Daenerys
O lento e constante bater de tambores e o suave sibilar dos remos das galés pairavam sobre a
imóvel água azul. A grande coca gemia em seu rastro, com as pesadas cordas bem retesadas
entre os navios. As velas do Balerion pendiam, flácidas, caindo desamparadas dos mastros.
Mesmo assim, em pé no castelo de proa, observando seus dragões se perseguirem com um céu
azul sem nuvens ao fundo, Daenerys Targaryen estava tão feliz como jamais se lembrava de estar.
Seus dothraki chamavam o mar de água venenosa, desconfiando de qualquer líquido que seus
cavalos não pudessem beber. No dia em que os três navios tinham levantado âncora em Qarth,
seria possível ter pensado que estavam zarpando para o inferno e não para Pentos. Seus bravos e
jovens companheiros de sangue fitavam com enormes olhos brancos a linha de costa que
minguava, cada um deles determinado a não mostrar medo perante os outros dois, enquanto as
aias Irri e Jhiqui se agarravam desesperadamente à amurada e vomitavam borda afora a cada
pequeno balanço. O resto do minúsculo khala- sar de Dany permanecia sob o convés, preferindo a
companhia de seus nervosos cavalos ao aterrorizador mundo sem terra que rodeava os navios.
Quando uma súbita tempestade os engoliu no sexto dia de viagem, ouviu-os através das
escotilhas; os cavalos relinchando e aos coices, os cavaleiros rezando com vozes agudas e
trêmulas a cada vez que o Balerion se elevava ou adernava.
Mas nenhum balanço era capaz de assustar Dany. Era chamada Daenerys, nascida na
Tormenta, pois chegara ao mundo, aos gritos, na distante Pedra do Dragão, enquanto a maior
tempestade de que se havia memória em Westeros rugia lá fora, uma tempestade tão violenta que
arrancou gárgulas das muralhas do castelo e fez a frota do pai em pedaços.
O mar estreito era freqüentemente tempestuoso, e Dany atravessara-o meia centena de vezes
quando menina, correndo de uma Cidade Livre para a seguinte, meio passo à frente dos
assassinos contratados pelo Usurpador. Adorava o mar. Gostava do intenso cheiro salgado do ar e
da vastidão do horizonte, limitado apenas por uma abóbada de céu azul-celeste. Fazia-a sentir-se
pequena, mas também livre. Gostava dos golfinhos que às vezes nadavam ao lado do Balerion,
cortando as ondas como lanças prateadas, e dos peixes-voadores que podiam ser vislumbrados
de vez em quando. Até gostava dos marinheiros, com todas as suas canções e histórias. Certa vez,
em uma viagem para Bravos, enquanto observava a tripulação que lutava para arriar uma grande
vela verde no meio de uma crescente ventania, até tinha pensado em como seria bom ser um
marinheiro. Mas, quando disse isso ao irmão, Viserys torcera seus cabelos até fazê-la gritar.
- Você é do sangue do dragão - ele berrou. - Um dragão, não um peixe fedorento qualquer.
Foi um tolo com isso, como com tantas outras coisas, pensou Dany. Se tivesse sido mais sensato
e mais paciente, seria ele quem viajaria para oeste a fim de tomar o trono que era dele por
direito. Havia chegado à conclusão de que Viserys era burro e mau, mesmo assim às vezes sentia
sua falta. Não do homem fraco e cruel em que se transformara por fim, mas do irmão que às vezes
a deixava se deitar na cama dele, do garoto que lhe contava histórias sobre os Sete Reinos e
falava de como a vida de ambos seria melhor depois de reclamar a sua coroa.
O capitão surgiu junto a ela.
- Seria bom que este Balerion pudesse voar como o seu homônimo, Vossa Graça - disse num
valiriano baixo, fortemente temperado pelo sotaque de Pentos. - Então não precisaríamos remar,
nem rebocar, nem rezar por vento.
- É verdade, capitão - respondeu ela com um sorriso, satisfeita por ter conquistado o homem. O
capitão Groleo era um velho pentoshi como o seu patrão, Illyrio Mopatis, e tinha se mostrado
nervoso como uma donzela com a idéia de transportar três dragões em seu navio. Meia centena de
baldes de água do mar ainda pendiam da amurada, para o caso de incêndio. A princípio, Groleo
quis os dragões engaiolados e Dany consentiu para sossegá-lo, mas a infelicidade dos animais era
tão palpável que rapidamente mudou de idéia e insistiu para que fossem libertados.
Agora até o capitão Groleo estava contente com isso. Ocorrera um pequeno incêndio, extinto
com facilidade; em compensação, agora o Balerion parecia ter menos ratazanas do que antes,
quando velejara com o nome de Saduleon. E a tripulação, antes tão temerosa quanto curiosa,
começou a ganhar um estranho orgulho feroz de "seus" dragões. Todos os homens do navio, do
capitão ao ajudante de cozinha, gostavam de ver os três voando... embora nenhum gostasse tanto
como Dany.
São meus filhos, disse a si mesma, e se a maegi falou a verdade, são os únicos filhos que
alguma vez terei.
As escamas de Viserion eram da cor de creme fresco e seus chifres, os ossos das asas e a
crista dorsal, de um dourado escuro que relampejava ao sol, brilhante como metal. Rhaegal era
feito do verde do verão e do bronze do outono. Voavam por cima dos navios em largos círculos,
cada vez mais alto, ambos tentando subir acima do outro.
Dany tinha aprendido que os dragões preferiam sempre atacar de cima. Se algum deles
conseguisse se colocar entre o outro e o sol, dobrava as asas e mergulhava, gritando, e caíam
ambos do céu, presos numa emaranhada bola escamosa, com as mandíbulas atacando e as
caudas chicoteando. Da primeira vez que tinham feito isso, Dany temeu que quisