se desembarcar em Westeros à frente de um exército de escravos, muitos bons homens irão se opor a você por nenhum outro motivo além desse. Causará grande dano à sua causa e à honra de sua Casa. - E, no entanto, preciso ter algum exército - disse Dany. - O rapaz Joffrey não me dará o Trono de Ferro se eu pedir educadamente. - Quando chegar o dia de içar os estandartes, metade de Westeros estará com a senhora - prometeu Barba-Branca. - Seu irmão Rhaegar ainda é lembrado com grande amor. - E meu pai? - perguntou Dany. O velho hesitou antes de dizer: - O Rei Aerys também é recordado. Deu ao reino muitos anos de paz. Vossa Graça não tem necessidade de escravos. O Magíster Illyrio pode mantê-la a salvo enquanto seus dragões crescem e pode mandar enviados secretos para o outro lado do mar estreito em seu nome, para sondar os grandes senhores a respeito de sua causa, - Esses mesmos grandes senhores que abandonaram o meu pai em favor do Regicida e se curvaram a Robert, o Usurpador? - Mesmo aqueles que dobraram os joelhos podem ansiar no seu íntimo pelo retorno dos dragões. - Podem - disse Dany. Podem era uma palavra tão escorregadia! Em qualquer língua. Virou-se para Kraznys mo Nakloz e para sua pequena escrava. - Tenho de refletir cuidadosamente. O negociante de escravos encolheu os ombros. - Diga-lhe para refletir depressa» Há muitos outros compradores. Não há mais de três dias mostrei estes mesmos Imaculados a um rei corsário que espera comprar todos eles. - O corsário só queria cem, excelência - Dany ouviu a pequena escrava dizer. Ele cutucou-a com a ponta do chicote, - Os corsários são todos mentirosos. Ele vai comprar todos. Diga-lhe isso, garota. Dany sabia que levaria mais de cem, se chegasse a levar algum. - Lembre ao Bom Mestre quem eu sou. Lembre-lhe de que sou Daenerys Nascida na Tormenta, Mãe de Dragões, a Não Queimada, legítima rainha dos Sete Reinos de Westeros. Meu sangue é o sangue de Aegon, o Conquistador, e da antiga Valíria antes dele. Mas suas palavras não tocaram o rotundo e perfumado negociante de escravos, mesmo depois de transmitidas em sua feia língua. - A antiga Ghis dominava um império quando os valirianos ainda andavam fedendo ovelhas - rosnou para a pobre pequena escriba - e nós
somos os filhos da harpia. - Encolheu os ombros. - Tagarelar com mulheres é um desperdício. No leste ou no oeste são todas iguais, são incapazes de decidir até terem sido paparicadas, aduladas e empanturradas de docinhos. Bom, se é esse o meu destino, que seja. Diga à rameira que se quiser um guia para a nossa bela cidade, Kraznys mo Nakloz está a seu serviço... e também pode lhe prestar outros serviços, se for mais mulher do que parece. - O Bom Mestre Kraznys terá todo o gosto em mostrar-lhe Astapor enquanto a senhora reflete, Vossa Graça - disse a tradutora. - Dou-lhe geleia de miolos de cão, um belo e rico guisado de polvo vermelho e feto de cão para comer. - Passou a língua pelos lábios, - Ele diz que aqui é possível provar muitos pratos deliciosos, - Diga-lhe como as pirâmides são bonitas à noite - rosnou o negociante de escravos, - Diga-lhe que lamberei mel dos peitos dela, ou deixarei que lamba mel dos meus, se preferir. - Astapor é muito bela ao pôr do sol, Vossa Graça - disse a pequena escrava. - Os Bons Mestres acendem lanternas de seda em todos os terraços, para que todas as pirâmides brilhem com luzes coloridas. Barcaças do prazer percorrem o Verme, cheias de música suave e acostando nas pequenas ilhas para oferecer comida, vinho e outras delícias. - Pergunte se ela quer ver as nossas arenas de luta - acrescentou Kraznys. - A Arena de Douquor tem um bom espetáculo marcado para esta noite. Um urso e três garoti- nhos. Um menino será besuntado de mel, outro de sangue e outro de peixe podre, e ela pode apostar qual deles o urso comerá primeiro. Tap tap tap, ouviu Dany. O rosto de Arstan Barba-Branca estava imóvel, mas seu bastão demonstrava a ira que sentia. Tap tap tap. Obrigou-se a sorrir, - Tenho meu próprio urso na Balerion - disse à tradutora - e pode bem me comer se não voltar para junto dele. - Está vendo - disse Kraznys quando as palavras de Dany foram traduzidas, - Não é a mulher que decide, é este homem para quem corre, Como sempre! - Agradeça ao Bom Mestre por sua paciente gentileza - disse Dany - e diga-lhe que pensarei em tudo que aprendi aqui. - Ofereceu o braço a Arstan Barba-Branca, para que o velho escudeiro a levasse através da praça até a liteira, Aggo e Jhogo rodearam-nos, caminhando com o gingar de pernas arqueadas que todos os senhores dos cavalos ado- tavam quando eram forçados a desmontar e caminhar pela terra como simples mortais. Dany subiu na sua Iiteira com a expressão carregada e fez sinal a Arstan para que subisse também. Um homem tão velho como ele não devia
andar a pé num calor tão forte. Não fechou as cortinas quando se puseram em movimento. Com o sol castigando tão duramente aquela cidade de tijolos vermelhos, qualquer brisa perdida era algo a ser apreciado, mesmo se viesse acompanhada de um redemoinho de fina poeira vermelha. Além disso, tenho de ver. Astapor era uma cidade estranha, mesmo aos olhos de alguém que tinha andado pela Casa de Poeira e se banhado no Ventre do Mundo à sombra da Mãe das Montanhas. Todas as ruas eram feitas dos mesmos tijolos vermelhos que pavimentavam a praça. E o mesmo material construíra as pirâmides de degraus, as profundamente escavadas arenas de luta - com suas arquibancadas em forma de anéis descendentes -, as fontes sulfurosas e as sombrias adegas, e as antigas muralhas que os cercavam. Tantos tijolos, pensou, e tão velhos e desgastados. A fina poeira que soltavam encontrava-se por toda a parte, dançando pelas valetas a cada sopro de vento. Pouco admirava que tantas mulheres de Astapor velassem o rosto, a poeira de tijolo pinicava mais nos olhos do que a areia, - Abram alas! - gritava Jhogo, do cavalo à frente da Iiteira. - Abram alas para a Mãe de Dragões! - Mas quando desenrolou o grande chicote de cabo de prata que ela lhe dera e o fez estalar no ar, Dany debruçou-se para fora e disse-lhe que não. - Neste lugar, não, sangue do meu sangue - disse, na língua dele. - Estes tijolos ouviram o som de chicotes mais do que deveriam. As ruas tinham estado praticamente desertas quando saíram do porto naquela manhã, e não pareciam muito mais povoadas agora. Um elefante passou pesadamente por eles, com uma Iiteira gradeada sobre o dorso. Um garoto nu com a pele descascando estava sentado numa valeta de tijolo seca, com o dedo enfiado no nariz e olhando, carran- cudo, para um grupo de formigas que caminhavam pela rua. Ergueu a cabeça ao ouvir o ruído de cascos e ficou olhando de boca aberta quando uma coluna de guardas a cavalo passou por ele a trote, numa nuvem de poeira vermelha e gargalhadas quebradiças. Os discos de cobre cosidos aos seus mantos de seda amarela cintilavam como outros tantos sóis, mas suas túnicas eram de linho bordado, e abaixo da cintura usavam sandálias e saias de linho plissadas. De cabeça nua, cada homem tinha penteado, untado e retorcido seus rígidos cabelos vermelhos e negros, dando-lhes uma forma fantástica qualquer, cornos, asas e lâminas, e até mãos dadas, de modo que pareciam uma trupe de demônios fugida do sétimo inferno, O garoto nu observou-os por um tempo, tal como Dany, mas eles rapidamente desapareceram, e o menino voltou às suas formigas, com um dedo no nariz. Esta é uma cidade antiga, refletiu, mas não tão populosa quanto foi no seu apogeu, nem de perto tão povoada quanto Qarth, Pentos ou Lys.
A Iiteira parou subitamente num cruzamento, para permitir que um comboio de escravos passasse à sua frente, arrastando os pés, incentivado a avançar pelo estalar do chicote de um capataz. Aqueles não eram Imaculados, reparou Dany, mas homens de um tipo mais comum, com pele parda clara e cabelos castanhos. Havia mulheres entre eles, mas crianças não. Estavam todos nus. Dois astapori vinham atrás dos escravos, montados em burros brancos, um homem com um tokar de seda vermelha e uma mulher com véu, vestida de fino linho azul, decorado com lascas de lápis-lazúli. Em seus cabelos vermelhos e negros trazia um pente de marfim. O homem ria enquanto lhe segredava alguma coisa, sem prestar mais atenção em Dany do que em seus escravos ou no capataz com o chicote retorcido de cinco pontas, um dothraki grande e atarracado que tinha a harpia e as correntes orgulhosamente tatuadas em seu peito musculoso. - Tijolos e sangue construíram Astapor - murmurou o Barba-Branca ao seu lado - e tijolos e sangue construíram o seu povo. - O que é isso? - perguntou-lhe Dany, curiosa. - Uns versos antigos que um meistre me ensinou, quando eu era garoto. Nunca soube como eram verdadeiros. Os tijolos de Astapor são vermelhos do sangue dos escravos que os fizeram. - Consigo acreditar nisso perfeitamente - disse Dany. - Então abandone este lugar antes que seu coração também se transforme em um tijolo. Zarpe hoje mesmo, na maré da noite. Bem que gostaria de poder fazê-lo, pensou Dany. - Sor Jorah diz que quando eu deixar Astapor, deverá ser com um exército. - O próprio Sor Jorah foi um comerciante de escravos, Vossa Graça - recordou-lhe o velho. - Há mercenários em Pentos, Myr e Tyrosh que você pode contratar. Um homem que mata por dinheiro não tem honra, mas pelo menos não é escravo. Encontre lá o seu exército, suplico à senhora, - Meu irmão visitou Pentos, Myr, Bravos, quase todas as Cidades Livres. Os magíste- res e arcontes alimentaram-no com vinho e promessas, mas mataram sua alma de fome. Um homem não pode jantar da tigela de pedinte a vida toda e continuar a ser homem. Eu experimentei isso em Qarth e foi o bastante. Não voltarei a Pentos de tigela na mão. - Antes chegar como pedinte do que como senhora de escravos - disse Arstan. - Fala alguém que não foi nenhum dos dois. - As narinas de Dany dilataram-se. - Sabe o que é ser vendido, escudeiro? Eu sei. Meu irmão vendeu-me a Khal Drogo em troca da promessa de uma coroa dourada. Bem, Drogo coroou-o de ouro, embora não da maneira que ele havia
desejado, e eu... o meu sol e estrelas fez de mim uma rainha, mas se tivesse sido um homem diferente, as coisas poderiam ter acontecido de uma forma totalmente distinta. Acha que me esqueci de como é ter medo? Barba-Branca inclinou a cabeça. - Vossa Graça, não pretendi ofendê-la, - Só as mentiras me ofendem, nunca os conselhos honestos. - Dany deu uma palma- dinha na mão manchada de Arstan para sossegá-lo. - Tenho um gênio de dragão, é só • isso. Não pode permitir que ele o atemorize. - Tentarei me lembrar disso - Barba-Branca sorriu. Ele tem rosto gentil e uma grande força, pensou Dany. Não conseguia compreender por que Sor Jorah desconfiava tanto do velho. Poderá sentir ciúmes por eu ter encontrado outro homem com quem conversar? Sem pedir licença, seus pensamentos voltaram àquela noite, no Balerion, em que o cavaleiro exilado a beijara. Ele nunca devia ter feito aquilo. JÉ três vezes mais velho do que eu, e de um nascimento baixo demais para mim, e não lhe dei permissão, Nenhum verdadeiro cavaleiro beijaria uma rainha sem a sua permissão. Depois daquela noite, tinha tomado cuidado para nunca ficar sozinha com Sor Jorah, mantendo as aias consigo a bordo do navio, e às vezes também os companheiros de sangue. Ele deseja me beijar de novo, vejo em seus olhos. Dany nem era capaz de começar a expressar aquilo que desejava, mas o beijo de Jorah tinha acordado alguma coisa dentro dela, algo que estivera adormecido desde a morte de Khal Drogo. Deitada em seu estreito beliche, dava por si perguntando-se sobre como seria ter um homem ao seu lado em vez de sua aia, e a idéia era mais excitante do que deveria ser. As vezes fechava os olhos e sonhava com ele, mas nunca era com Jorah Mormont que sonhava; seu amante era sempre mais jovem e mais belo, embora o rosto de Sor Jorah nunca deixasse de surgir, como uma sombra em constante mutação. Uma noite, tão atormentada que não conseguia dormir, Dany enfiou uma mão entre as pernas e ficou sobressaltada quando verificou quão molhada se encontrava. Quase sem se atrever a respirar, moveu os dedos para a frente e para trás entre seus lábios inferiores, lentamente para não acordar Irri, que dormia ao seu lado, até que encontrou um local especial e se demorou ali, tocando-se levemente, a princípio com timidez, mas depois mais depressa. Mesmo assim o alívio que desejava parecia afastar-se à sua frente, até que os dragões se agitaram e um deles soltou um grito na cabine, e Irri acordou e compreendeu o que ela estava fazendo.
Dany sabia que seu rosto estava corado, mas na escuridão Irri certamente não conseguiria ver. Sem uma palavra, a aia pôs uma mão num seio dela e depois debruçou-se para tomar um mamilo na boca. A outra mão deslocou-se ao longo da suave curva da sua barriga, através do montículo de finos pelos prateados, e começou a trabalhar entre as coxas de Dany. Não passaram mais do que alguns momentos antes que as suas pernas se contorcessem, seus seios se elevassem e todo o seu corpo estremecesse. Então gritou. Ou talvez tivesse sido Drogon. Irri não chegou a dizer nada, limitou-se a enrolar-se e a voltar ao sono no momento em que o ato foi concluído. No dia seguinte, tudo aquilo tinha parecido um sonho, E o que tinha Sor Jorah a ver com o assunto? E Drogo que eu desejo, o meu sol e estrelas, recordou Dany a si mesma. Não Irri, e não Sor Jorah, apenas Drogo. Mas Drogo estava morto. Julgara que aqueles sentimentos tivessem morrido com ele, ali no deserto vermelho, mas um beijo traiçoeiro os havia trazido de volta à vida sem que ela soubesse como. Ele nunca devia ter me beijado. Ousou demais, e eu deixei. Não pode nunca voltar a acontecer. Fez uma expressão sombria com a boca e sacudiu a cabeça, e a sineta em sua trança tilintou suavemente. Mais perto da baía, a cidade apresentava uma aparência mais agradável. As grandes pirâmides de tijolo margeavam a costa, a maior tinha cento e vinte metros de altura. Todo tipo de árvores, trepadeiras e flores cresciam em seus largos terraços, e os ventos que rodopiavam em volta delas cheiravam a verde e a perfume. Outra harpia gigantesca erguia-se sobre o portão, esta era feita de argila vermelha cozida, e visivelmente se desfazia, não lhe restando mais do que um toco onde antes estivera a cauda de escorpião. A corrente que segurava com as garras de barro era ferro-velho, repleto de ferrugem. Mas, perto da água, estava mais fresco. O bater das ondas contra os pilares corroídos produzia um som curiosamente calmante. Aggo ajudou Dany a descer da Iiteira. Belwas, o Forte, estava sentado num alto pilar, comendo um grande pedaço de carne assada. - Cachorro - disse ele em tom alegre quando viu Dany. - Bom cachorro em Astapor, pequena rainha. Comer? - ofereceu com um sorriso gorduroso. - É gentil de sua parte, Belwas, mas não. - Dany tinha comido cachorro em outros lugares, em outros tempos, mas naquele momento tudo em que conseguia pensar era nos Imaculados e em seus estúpidos filhotes. Passou rapidamente pelo enorme eunuco e subiu a prancha até o convés do Balerion. Sor Jorah Mormont estava à sua espera. - Vossa Graça - disse, baixando a cabeça. - Os feitores vieram e foram embora. Três, com uma dúzia de escribas e outros tantos escravos para
os transportes. Percorreram cada centímetro de nossos porões e tomaram nota de tudo que possuímos. - Acompanhou-a até o fundo. - Quantos homens eles têm à venda? - Nenhum. - Seria com Mormont que estava zangada, ou com aquela cidade e o seu obstinado calor, seus fedores, suores e tijolos em ruína? - Vendem eunucos, não homens. Eunucos feitos de tijolo, como o resto de Astapor. Devo comprar oito mil eunucos de tijolo com olhos mortos que nunca se movem, que matam bebês de peito por causa de um chapéu com um espigão e estrangulam os próprios cães? Nem sequer têm nomes. Portanto não os chame de homens, sor. - Khaleesi - disse ele, surpreendido com a sua fúria -, os Imaculados são escolhidos ainda garotos e treinados... -Já ouvi tudo que quero ouvir a respeito do tremo. - Dany sentiu lágrimas jorrando de seus olhos, súbitas e indesejadas. Sua mão saltou e atingiu com força o rosto de Sor Jorah. Era isso ou gritar. Mormont tocou a bochecha que ela havia estapeado. - Se desagradei à minha rainha... - Desagradou. Desagradou-me muito, sor. Se fosse meu cavaleiro leal, nunca teria me trazido a esta vil pocilga. - Se fosse meu leal cavaleiro, nunca teria me beijado, ou olhado meus seios como fez, ou... - Às ordens de Vossa Graça. Direi ao Capitão Groleo que se prepare para zarpar na maré da noite, rumo a uma pocilga menos vil. - Não - disse Dany. Groleo observava-os do castelo de proa, e sua tripulação também assistia. Barba-Branca, seus companheiros de sangue, Jhiqui, todos tinham parado o que estavam fazendo ao ouvir a bofetada. - Quero zarpar agora, e não na maré, quero navegar para longe e depressa e não olhar para trás. Mas não posso, não é? Há oito mil eunucos de tijolo à venda, e tenho que arranjar uma maneira de comprá-los. - E com aquilo o deixou e foi para baixo. Atrás da porta de madeira esculpida da cabine do capitão, seus dragões estavam inquietos. Drogon ergueu a cabeça e soltou um grito, com fumaça clara saindo de suas narinas, e Viserion voou para ela e tentou se empoleirar em seu ombro, como fazia quando era menor. - Não - disse Dany, tentando afastá-lo com suavidade. - Agora é grande demais para isso, querido. - Mas o dragão enrolou a sua cauda branca e dourada em volta de um braço e enterrou garras negras no tecido de sua manga, agarrando-se bem. Impotente, Dany afundou-se na grande cadeira de couro de Groleo, aos risinhos - Estiveram agitados enquanto esteve fora, khaleesi - disse-lhe Irri. - Viserion arrancou lascas da porta com as garras, vê? E Drogon tentou escapar quando os feitores vieram vê-los. Quando agarrei sua cauda para detê-lo, ele se virou e me mordeu. - Mostrou aDanv as marcas dos dentes do dragão em sua mão.
- Algum deles tentou libertar-se pelo fogo? - isso era o que mais assustava Dany. - Não, khaleesi. Drogon soltou seu fogo, mas para o ar. Os negociantes de escravos tiveram medo de se aproximar dele. Beijou a mão de Irri no local onde Drogon a mordera. - Sinto muito que ele a tenha machucado. Os dragões não foram feitos para ficar trancados numa pequena cabine de navio. - Nisso, os dragões são como os cavalos - disse Irri. - E também como os cavaleiros. Os cavalos relincham lá embaixo, khaleesi, e dão coices nas paredes de madeira. Eu ouço. E Jhiqui diz que as velhas e os pequenos também gritam quando não está aqui. Não gostam desta carroça de água. Não gostam do negro mar salgado. - Eu sei - disse Dany. - Sei mesmo. - A minha khaleesi está triste? - Sim - admitiu Dany. Triste e perdida. - Deverei dar prazer à khaleesi? Dany afastou-se dela. - Não. Irri, não precisa fazer isso, O que aconteceu naquela noite, quando você acordou... não é escrava de cama, eu libertei-a, lembra? Você... - Sou aia da Mãe de Dragões - disse a moça. - E uma grande honra dar prazer à minha khaleesi. - Eu não quero - insistiu Dany. - Não quero. - Virou-se num movimento brusco. - Agora deixe-me. Quero ficar sozinha. Para pensar. A escuridão tinha começado a cair sobre as águas da Baía dos Escravos quando Dany voltou ao convés. Parou junto à amurada e olhou para Astapor. Daqui parece quase bela, pensou. As estrelas estavam aparecendo, no céu, e as lanternas de seda também, na terra, tal como a tradutora de Kraznys prometera. As pirâmides de tijolo tremeluziam com a luz. Mas embaixo está escuro, nas ruas, praças e arenas de luta. E onde a escuridão é maior é nas casernas, onde algum garotinho está dando restos de comida a um cachorro que lhe deram quando roubaram sua virilidade. Houve um passo suave atrás dela. - Khaleesi. - A voz dele. - Posso falar com franqueza? Dany não se virou. Não conseguia suportar olhá-lo naquele momento, Se o fizesse, poderia voltar a estapeá-lo. Ou chorar. Ou beijá-lo. E não chegar a saber o que era certo, o que era errado e o que era uma loucura. - Diga o que quiser, sor. - Quando Aegon, o Dragão, pisou na costa de Westeros, os Reis do Vale, do Rochedo e da Campina não correram para lhe entregar suas coroas. Se quer se sentar no seu Trono de Ferro, terá de conquistá-lo, tal
como ele fez, com aço e fogo de dragão. E isso significa ter sangue nas mãos antes de tudo acabar. Sangue c jogo, pensou Dany. As palavras da Casa Targaryen. Conhecera-as por toda a vida, - Derramarei com satisfação o sangue de meus inimigos. O sangue de inocentes é outra coisa, Querem me oferecer oito mil Imaculados. Oito mil bebês mortos. Oito mil cães estrangulados. - Vossa Graça - disse Jorah Mormont -, eu vi Porto Real depois do Saque. Também foram massacrados bebês nesse dia, e também velhos e crianças que brincavam. Foram violadas mais mulheres do que é possível contar. Há um animal selvagem em todos os homens, e quando se dá a esse homem uma espada ou uma lança e esse homem é enviado para a guerra, o animal acorda. O cheiro de sangue é o suficiente para acordá-lo. Mas nunca ouvi dizer que esses Imaculados tivessem violado, ou dizimado uma cidade com a espada, ou sequer saqueado, exceto por ordem expressa daqueles que os lideravam. Até podem ser de tijolo, como diz, mas se os comprar, daqui em diante os únicos cães que matarão serão aqueles que a senhora quiser mortos. E, se bem me lembro, a senhora tem alguns cães que quer ver mortos. Os cães do Usurpador. - Sim. - Dany fitou as suaves luzes coloridas e permitiu que a fresca brisa salgada a acariciasse. - Fala de saquear cidades. Responda-me uma coisa, sor: por que os dothra- ki nunca saquearam esta cidade? - apontou. - Olhe para as muralhas. E possível ver onde já começaram a ruir. Ali e ali. Vê algum guarda naquelas torres? Eu não. Estarão escondidos, sor? Vi hoje esses filhos da harpia, todos os seus orgulhosos guerreiros de alto nascimento. Vestem-se com saia de linho, e a coisa mais feroz neles era os cabelos. Até um khalasar modesto conseguiria rachar esta Astapor como uma noz e derramar seu conteúdo podre. Diga-me, portanto, por que é que aquela feia harpia não está às margens do caminho dos deuses em Vaes Dothrak entre os outros deuses roubados? - Possui um olho de dragão, khaleesi, vê-se isso claramente. - Quero uma resposta, não um elogio. - Há dois motivos. Os bravos defensores de Astapor não passam de palha, isso é verdade. Nomes antigos e bolsas gordas que se vestem com açoites ghiscari para fingir que ainda dominam um vasto império. Todos eles são oficiais de elevada patente. Nos dias de festa travam guerras de mentira nas arenas, para demonstrar como são brilhantes comandantes, mas são os eunucos que morrem. Da mesma forma, qualquer inimigo que quisesse saquear Astapor teria de saber que defrontaria Imaculados. Os senhores de escravos colocariam a
guarnição inteira a serviço da defesa da cidade. Os dothraki não atacam Imaculados desde que deixaram as tranças aos portões de Qohor. - E o segundo motivo? - Quem atacaria Astapor? - perguntou Sor Jorah. - Meereen e Yunkai são rivais mas não inimigos, a Perdição destruiu Valíria, o povo do interior, para oriente, é todo ghiscari, e para lá dos montes fica Lhazar. Os Homens-Ovelhas, como os seus dothraki os chamam, são um povo notavelmente avesso à guerra. - Sim - concordou ela mas a norte das cidades dos negociantes de escravos fica o mar dothraki, e duas dúzias de poderosos khal que apreciam mais do que qualquer coisa saquear cidades e levar seus povos como escravos. - Levá-los para onde? De que servem os escravos depois de se matar seus negociantes? Valíria já não existe, Qarth fica do outro lado do deserto vermelho, e as Nove Cidades Livres estão a milhares de léguas para oeste. E pode estar certa de que os filhos da harpia são pródigos nas ofertas a qualquer khal que por aqui passe, tal como fazem os magísteres em Pentos, Norvos e Myr. Sabem que se banquetearem os senhores dos cavalos e lhes derem presentes, eles em breve partirão. É mais barato do que lutar, e bastante mais seguro. Mais barato do que lutar, pensou Dany. Sim, talvez seja. Se ao menos pudesse ser assim tão fácil para ela, Como seria agradável velejar até Porto Real com seus dragões e pagar ao rapaz Joffrey uma arca de ouro para fazer com que fosse embora. - Khaleesi? - disse Sor Jorah depois de ela ficar em silêncio durante muito tempo. Tocou ligeiramente o cotovelo dela. Dany afastou-o, e disse: - Viserys teria comprado todos os Imaculados que tivesse dinheiro para isso, Mas você certa vez disse que eu era como Rhaegar... - Lembro-me disso, Daenerys. - Vossa Graça - corrigiu ela. - O Príncipe Rhaegar levou homens livres para a batalha, não escravos. Barba-Branca disse que foi o próprio quem armou os escudeiros cavaleiros e também armou muitos outros homens. - Não havia honra maior do que receber o grau de cavaleiro das mãos do Príncipe de Pedra do Dragão. - Então diga-me: quando ele tocava um homem no ombro com a espada, o que dizia? "Vá e mate os fracos"? Ou "Vá e defenda-os"? No Tridente, esses homens corajosos de que Viserys falou e que morreram sob os nossos estandartes do dragão... deram a vida porque acreditavam na causa de Rhaegar, ou porque tinham sido comprados e pagos? - Dany virou-se para Mormont, cruzou os braços e esperou por uma resposta.
- Minha rainha - disse lentamente o forte homem -, tudo que diz é verdade. Mas Rhaegar perdeu no Tridente. Perdeu a batalha, perdeu a guerra, perdeu o reino e perdeu a vida. Seu sangue escorreu rio abaixo com os rubis de sua placa de peito, e Robert, o Usurpador, cavalgou por cima de seu cadáver para roubar o Trono de Ferro. Rhaegar lutou valentemente, Rhaegar lutou com nobreza, lutou com honra. E Rhaegar morreu.

Arya

A pequena fortaleza quadrada estava meio arruinada, e o mesmo acontecia ao grande cavaleiro grisalho que lá vivia, Era tão velho que não compreendia as perguntas que lhe faziam, Não importava o que lhe dissessem, limitava-se a sorrir e a murmurar: - Eu defendi a ponte contra Sor Maynard. Ele tinha cabelos vermelhos e um humor negro, mas não conseguiu me afastar. Fui ferido seis vezes antes de matá-lo. Seis! O meistre que cuidava dele era um jovem, felizmente. Depois de o velho cavaleiro ter adormecido em sua cadeira, ele chamou-os para um canto e disse: - Temo que procure um fantasma. Chegou-nos uma ave, há séculos, pelo menos meio ano. Os Lannister capturaram Lorde Beric perto do Olho de Deus. Foi enforcado. - Sim, enforcado foi, mas Thoros cortou sua corda antes de morrer. - O nariz quebrado de Limo já não estava tão vermelho e inchado como algum tempo antes, mas estava sarando torto, dando ao seu rosto um aspecto assimétrico. - Sua senhoria é um homem difícil de matar, ah, se é. - E um homem difícil de achar, ao que parece - disse o meistre. - Já perguntou à Senhora das Folhas? - Perguntaremos - disse o Barba-Verde. Na manhã seguinte, ao atravessarem a pequena ponte de pedra que havia por trás da fortaleza, Gendry perguntou se aquela seria a ponte pela qual o velho tinha lutado. Ninguém sabia. - E o mais provável - disse Jack Sortudo. - Não vejo nenhuma outra ponte. - Se houvesse uma canção, saberíamos com certeza - disse Tom Sete-Cordas. - Com uma boa canção saberíamos quem era Sor Maynard e por que ele queria tanto atravessar esta ponte. O pobre velho Lychester podia ser tão afamado quanto o Cavaleiro do Dragão, se ao menos tivesse tido o bom senso de manter um cantor. - Os filhos de Lorde Lychester morreram na rebelião de Robert - resmungou Limo. - Alguns de um lado, outros do outro. Desde então, não anda bom da cabeça. Nenhum diabo de canção ia mudar isso. - O que o meistre quis dizer quanto a perguntar à Senhora das Folhas? - perguntou Arya a Anguy enquanto avançavam. O arqueiro sorriu.
- Espere e verá. Três dias mais tarde, ao atravessarem um bosque amarelo, Jack Sortudo desprendeu o berrante e soprou um aviso, diferente daqueles que fizera soar antes. Os sons mal haviam se extinguido quando escadas de corda caíram, desenrolando-se, dos galhos das árvores. - Amarrem os cavalos e lá vamos nós - disse Tom, semientoando as palavras. Subiram até uma aldeia escondida nos ramos mais elevados, um labirinto de passadiços de corda e pequenas casas cobertas de musgo, escondidas atrás de paredes vermelhas e douradas, e foram levados à Senhora das Folhas, uma mulher magra como um espeto, de cabelos brancos, vestida de tecido grosseiro. - Não podemos ficar aqui muito mais tempo, pois o outono está chegando - disse-lhes ela. - Há nove dias, uma dúzia de lobos andou caçando pela estrada de Vaufeno. Se tivessem por acaso olhado para cima, poderiam ter nos visto. - Não viu Lorde Beric? - perguntou Tom Sete-Cordas. - Está morto. - A mulher parecia desgostosa. - A Montanha pegou-o, e enfiou um punhal num olho dele. Foi um irmão mendicante que nos contou. Ele ouviu isso dos lábios de um homem que viu tudo. - Essa história é velha, rançosa e falsa - disse Limo. - O senhor do relâmpago não é assim tão fácil de matar. Sor Gregor pode ter tirado um de seus olhos, mas um homem não morre disso. Jack poderia contar. - Bem, eu não morri - disse o zarolho Jack Sortudo. - Meu pai arranjou uma maneira de ser bem enforcadinho pelo meirinho de Lorde Piper, meu irmão Wat foi mandado pra Muralha, e os Lannister mataram meus outros irmãos. Um olho não é nada. - Jura que ele não está morto? - a mulher agarrou o braço de Limo. - Abençoado seja, Limo, essa é a melhor novidade que ouvi em meio ano. Que o Guerreiro o proteja, e o sacerdote vermelho também. Na noite seguinte encontraram abrigo dentro do esqueleto carbonizado de um septo, numa aldeia queimada chamada Brotadança. Só restavam estilhaços de suas janelas de vitral, e o idoso septão que os acolheu disse que os saqueadores tinham até levado as caras vestes da Mãe, a lanterna dourada da Velha e a coroa de prata que o Pai usava. - Também cortaram os seios da Donzela, embora fossem só de madeira - disse-lhes. - E os olhos, os olhos eram de jade, lápis-lazúli e madrepérola, arrancaram-nos com as facas. Que a Mãe tenha piedade de todos eles. - Isso foi obra de quem? - perguntou Limo Manto Limão, - Saltimbancos? - Não - respondeu o velho. - Eram nortenhos. Selvagens que adoram árvores. Disseram que procuravam o Regicida.
Arya ouviu-o e mordeu o lábio. Sentiu Gendry observá-la. Isso a deixou zangada e envergonhada. Havia uma dúzia de homens vivendo nas galerias por baixo do septo, por entre teias de aranha, raízes e barris de vinho quebrados, mas também não tinham notícia de Beric Dondarrion. Nem mesmo o chefe, que usava uma armadura enegrecida pela fuligem e um tosco relâmpago no manto. Quando Barba-Verde viu Arya a fitá-lo, riu e disse: - O senhor do relâmpago está em todo lado e em lado algum, esquilo magricela. - Não sou um esquilo - disse ela. - Vou ser quase uma mulher em breve. Vou fazer onze anos. - Então é melhor ter cuidado para que eu não me case com você! - tentou fazer cócegas nela sob o queixo, mas Arya afastou sua estúpida mão com uma pancada. Naquela noite, Limo e Gendry jogaram dominó com seus anfitriões, enquanto Tom Sete-Cordas cantava uma canção boba sobre Ben Barrigudo e o ganso do Alto Septão. Anguy deixou Arya experimentar o arco, mas por mais que ela mordesse o lábio, não conseguia puxá-lo. - Precisa de um arco mais leve, senhora - disse o arqueiro sardento. - Se houver madeira seca em Correrrio, talvez faça um para você. Tom ouviu-o e interrompeu a canção. - É um imbecil, Arqueiro. Se formos a Correrrio, será só para recolher o resgate dela, não vai haver tempo para andar por lá fazendo arcos. Fique contente se sair com o couro inteiro. Lorde Hoster já enforcava homens fora da lei quando você ainda nem se barbeava. E aquele filho dele... eu sempre digo que um homem que odeia música não é de confiança. - Não é música que ele odeia - disse Limo. - E você, palerma. - Bem, não tem motivo para isso. A garota estava disposta a fazer dele um homem, será culpa minha que tenha bebido demais para tratar do assunto? Limo fungou através de seu nariz quebrado. - Foi você quem fez uma canção sobre isso, ou terá sido outro burro qualquer apaixonado pela própria voz? - Só a cantei daquela vez - protestou Tom. - E quem disse que a canção era sobre ele? Era sobre um peixe. - Um peixe murcho - disse Anguy, rindo. Arya não queria saber sobre o que eram as estúpidas canções de Tom. Virou-se para Harwin. - O que ele quis dizer com aquilo do resgate? - Temos uma grande falta de cavalos, senhora. E também de armaduras. Espadas, escudos, lanças. Tudo aquilo que as moedas podem comprar. Sim, e sementes para plantar. O inverno está
chegando, lembra? - tocou-lhe sob o queixo. - Não será a primeira cativa de elevado nascimento que resgatamos. Nem a última, espero eu. Arya sabia que aquilo era verdade. Os cavaleiros andavam sempre sendo capturados e resgatados, e às vezes as mulheres também. Mas e se Robb não quiser pagar o preço deles? Ela não era nenhum cavaleiro famoso, e era de esperar que os reis colocassem o reino à frente das irmãs. E a senhora sua mãe, o que diria? Ainda a quereria de volta, depois de todas as coisas que havia feito? Arya mordeu o lábio e desejou saber. No dia seguinte chegaram a um local chamado Coração Alto, um monte tão elevado que de seu cume parecia a Arya que era possível ver metade do mundo. Em volta desse cume havia um anel de enormes tocos brancos, tudo que restava de um círculo de majestosos represeiros. Arya e Gendry caminharam em volta do monte para contá-los. Havia trinta e um, e alguns eram tão largos que poderiam tê-los usado como cama. O Coração Alto fora sagrado para os filhos da floresta, contou-lhe Tom Sete-Cordas, e parte de sua magia permanecia no local. - Nenhum mal pode acontecer àqueles que aqui dormem - disse o cantor. Arya pensou que devia ser verdade; o monte era tão alto e as terras que o cercavam eram tão planas que nenhum inimigo poderia se aproximar sem ser visto. Tom disse-lhe que o povo das redondezas evitava o lugar; dizia-se que estava assombrado pelos fantasmas dos filhos da floresta que tinham morrido ali quando o rei ânda- Io chamado Errog, o Fratricida, derrubou o seu bosque, Arya sabia algo sobre os filhos da floresta e também sobre os ândalos, mas fantasmas não a assustavam. Quando era pequena, costumava esconder-se nas criptas de Winterfell e brincava de entra-no-meu- -castelo e de monstros entre os reis de pedra sentados em seus tronos. Mesmo assim, seus cabelos da nuca se arrepiaram naquela noite. Estava dormindo, mas a tempestade acordou-a. O vento arrancou a manta de cima dela e soprou-a, rodopiando, para os arbustos, Quando foi atrás dela, ouviu vozes. Junto às brasas da fogueira, viu Tom, Limo e Barba-Verde conversando com uma mu- lherzinha minúscula, uns trinta centímetros mais baixa do que Arya e mais velha do que a Velha Ama, toda corcunda e enrugada, apoiada em uma bengala nodosa e negra. Seus cabelos brancos quase chegavam ao chão de tão longos e esvoaçavam em volta de sua cabeça como uma nuvem quando o vento soprava. A pele era ainda mais branca, da cor do leite, e pareceu a Arya que seus olhos eram vermelhos, embora fosse difícil ter certeza do meio dos arbustos.
- Os velhos deuses movimentam-se e não querem me deixar dormir - ouviu a mulher dizer. - Sonhei ver uma sombra com um coração em chamas matando um veado dourado, sim. Sonhei com um homem sem rosto, à espera numa ponte que oscilava e balançava. Em seu ombro estava empoleirado um corvo afogado, com algas penduradas nas asas. Sonhei com um rio rugindo e uma mulher que era um peixe. Estava à deriva, morta, com lágrimas vermelhas nas faces, mas quando seus olhos se abriram, oh, acordei aterrorizada. Tudo isso sonhei, e mais ainda. Têm presentes para mim, para me pagar pelos sonhos? - Sonhos - resmungou Limo Manto Limão -, de que servem os sonhos? Mulheres- -peixe e corvos afogados. Eu também tive um sonho na noite passada. Estava beijando uma moça de taberna que conheci. Vai me pagar por isso, velha? - A moça está morta - sibilou a mulher. - Só os vermes podem beijá-la agora. - E depois disse a Tom Sete-Cordas: - Quero a minha canção, caso contrário quero vocês fora daqui. E assim o cantor tocou para ela, uma canção muito suave e triste, mas Arya só ouviu fragmentos das palavras, embora a melodia lhe fosse vagamente familiar. Sansa iria reconhecê-la, aposto, A irmã conhecia todas as canções, e até sabia tocar um pouco, e cantava com toda a doçura, Tudo que eu consegui alguma vez fazer foi gritar as palavras. Na manhã seguinte, não se via a pequena mulher branca em lugar algum. Enquanto selavam os cavalos, Arya perguntou a Tom Sete-Cordas se os filhos da floresta ainda habitavam o Coração Alto. O cantor soltou um risinho. - Você a viu, foi? - Era um fantasma? - Os fantasmas reclamam de como as suas articulações rangem? Não, ela é só uma velha anã. Mas é estranha, e tem olhos diabólicos. E sabe coisas que não devia saber, e às vezes nos diz se gosta de nosso aspecto. - Ela gostou do seu aspecto? - perguntou Arya de modo duvidoso. O cantor riu. - Pelo menos gostou do meu som. Mas obriga-me a cantar sempre a mesma maldita canção. Não é ruim, veja bem, mas conheço outras que são igualmente boas. - Balançou a cabeça. - O que importa é que agora temos o cheiro. Aposto que em breve irá ver Thoros e o senhor do relâmpago. - Se são homens deles, por que se escondem de vocês? Tom Sete-Cordas rolou os olhos ao ouvir aquilo, mas Harwin deu-lhe uma resposta. - Eu não chamaria isso de esconder, senhora, mas é verdade, Lorde Beric desloca-se muito e raramente revela seus planos. Assim, ninguém
pode traí-lo. A essa altura, nós, os homens que lhe prestamos juramento, devemos ser centenas, talvez milhares, mas não seria bom se andássemos todos atrás dele. Deixaríamos os campos nus para nos alimentarmos, ou seríamos massacrados numa batalha por alguma tropa maior. Da maneira como estamos espalhados em pequenos bandos, podemos atacar uma dúzia de locais ao mesmo tempo, e partir para qualquer outro antes que eles saibam o que aconteceu. E quando um de nós é pego e levado a interrogatório, bem, não lhes pode dizer onde encontrar Lorde Beric, façam eles o que fizerem. - Hesitou. - Sabe o que significa ser levado a interrogatório? Arya assentiu com a cabeça. - Chamavam isso de fazer cócegas. O Polliver, o Raff e os outros. - Contou-lhes tudo sobre a aldeia nas margens do Olho de Deus onde ela e Gendry tinham sido capturados e sobre as perguntas que Cócegas fazia. "Há ouro escondido na aldeia?", era sempre como começava."Prata, pedras preciosas? Há comida? Onde está Lorde Beric? Quais dos habitantes da aldeia o ajudaram? Para onde foi? Quantos homens estavam com ele? Quantos cavaleiros? Quantos arqueiros? Quantos estavam montados? Como estavam armados? Quantos feridos? Para onde disse que foram?" Só de pensar naquilo conseguia ouvir de novo os gritos, e sentir o fedor de sangue, merda e carne queimada. - Ele fazia sempre as mesmas perguntas - disse solenemente aos fora da lei -, mas todos os dias mudava a forma de fazer cócegas. - Nenhuma criança devia ser obrigada a agüentar isso - disse Harwin quando ela terminou. - Ouvimos dizer que a Montanha perdeu metade de seus homens no Moinho de Pedra. Pode ser que esse Cócegas agora esteja flutuando Ramo Vermelho abaixo, com peixes mordiscando sua cara. Se não, bem, é mais um crime pelo qual hão de responder. Ouvi sua senhoria dizer que esta guerra começou quando a Mão lhe ordenou que levasse a justiça do rei a Gregor Clegane, e é assim que pretende que termine. - Deu-lhe uma palmadinha de encorajamento no ombro. - E melhor que monte, senhora. E um longo dia de viagem até o Solar de Bolotas, mas quando terminarmos teremos um teto sobre nossa cabeça e sopa quente na barriga. E foi um longo dia de viagem, mas ao anoitecer vadearam um riacho e chegaram ao Solar de Bolotas, com suas muralhas exteriores de pedra e a grande fortaleza de carvalho. Seu senhor andava longe, lutando na companhia do senhor dele, Lorde Vance, e deixara os portões do castelo fechados e trancados em sua ausência. Mas a senhora sua esposa era uma velha amiga de Tom Sete-Cordas, e Anguy dizia que um dia tinham sido amantes. Anguy viajava com freqüência ao lado de Arya; de todos, era quem mais se aproximava de sua idade, salvo Gendry, e contava-lhe histórias engraçadas sobre a Marca de Dorne. Mas nunca a enganou. Ele
não é meu amigo. Só fica por perto para me vigiar e certificar- -se de que não voltarei a fugir. Bem, Arya também sabia vigiar. Syrio Forel ensinara-lhe a fazer isso. A Senhora Smallwood deu as boas-vindas aos fora da lei com bastante gentileza, embora lhes tenha dado um sermão por arrastarem uma garotinha pela guerra. Ficou mais irada ainda quando Limo deixou escapar que Arya era bem-nascida. - Quem vestiu a pobre criança com esses farrapos dos Bolton? - exigiu saber. - Esse símbolo... há muitos homens que a enforcariam em meio segundo por usar um homem esfolado no peito. - Arya foi prontamente levada para cima, forçada a entrar numa banheira, e mergulhada em água escaldante. As aias da Senhora Smallwood esfregaram-na com tanta força que Arya se sentiu como se elas a estivessem esfolando. Até derramaram uma coisa qualquer com um fedor adocicado de flores. E depois, insistiram para que se vestisse com coisas de menina, meias marrons de lã, uma combinação leve de linho e, por cima disso, um vestido verde-claro com bolotas bordadas em fio castanho por todo o corpete, e mais bolotas ao longo da bainha da saia. - Minha tia-avó é septã num convento em Vilavelha - disse a Senhora Smallwood enquanto as mulheres atavam o vestido ao longo das costas de Arya. - Mandei minha filha para lá quando a guerra começou. Quando voltar, certamente já estará grande demais para usar essas coisas. Gosta de dançar, filha? A minha Carellen é uma ótima dançarina. Também canta lindamente. O que é que você gosta de fazer? Arya arrastou os pés nas esteiras. - Trabalhos de agulha. - São muito relaxantes, não são? - Bem - disse Arya da maneira como eu os faço, não, - Não? Sempre os achei relaxantes. Os deuses oferecem a cada uma de nós pequenos dons e talentos, e é sua intenção que os usemos, diz sempre a minha tia. Qualquer ato pode ser uma prece, se for desempenhado tão bem quanto formos capazes. Não é um pensamento adorável? Lembre-se dele da próxima vez que trabalhar com a agulha. Trabalha todos os dias? - Trabalhava até perder a Agulha. A nova não é tão boa, - Em tempos como estes, todos temos de nos arranjar o melhor possível, - A Senhora Smallwood ajeitou o corpete do vestido, - Agora já parece uma jovem senhora como deve ser. Não sou uma senhora, Arya quis lhe dizer, sou uma loba. - Não sei quem você é, filha - disse a mulher -, e talvez ainda bem que não saiba. Alguém importante, temo. - Alisou o colarinho de Arya. - Em tempos como estes, é melhor ser insignificante. Bem que gostaria de
poder ficar com você aqui. Mas não seria seguro, Tenho muralhas, mas homens insuficientes para defendê-las. - Suspirou. O jantar estava sendo servido no salão quando Arya entrou, toda lavada, penteada e vestida. Gendry deu uma olhada e riu tanto que o vinho saiu por seu nariz, até que Harwin lhe deu uma forte palmada na orelha. A refeição foi simples, mas nutritiva; carneiro e cogumelos, pão escuro, purê de ervilhas e maçãs cozidas com queijo amarelo. Depois da refeição e de os criados terem sido mandados embora, Barba-Verde baixou a voz para perguntar se sua senhoria teria notícias do senhor do relâmpago. - Notícias? - ela sorriu. - Estiveram aqui não faz nem quinze dias. Eles e mais uma dúzia, pastoreando ovelhas. Quase não acreditei nos meus olhos. Thoros deu-me três em agradecimento. Comemos uma esta noite. - Thoros pastoreando ovelhas? - Anguy soltou uma gargalhada. - Admito que foi uma estranha visão, mas Thoros afirmou que, sendo sacerdote, sabia como cuidar de um rebanho. - Sim, e como tosquiá-lo também - gracejou Limo Manto Limão. - Alguém podia fazer disso uma canção, e das boas. - Tom fez vibrar uma corda em sua harpa. A Senhora Smallwood lançou-lhe um olhar fulminante. - Talvez alguém que não rime bombom com Dondarrion. Ou que não toque "Oh, deite minha doce menina na relva" para todas as amas de leite do condado, deixando duas delas com grandes barrigas. - Foi "Deixe-me beber a sua beleza" - disse defensivamente Tom - e as amas de leite sempre ficam felizes por ouvi-la. Tal como uma certa senhora de elevado nascimento de que eu bem me lembro. Toco para agradar. As narinas dela dilataram-se. - As terras fluviais estão cheias de donzelas a quem agradou, todas elas bebendo chá de tanásia. Seria de se imaginar que um homem com a sua idade já soubesse como não derramar a semente em suas barrigas. Daqui a pouco, os homens vão chamá-lo de Tom Sete-Filhos. - Acontece - disse Tom - que já passei de sete há muitos anos. E que belos rapazes são, com vozes belas como a do rouxinol. - Era claro que o assunto não lhe interessava. - Sua senhoria disse para onde se dirigia, senhora? - perguntou Harwin. - Lorde Beric nunca divulga seus planos, mas reina a fome perto do Septo de Pedra e do Bosque de Três Dinheiros. Eu iria procurá-lo aí. - Bebeu um gole de vinho. - E melhor que saiba que também tive visitantes menos agradáveis. Uma matilha de lobos veio uivar em volta de meus portões, achando que eu poderia ter aqui o Jaime Lannister. Tom parou de dedilhar a harpa.
- Então é verdade? O Regicida anda de novo à solta? A Senhora Smallwood deu-lhe um olhar de escárnio. - Não me parece que andariam à caça dele se estivesse acorrentado por baixo de Correrrio. - O que foi que a senhora lhes disse? - perguntou Jack Sortudo. - Ora, que Sor Jaime estava nu na minha cama, mas que o tinha deixado exausto demais para descer. Um deles teve o desplante de me chamar de mentirosa, portanto pusemo-los para andar com uma meia dúzia de dardos. Acho que seguiram para Volta de Fundonegro. Arya agitou-se impacientemente no banco. - Que nortenhos eram esses que vieram à procura do Regicida? A Senhora Smallwood pareceu surpreendida por ela intervir. - Não me disseram os nomes, filha, mas vinham vestidos de preto, com um sol branco no peito. Um sol branco sobre negro era o símbolo de Lorde Karstark, pensou Arya. Aqueles eram homens de Robb. Perguntou a si mesma se ainda andariam por perto. Se conseguisse escapulir dos fora da lei e encontrá-los, talvez a levassem à mãe em Correrrio... - Disseram como foi que o Lannister conseguiu escapar? - perguntou Limo. - Disseram - disse a Senhora Smallwood. - Não que eu acredite numa palavra sequer. Afirmaram que a Senhora Catelyn o libertou. Aquilo surpreendeu tanto Tom que ele estourou uma corda. - Até parece - disse ele. - Isso é uma loucura. Não é verdade, pensou Arya. Não pode ser verdade. - Pensei o mesmo - disse a Senhora Smallwood. Foi então que Harwyn se lembrou de Arya. - Esta conversa não é para os seus ouvidos, senhora, - Não, eu quero ouvir. Os fora da lei mostraram-se inflexíveis, - Vá embora, esquilinho magricela - disse Barba-Verde. - Seja uma boa senhorinha e vá brincar no pátio enquanto nós conversamos. Arya saiu a passos largos, zangada, e teria batido a porta se não fosse tão pesada. A escuridão havia caído sobre o Solar de Bolotas. Algumas tochas ardiam ao longo das muralhas, mas era tudo. Os portões do pequeno castelo encontravam-se fechados e trancados. Sabia que prometera a Harwin que não tentaria fugir novamente, mas isso tinha sido antes de começarem a contar mentiras sobre sua mãe. - Arya? - Gendry tinha seguido a menina para fora. - A Senhora Smallwood disse que havia uma forja. Quer ir dar uma olhada? - Se quiser, - Não tinha mais nada para fazer.
- Esse Thoros - disse Gendry enquanto passavam pelos canis - é o mesmo Thoros que vivia no castelo em Porto Real? Um sacerdote vermelho, gordo, com a cabeça raspada? - Acho que sim. - Que se lembrasse, Arya nunca tinha falado com Thoros em Porto Real, mas sabia quem ele era. Ele e Jalabhar Xho tinham sido as personagens mais coloridas na corte de Robert, e Thoros era também um grande amigo do rei. - Ele não vai se lembrar de mim, mas costumava vir à nossa forja. - A dos Smallwood já não era usada havia algum tempo, embora o ferreiro tivesse pendurado as ferramentas ordenadamente na parede. Gendry acendeu uma vela e apoiou-a na bigorna enquanto pegava um par de tenazes. - Meu mestre o repreendia sempre por causa das espadas em chamas. Não eram modos de tratar bom aço, dizia ele, mas esse Thoros nunca usava bom aço. Limitava-se a mergulhar uma espada barata qualquer em fogovivo e incendiava-a. Era só um truque de alquimista, dizia meu mestre, mas assustava os cavalos e alguns dos cavaleiros mais verdes. Arya contraiu a testa, tentando recordar se o pai alguma vez falara em Thoros, - Ele não é muito sacerdotal, não é? - Não - admitiu Gendry. - Meistre Mott dizia que Thoros até conseguia beber mais do que o Rei Robert. Eram farinha do mesmo saco, disse-me ele, ambos glutões e bêbados. - Não devia chamar o rei de bêbado. - O Rei Robert talvez costumasse beber muito, mas fora amigo do pai de Arya. - Estava falando de Thoros. - Gendry estendeu as tenazes como que para agarrar o rosto dela, mas Arya afastou-as com uma pancada. - Ele gostava de banquetes e torneios, por isso é que o Rei Robert era tão amigo dele. E era um homem de coragem. Quando as muralhas de Pyke ruíram, foi o primeiro a atravessar a brecha. Lutou com uma de suas espadas flamejantes, incendiando homens de ferro a cada golpe. - Gostaria de ter uma espada flamejante. - Arya conseguia se lembrar de montes de gente em que gostaria de atear fogo. - É só um truque, já lhe disse, O fogovivo estraga o aço. Meu mestre vendia a Thoros uma espada nova depois de cada torneio. E tinham sempre uma discussão sobre o preço. - Gendry voltou a pendurar as tenazes e pegou o martelo pesado. - Mestre Mott dizia que era hora de eu fazer a minha primeira espada longa. Deu-me um belo pedaço de aço, e eu sabia exatamente que forma queria dar à lâmina. Mas o Yoren veio e levou-me para a Patrulha da Noite. - Ainda pode fazer espadas, se quiser - disse Arya. - Pode fazê-las para o meu irmão Robb, quando chegarmos a Correrrio,
- Correrrio. - Gendry apoiou o martelo e olhou-a. - Você agora parece diferente. Como uma menina de verdade. - Pareço um carvalho, com todas estas bolotas estúpidas. - Mas bonito. Um carvalho bonito. - Aproximou-se um passo e farejou-a. - Até cheira bem, para variar. - Você, não. Você fede. - Arya empurrou-o contra a bigorna e tentou fugir, mas Gendry segurou-a pelo braço. Ela enfiou um pé entre as suas pernas e passou-lhe uma rasteira, mas ele puxou-a ao cair, e rolaram pelo chão da forja. Ele era muito forte, mas ela era mais rápida. Todas as vezes que ele tentava dominá-la, ela libertava-se com uma contor- ção e dava um murro nele. Gendry limitava-se a rir dos golpes, e isso deixava-a furiosa. Por fim, ele pegou ambos os pulsos dela com uma mão e começou a fazer-lhe cócegas com a outra, e Arya enfiou o joelho entre as pernas dele e libertou-se. Ambos estavam cobertos de sujeira, e o estúpido vestido de bolotas tinha uma manga rasgada. - Aposto que agora já não estou tão bonita - gritou ela. Tom estava cantando quando voltaram ao salão. Meu colchão de penas é grande e suave, e é lá que a vou deitar Vou vestir-la toda de seda amarela, e na testa uma coroa pousar. Pois será o meu amor, senhora, e eu seu senhor serei. Sempre a manterei quente e segura, e com espada a defenderei. Harwin deu um olhar de relance para eles e estourou em gargalhadas, e Anguy deu um de seus estúpidos sorrisos sardentos e disse: - Temos certeza de que esta é uma senhora bem-nascida? Limo Manto Limão deu um cascudo na cabeça de Gendry. - Se quer lutar, lute comigo! Ela é uma menina, e tem metade de sua idade! Mantenha essas mãos longe dela, ouviu? - Fui eu que comecei - disse Arya. - Gendry estava só conversando. - Deixe o moço, Limo - disse Harwin. - Foi mesmo ela quem começou, não duvido. Era a mesma coisa em Winterfell. Tom piscou o olho para ela e cantou: E como sorriu e como ela riu, a donzela do pinheiro. Fugiu num rodopio e disse-lhe, não quero o seu braseiro. Usarei um vestido de folhas douradas, a trança com ervas atada, Mas você pode ser meu amor da floresta, e eu a sua namorada.
- Não tenho trajes de folhas - disse a Senhora Smallwood, com um pequeno sorriso simpático mas Carellen deixou aqui mais alguns vestidos que podem servir. Venha, filha, vamos lá em cima ver o que encontramos. Foi ainda pior do que antes; a Senhora Smallwood insistiu que Arya tomasse outro banho, e também que cortasse e escovasse os cabelos; o vestido em que a enfiou daquela vez era de uma cor parecida com lilás, e decorado com pequenas perolazinhas. A única coisa boa era ser tão delicado que ninguém podia esperar que Arya montasse a cavalo com ele. Por isso, na manhã seguinte, enquanto quebravam o jejum, a Senhora Smallwood deu-lhe calções, cinto e túnica para vestir, e um gibão marrom de pele de veado com rebites de ferro, - Eram coisas de meu filho - disse ela. - Morreu com sete anos. - Lamento, senhora. - Arya subitamente sentiu-se envergonhada e com pena dela. - Também lamento ter rasgado o vestido das bolotas. Era bonito. - Sim, filha. E você também é. Seja corajosa.

Jaime

Há dois dias de viagem, para ambos os lados da estrada do rei, entraram numa larga JLr faixa de destruição, quilômetros de campos e pomares enegrecidos, onde os troncos de árvores mortas se projetavam para o ar como postes de arqueiro. As pontes também estavam queimadas, e os riachos seguiam cheios pelas chuvas do outono, de modo que tinham de patrulhar as margens em busca de vaus. As noites estremeciam com os uivos dos lobos, mas não viam ninguém. Em Lagoa da Donzela, o salmão vermelho de Lorde Mooton ainda flutuava sobre o castelo em sua colina, mas as muralhas da vila encontravam-se desertas, os portões, derrubados, metade das casas e lojas, incendiada ou saqueada. Não viram nenhum ser vivo exceto um punhado de cães selvagens, que escapuliram ao ouvir sua aproximação. A lagoa que deu à vila seu nome, onde a lenda dizia que Florian, o Bobo, pela primeira vez vislumbrara Jonquil banhando-se com as irmãs, estava de tal maneira repleta de cadáveres em decomposição que a água se tranformara numa sopa escura, de cor cinza-esverdeada. Jaime deu uma olhada e começou a cantar, - Cinco donzelas havia numa lagoa de nascente... - O que estí fazendo? - quis saber Brienne. - Estou cantando "Seis donzelas na lagoa", certamente já ouviu a canção. E que donzelinhas tímidas elas eram. Muito parecidas com você. Embora um tanto mais belas, aposto. - Silêncio - disse a moça, com um olhar que sugeria que adoraria deixá-lo flutuando na lagoa entre os cadáveres. - Por favor, Jaime - suplicou o primo Cleos. - Lorde Mooton está juramentado a Correrrio, não queremos atrai-lo para fora de seu castelo. E pode haver outros inimigos escondidos nas ruínas... - Inimigos dela ou nossos? Não são os mesmos, primo. Tenho um forte desejo de ver se a garota sabe usar aquela espada que transporta. - Se não ficar em silêncio, não me deixa escolha a não ser amordaçá-lo, Regicida. - Desacorrente minhas mãos, e eu brincarei de mudo até chegarmos a Porto Real. O que poderia ser mais justo do que isso, garota? - Brienne! Meu nome é Brienne! - três corvos levantaram voo, assustados pelo ruído. - Não quer tomar um banho, Brienne? - soltou uma gargalhada. - E uma donzela,
e ali esta a lagoa. Eu lavo suas costas. — Costumava esfregar as costas de Cersei, quando éramos crianças no Rochedo Casterly, A garota virou a cabeça do cavalo e afastou-se a trote. Jaime e Sor Cleos seguiram- -na para fora das cinzas de Lagoa da Donzela. Um quilômetro e meio adiante, o verde começou a voltar ao mundo. Jaime sentiu-se satisfeito. As terras queimadas faziam-lhe lembrar Aerys em excesso. - Ela está seguindo a estrada de Valdocaso - murmurou Sor Cleos. - Seria mais seguro seguir pela costa. - Mais seguro, mas mais lento. Eu sou favorável a Valdocaso, primo. Para falar a verdade, sua companhia aborrece-me. - Pode ser meio Lannister, mas não tem nada a ver com a minha irmã, Nunca tinha conseguido suportar estar muito tempo separado de sua gêmea. Até quando crianças, costumavam enfiar-se nas camas um do outro e dormir de braços entrelaçados. Até no ventre, Muito antes de a irmã florescer ou do advento de sua própria masculinidade, tinham visto éguas e garanhões nos campos e cães e cadelas nos canis e brincado de fazer o mesmo. Uma vez, a aia da mãe pegou-os no ato... não se lembrava bem do que estavam fazendo, mas, fosse o que fosse, havia horrorizado a Senhora Joanna. Ela mandou a aia embora, mudou o quarto de Jaime para o outro lado de Rochedo Casterly, colocou um guarda à porta do de Cersei e disse-lhes que não podiam voltar a fazer aquilo nunca mais, caso contrário não teria alternativa e seria obrigada a contar ao senhor pai deles. Mas não precisariam ter medo. Aquilo fora um pouco antes de ela morrer ao dar à luz Tyrion. Jaime quase nem se lembrava do rosto da mãe. Stannis Baratheon e os Stark talvez lhe tivessem feito um favor. Tinham espalhado a sua história de incesto por todos os Sete Reinos, portanto nada mais havia a esconder. Por que não devo me casar abertamente com Cersei e dividir a cama com ela todas as noites? Os dragões sempre se casavam com as irmãs, Septões, senhores e povo tinham fechado os olhos aos Targaryen durante centenas de anos, que fizessem o mesmo com a Casa Lannister. Certamente devastaria a pretensão de Joffrey ao trono, mas no fim das contas tinham sido as espadas que conquistaram o Trono de Ferro para Robert, e espadas também podiam manter Joffrey lá, independente de que semente havia lhe dado origem. Poderíamos casá-lo com Myrcella, depois de enviarmos Sansa Stark de volta à mãe. Isso mostraria ao reino que os Lannister estão acima das leis deles, tal como os deuses e os Targaryen. Jaime tinha decidido que iria devolver Sansa e a garota mais nova também, se fosse possível encontrá-la. Não era coisa que lhe reconquistasse a honra perdida, mas a idéia de cumprir com a palavra dada quando todos esperavam uma traição divertia-o mais do que seria capaz de exprimir.
Passavam por um campo de trigo espezinhado e um muro baixo de pedra quando Jaime ouviu um suave jrum vindo de trás, como se uma dúzia de aves tivessem levantado voo ao mesmo tempo. - Para baixo! - gritou, atirando-se sobre o pescoço do cavalo. O castrado relinchou e empinou-se quando uma flecha o atingiu na garupa. Outras flechas passaram assobiando por eles. Jaime viu Sor Cleos cair da sela, torcendo-se quando seu pé ficou preso no estribo. Seu palafrém fugiu, e o Frey passou por eles arrastado, aos gritos, com a cabeça batendo contra o chão. O castrado de Jaime arrastou-se pesadamente, bufando e resfolegando de dor. Esticou a cabeça para procurar Brienne. Ainda estava montada, com uma flecha alojada nas costas e outra na perna, mas parecia não senti-las. Viu-a puxar a espada e descrever um círculo, em busca dos arqueiros. - Atrás do muro - gritou Jaime, lutando para virar a sua montaria meio cega de volta à luta. As rédeas emaranhavam-se em suas malditas correntes, e o ar estava de novo repleto de flechas. - Avançar! - gritou, esporeando para mostrar à mulher como se fazia. Em algum canto, o velho e coitado cavalo encontrou um sopro de velocidade. De repente, dispararam pelo campo de trigo, fazendo voar nuvens de palha. Jaime só teve tempo suficiente para pensar: E melhor que a garota me siga antes que eles percebam que quem avança sobre eles é um homem desarmado e acorrentado. Então ouviu-a vindo de trás em grande velocidade. - Entardecer! - gritou ela, quando seu cavalo de tração passou por Jaime trovejando. Brandia a espada. - Tarth! Tarth! Algumas últimas flechas passaram inofensivamente por eles; então os arqueiros se separaram e fugiram, como os arqueiros sem reforço sempre faziam diante do ataque de cavaleiros. Brienne refreou o cavalo junto ao muro. Quando Jaime chegou ao seu lado, todos os arqueiros tinham desaparecido na floresta, vinte metros adiante, - Perdeu o gosto pela batalha? - Eles estavam fugindo. - Essa é a melhor hora para matá-los. Ela embainhou a espada. - Por que você atacou? - Os arqueiros são destemidos desde que possam se esconder atrás de muros e disparar de longe, mas, se são atacados, fogem. Sabem o que lhes acontece quando são apanhados, Você tem uma flecha nas costas, sabia? E outra na perna. Devia me deixar tratar delas. - Você? - Se não for eu, quem será? Da última vez que vi primo Cleos, o palafrém estava usando a cabeça dele para arar um sulco, Apesar disso,
suponho que deveríamos ir à sua procura. Ele é uma espécie de Lannister. Encontraram Cleos ainda preso ao estribo. Tinha uma flecha espetada no braço direito e uma segunda no peito, mas fora o chão que dera cabo dele. O topo da cabeça estava empastado de sangue e mole ao toque, e pedaços de osso partido moviam-se por baixo da pele, sob a pressão da mão de Jaime. Brienne ajoelhou-se e pegou na mão dele. - Ainda está quente. - Esfriará em breve. Quero o cavalo e as roupas dele. Estou farto de farrapos e moscas. - Ele era seu primo. - A moça estava chocada. - Era - concordou Jaime. - Não se preocupe, possuo ampla provisão de primos. Também quero a espada dele. Precisará de alguém com quem dividir as vigias. - Pode ficar de vigia sem armas. - A garota levantou. - Acorrentado a uma árvore? Talvez possa. Ou talvez possa negociar à minha maneira com o próximo bando de fora da lei e os deixe cortar esse seu grosso pescoço, garota. - Não vou armá-lo. E meu nome é... - Brienne, já sei. Eu prestaria o juramento de não lhe fazer mal, se isso atenuasse os seus medos de menina. - Seus juramentos não têm qualquer valor. Prestou um juramento a Aerys. - Que eu saiba, você não cozinhou ninguém dentro de sua armadura. E ambos queremos que eu chegue a Porto Real em segurança e inteiro, não queremos? - Acocorou-se ao lado de Cleos e começou a desafivelar o cinto dele. - Afaste-se. Já. Pare com isso, Jaime estava cansado. Cansado das suspeitas dela, cansado de seus insultos, cansado de seus dentes tortos, de seu rosto largo e manchado e daqueles seus cabelos finos e sem vida. Ignorando os protestos da garota, pegou com ambas as mãos no cabo da espada do primo, prendeu o cadáver ao chão com o pé e puxou. No momento em que a lâmina deslizou para fora da bainha, já estava rodopiando, trazendo a espada à sua volta e para cima num rápido e mortífero arco. Aço encontrou aço com um ressonante clang de fazer tremer os ossos. Sem que ele soubesse como, Brienne puxou a própria lâmina bem a tempo. Jaime riu. - Muito bem, garota. - Dê-me a espada, Regicida, - Ah, darei. - Pôs-se em pé como uma mola, e arremeteu contra ela, com a espada viva nas mãos. Brienne saltou para trás, parando o
ataque, mas ele seguiu-a, mantendo a pressão. Assim que a garota parava um golpe, o seguinte caía sobre ela. As espadas beijavam-se, saltavam para longe e voltavam a se beijar. O sangue de Jaime cantava, Era àquilo que estava destinado; nunca se sentia tão vivo como quando estava lutando, com a morte equilibrada em cada golpe. E com os pulsos acorrentados, a moça pode até me desafiar durante algum tempo. As correntes forçavam-no a usar uma empunhadura a duas mãos, embora fosse claro que o peso e o alcance eram menores do que seriam se a lâmina fosse uma verdadeira espada longa de duas mãos, mas que importava? A espada do primo era suficientemente longa para pôr um ponto final naquela Brienne de Tarth. Pelo alto, por baixo, com o braço lançado acima do ombro, fez chover aço sobre ela. Pela esquerda, pela direita, para trás, brandindo a espada com tanta força que chispas voavam quando as lâminas se encontravam, para cima, estocada lateral, lançada sobre o ombro, sempre atacando, caindo contra ela, passo e esquiva, ataque e passo, passo e ataque, golpeando, cortando, mais depressa, mais depressa, mais depressa... ... até que, sem fôlego, deu um passo para trás e deixou a ponta da espada cair ao chão, dando-lhe um momento de descanso. - Nada mal - reconheceu. - Para uma garota. Ela inspirou lenta e profundamente, mantendo os olhos cuidadosos a vigiá-lo. - Não quero machucá-lo, Regicida. - Como se fosse capaz. - Rodopiou a lâmina por sobre a cabeça e voltou a cair sobre ela, num chacoalhar de correntes. Jaime não saberia dizer durante quanto tempo prosseguiu o ataque. Podiam ter sido minutos ou podiam ter sido horas; o tempo dormia quando as espadas acordavam. Empurrou- -a para longe do cadáver do primo, empurrou-a para o outro lado da estrada, empurrou-a para o meio das árvores. Brienne tropeçou uma vez numa raiz que não chegou a ver, e por um momento Jaime pensou que ela estivesse acabada, mas a mulher apoiou-se num joelho em vez de cair, e não perdeu o controle. A espada dela ergueu-se de um salto para bloquear um golpe alto que lhe teria aberto o tronco do ombro à virilha, e então golpeou-o, uma vez e mais outra, ganhando golpe a golpe o espaço para voltar a se levantar. A dança prosseguiu. Jaime encurralou-a contra um carvalho, praguejou quando ela se esquivou dele, seguiu-a através de um riacho raso quase coberto de folhas caídas. O aço ressoou, o aço cantou, o aço gritou, raspou e soltou chispas, e a mulher passou a grunhir como uma porca a cada golpe, mas Jaime não encontrou maneira de atingi-la. Era como se, em volta dela, houvesse uma gaiola de ferro que parasse todos os golpes.
- Nada mal mesmo - disse ele quando fez um segundo de pausa para recuperar o fôlego, rodeando-a pela direita. - Para uma garota? - Para um escudeiro, digamos. Um verde. - Soltou uma gargalhada irregular e sem fôlego. - Vem, vem, minha querida, a música ainda está tocando. Posso ter a honra desta dança, minha senhora? Grunhindo, ela atacou-o, com a espada a rodopiar, e de repente era Jaime quem lutava para manter o aço afastado da pele. Um dos golpes de Brienne varreu sua testa, e sangue correu para seu olho direito. Que os Outros a levem, e também a Correrrio! Sua perícia tinha enferrujado e apodrecido naquela maldita masmorra, e as correntes também não ajudavam em nada. Seu olho fechou-se, os ombros começavam a ficar entorpecidos por causa de toda a trepidação que tinham suportado, e seus pulsos doíam com o peso de correntes, algemas e espada. A espada ficava mais pesada a cada golpe, e Jaime sabia que não a brandia tão depressa como antes, nem a erguia tão alto. Ela é mais forte do que eu. Perceber aquilo gelou-o. Robert tinha sido mais forte do que ele, certamente. Touro Branco e Gerold Hightower, em seu apogeu, também, bem como Sor Arthur Dayne. Entre os vivos, Grande-Jon Umber era mais forte, Javali Forte de Crakehall muito provavelmente também, ambos os Clegane com toda a certeza. A força da Montanha não tinha nada de humano. Não importava. Com velocidade e perícia, Jaime era capaz de derrotar todos eles. Mas aquilo era uma mulher. Uma mulher que mais parecia uma enorme vaca, com certeza, mesmo assim... por tudo aquilo que era certo, quem devia estar se cansando era ela. Em vez disso, forçou-o a voltar ao riacho, gritando: - Renda-se! Jogue fora a espada! Uma pedra escorregadia virou-se sob o pé de Jaime. Ao sentir-se caindo, transformou o azar numa estocada em mergulho. A ponta da espada ultrapassou a defesa dela e mordeu sua coxa superior. Uma flor vermelha desabrochou, e Jaime teve um instante para saborear a visão do sangue de Brienne antes de seu joelho colidir com uma pedra. A dor cegou-o. Brienne andou até ele, espalhando água, e afastou a espada de suas mãos com um chute, -RENDA-SE! Jaime atirou o ombro contra as pernas dela, fazendo-a cair por cima de si. Rolaram, esperneando e esmurrando-se, até que por fim ela conseguiu sentar-se montada nele. Jaime conseguiu tirar o punhal da bainha dela, mas antes de ter tempo de mergulhá-lo em sua barriga, ela apanhou seu pulso e bateu-o com tanta força numa pedra que foi como
se lhe tivesse arrancado o braço do ombro, Com a outra mão, a garota segurou seu rosto. - Renda-se! - empurrou sua cabeça para baixo, manteve-a dentro da água, puxou-a para cima. - Renda-se! - Jaime cuspiu água no rosto dela. Um empurrão, um espirrar de água, e estava de novo submerso, esperneando inutilmente, lutando para respirar. De novo para cima. - Renda-se, senão vou afogá-lo! - E quebrará seu juramento? - rosnou ele. - Como eu? Ela largou-o, e ele mergulhou com um esparramar de água. E a floresta ressoou com gargalhadas roucas. Brienne pôs-se em pé com dificuldade. Abaixo da cintura, ela era toda lama e sangue, tinha a roupa em desalinho e o rosto vermelho. Pelo aspecto dela é como se nos tivessem apanhado fodendo, e não lutando. Jaime engatinhou pelas pedras até a água rasa, limpando o sangue do olho com as mãos acorrentadas. Homens armados margeavam ambos os lados do riacho. Pouco admira, estávamos fazendo uma barulbeira tão grande que acordaríamos um dragão. - Sejam bem-vindos, amigos - gritou-lhes amigavelmente. - Minhas desculpas se os incomodei. Pegaram-me dando um corretivo na esposa. - A mim pareceu que quem tava dando o corretivo era ela. - O homem que falou era forte e poderoso, e barra nasal de seu meio-elmo de ferro não escondia por completo a ausência de seu nariz. Jaime percebeu subitamente que aqueles não eram os fora da lei que tinham matado Sor Cleos. Estavam cercados pela escumalha da terra: dorneses trigueiros e lisenos louros, dothraki com sinetas nas tranças, ibbeneses cabeludos, ilhéus do verão, negros como carvão, com manto de penas. Conhecia-os. Os Bravos Companheiros. Brienne encontrou a voz. - Tenho cem veados... Um homem de aspecto cadavérico, com um manto esfarrapado de couro, disse: - A gente aceita-os pra começar, senhora. - E depois aceita a sua boceta - disse o homem sem nariz. - Não pode ser tão feia quanto o resto de você. - Vire-a e meta no cu dela, Rorge - sugeriu um lanceiro de Dorne com um lenço de seda vermelho enrolado em volta do elmo. - Assim não precisa olhar para ela. - E roubar dela o prazer de olhar pra mim? - disse o sem-nariz, e os outros riram. Por mais feia e teimosa que fosse, a garota merecia coisa melhor do que um estupro coletivo por uma escória como aquela. - Quem comanda aqui? - exigiu saber Jaime em voz alta.
- Sou eu quem tem essa honra, Sor Jaime. - Os olhos do cadáver estavam debruados de vermelho, e seus cabelos eram finos e secos. Conseguiam ver-se veias azul-escuras através da pálida pele de suas mãos e de seu rosto. - Sou Urswyck. Chamam-me de Urswyck, o Fiel. - Sabe quem eu sou? O mercenário inclinou a cabeça. - E preciso mais do que uma barba e uma cabeça rapada para enganar os Bravos Companheiros. Os Saltimbancos Sangrentos, você quer dizer. Jaime não via mais utilidade naqueles do que em Gregor Clegane ou Amory Lorch, Cães, chamava o pai a todos, e usava-os como cães, para espantar as presas e plantar o medo em seu coração. - Se me conhece, Urswyck, sabe que terá a sua recompensa. Um Lannister sempre paga as suas dívidas. Quanto à garota, é bem-nascida, e vale um bom resgate. O outro inclinou a cabeça para o lado. - Ah, é? Que sorte. Havia uma certa astúcia no sorriso de Urswyck que não agradou a Jaime. - Ouviu o que eu disse. Onde está o bode? - A algumas horas de distância. Ele ficará satisfeito por vê-lo, não tenho dúvida, mas, se fosse você, não o chamaria de bode em sua presença. Lorde Vargo tem ficado suscetível quanto à sua dignidade. Desde quando aquele selvagem baboso tem dignidade? - Farei o possível para me lembrar disso quando nos encontrarmos. Senhor do quê, diga-me? - Harrenhal. Foi-lhe prometido. Harrenbal? Será que meu pai perdeu o juízo? Jaime ergueu as mãos. - Quero estas correntes tiradas. O risinho de Urswyck foi seco como papel. Algo aqui está muito errado. Jaime não mostrou sinais de sua confusão e limitou-se a sorrir. - Disse alguma coisa divertida? O sem-nariz deu um sorriso. - E a coisa mais engraçada que eu vi desde que o Dentadas arrancou as tetas daquela septã com mordidas. - Você e seu pai perderam batalhas demais - esclareceu o dornês. - Tivemos de trocar as nossas peles de leão por peles de lobo. Urswyck abriu as mãos. - O que o Timeon quer dizer é que os Bravos Companheiros já não estão a soldo da Casa Lannister. Agora servimos Lorde Bolton, e o Rei no Norte. Jaime dirigiu-lhe um frio sorriso de desprezo. - E os homens ainda dizem que eu tenho merda no lugar de honra!
Urswyck não ficou satisfeito com aquele comentário. Ao seu sinal, dois dos Saltimbancos agarraram Jaime pelos braços e Rorge enfiou-lhe no estômago um punho revestido de cota de malha. Quando se dobrou, grunhindo, ouviu a garota protestar: - Parem, ele não deve ser ferido! Foi a Senhora Catelyn que nos enviou, uma troca de cativos, ele está sob a minha proteção... - Rorge bateu outra vez nele, arrancando-lhe o ar dos pulmões. Brienne mergulhou em busca da espada que estava sob as águas do riacho, mas os Saltimbancos caíram sobre ela antes que conseguisse alcançar a arma. Forte como era, foram precisos quatro para espancá-la até deixá-la submissa. No fim, o rosto da moça ficou tão inchado e ensangüentado quanto o de Jaime devia estar, e tinham quebrado dois de seus dentes. Isso em nada contribuiu para melhorar sua aparência. Tropeçando e sangrando, os dois prisioneiros foram arrastados pela floresta até os cavalos, com Brienne mancando do ferimento na coxa que Jaime lhe causara no riacho. Ele sentiu pena da garota. Não tinha dúvidas de que Brienne perderia a virgindade naquela noite. Aquele canalha sem nariz iria possuí-la com certeza, e era provável que alguns dos outros também esperassem a sua vez. O dornês amarrou-os costas com costas em cima do cavalo de tração de Brienne, enquanto os outros Saltimbancos despiam Cleos Frey até a pele e dividiam entre si as suas posses. Rorge ganhou o sobretudo manchado de sangue, com seus orgulhosos quartos Lannister e Frey. As flechas tinham aberto buracos tanto nos leões como nas torres. - Espero que esteja satisfeita, garota - murmurou Jaime a Brienne. Tossiu e cuspiu um punhado de sangue. - Se tivesse me armado, nunca teríamos sido capturados. - Ela não respondeu. É uma cadela teimosa que nem uma mula, pensou. Mas valente, sim. Não podia negar isso. - Quando acamparmos para a noite, você será estuprada, e mais de uma vez - preveniu-a. - Seria sensato não resistir. Se resistir, perderá mais do que alguns dentes. Sentiu as costas de Brienne retesarem contra as suas. - Seria isso que você faria, se fosse uma mulher? Se eu fosse uma mulher, seria Cersei. - Se eu fosse uma mulher, iria obrigá-los a me matar. Mas não sou. - Jaime induziu o cavalo deles a trote. - Urswyck! Uma palavrinha! O mercenário cadavérico com o manto de couro esfarrapado puxou as rédeas por um momento, e depois pôs-se a seu lado. - O que quer de mim, sor? E tenha cuidado com a língua, senão voltarei a dar um corretivo em você. - Ouro - disse Jaime. - Gosta de ouro? Urswyck estudou-o através de olhos avermelhados.
- Tem os seus usos, confesso. Jaime dirigiu a Urswyck um sorriso astuto. - Todo o ouro em Rochedo Casterly. Por que deixar que seja o bode quem se beneficiará dele? Por que não nos leva a Porto Real e recolhe você mesmo o meu resgate? O dela também, se quiser. Uma donzela disse-me que chamam Tarth de Ilha Safira. - A mulher contorceu-se ao ouvir aquilo, mas nada disse. - Toma-me por um vira-casaca? - E claro. Que outra coisa seria? Urswyck pesou a proposta durante meio segundo. - Porto Real fica muito longe, e seu pai está lá. Lorde Tywin pode nutrir ressentimentos por nós, por termos vendido Harrenhal ao Lorde Bolton. Ele é mais esperto do que parece. Jaime tinha acalentado a esperança de enforcar o desgraçado assim que seus bolsos estivessem repletos de ouro. - Deixe o meu pai comigo. Arranjo um perdão régio por quaisquer crimes que tenha cometido. Arranjo um grau de cavaleiro para você. - Sor Urswyck - disse o homem, saboreando o som. - Como a minha querida esposa ficaria orgulhosa de ouvir isso. Se ao menos eu não a tivesse matado. - Suspirou. - Então, e o bravo Lorde Vargo? - Deverei cantar um verso de "As chuvas de Castamere" para você? O bode não será assim tão bravo quando meu pai puser as mãos nele. - E como ele fará tal coisa? Serão os braços de seu pai tão compridos que conseguem passar por cima das muralhas de Harrenhal e arrancar-nos de lá? - Se for necessário. - A monstruosa loucura do Rei Harren já tinha caído antes, e poderia voltar a cair. - É tão estúpido que acredita que o bode pode vencer o leão? Urswyck debruçou-se e deu-lhe um tabefe indolente no rosto. A pura insolência casual do gesto foi pior do que o golpe em si. Ele não tem medo de mim, compreendeu Jaime, com um arrepio. -Já ouvi o bastante, Regicida. Teria de ser realmente um grande idiota para acreditar nas promessas de um petjuro como você. - Esporeou o cavalo e galopou vivamente em frente. Aerys, pensou Jaime com ressentimento. Acaba sempre chegando em Aerys. Balançava com os movimentos do cavalo, desejando uma espada. Duas espadas seria ainda melhor. Uma para a garota e uma para mim. Morreríamos, mas levaríamos metade deles para o inferno conosco. - Por que lhe disse que Tarth era a Ilha Safira? - murmurou Brienne quando Urswyck não podia mais ouvi-la. - E provável que pense que meu pai é rico em pedras preciosas... - E melhor que reze para que ele pense assim.
- Todas as palavras que você diz são mentiras, Regicida? Tarth é chamada de Ilha Safira devido ao azul de suas águas. - Grite um pouco mais alto, garota, acho que Urswyck não ouviu. Quanto mais depressa souberem o pouco que vale de resgate, mais depressa o estupro começa. Todos os homens que aqui estão irão montar em você, mas que importa? Basta fechar os olhos, abrir as pernas e fingir que todos eles são Lorde Renly. Misericordiosamente, aquilo fechou a boca dela durante algum tempo, O dia tinha quase chegado ao fim quando encontraram Vargo Hoat, que saqueava um pequeno septo com mais uma dúzia de seus Bravos Companheiros. As janelas de vitral tinham sido quebradas e os deuses de madeira esculpida arrastados para a luz do sol. O mais gordo dothraki que Jaime vira na vida estava sentado sobre o peito da Mãe quando se aproximaram, arrancando seus olhos de calcedônia com a ponta da faca. Ali perto, um septão magricela e perdendo o cabelo pendia, de pernas para o ar, de um galho de um grande castanheiro. Três dos Bravos Companheiros estavam usando seu cadáver como alvo de tiro com arco. Um deles devia ser bom; o morto tinha flechas espetadas em ambos os olhos. Quando os mercenários viram Urswyck e os prisioneiros, soou um grito em meia dúzia de línguas. O bode estava sentado junto a uma fogueira, comendo uma ave meio assada que tinha num espeto, com gordura e sangue escorrendo por seus dedos e sua longa barba filamentosa. Limpou as mãos na túnica e levantou-se. - Regifida - babou. - Vofê é meu catifo. - Senhor, sou Brienne de Tarth - gritou a garota. - A Senhora Catelyn Stark ordenou-me que entregasse Sor Jaime ao irmão dele em Porto Real. O bode lançou-lhe um olhar desinteressado. - Filenfiem-na, - Escute-me - rogou Brienne enquanto Rorge cortava as cordas que a ligavam a Jaime -, em nome do Rei no Norte, o rei que você serve, por favor, escute... Rorge arrastou-a de cima do cavalo e começou a chutá-la. - Veja se não quebra nenhum osso - gritou-lhe Urswyck. - A cadela com cara de cavalo vale o próprio peso em safiras. O dornês Timeon e um ibbenês malcheiroso puxaram Jaime de cima da sela e empurraram-no rudemente na direção da fogueira. Não lhe teria sido difícil agarrar num dos punhos de suas espadas enquanto o maltratavam, mas os mercenários eram muitos e Jaime continuava acorrentado. Poderia abater um ou dois, mas no fim morreria por isso. Jaime ainda não estava pronto para morrer, especialmente por alguém como Brienne de Tarth,
- Efte é um dia effelente - disse Vargo Hoat. Em seu pescoço havia uma corrente de moedas interligadas, moedas de todas as formas e tamanhos, cunhadas e esculpidas, ostentando retratos de reis, feiticeiros, deuses e demônios, e de todos os tipos de animais fantasiosos. Moedas de todas as terras onde lutou, recordou Jaime. A cobiça era a chave para aquele homem. Se ele mudou de lado uma vez, pode mudar de novo. - Lorde Vargo, foi uma tolice ter abandonado o serviço do meu pai, mas não é tarde demais para corrigi-la. Ele pagará bem por mim, sabe disso, - Ah, fim - disse Vargo Hoat. - Metade do ouro em Rofedo Caíterly ferá meu. Maf primeiro tenho de lhe enviar uma menfagem. - Disse qualquer coisa em sua língua escorregadia de bode, Urswyck empurrou Jaime para trás, e um bobo vestido de losangos verdes e rosa chutou suas pernas, fazendo-o cair, Quando atingiu o chão, um dos arqueiros agarrou a corrente entre os pulsos de Jaime e usou-a para puxar seus braços para a frente. O do- thraki gordo pôs a faca de lado para desembainhar um enorme arakb, a diabolicamente afiada espada-gadanha que os senhores dos cavalos adoravam. Querem me assustar, O bobo subiu nas costas de Jaime, aos risinhos, enquanto o do- thraki gingava em sua direção, O bode quer que eu me mije nas calças e suplique por misericórdia, mas nunca terá esse prazer. Ele era um Lannister de Rochedo Casterly, Senhor Comandante da Guarda Real; nenhum mercenário o faria gritar, A luz do sol correu, prateada, pelo gume do arakb quando ele desceu tremendo, quase depressa demais para ser visto. E Jaime gritou.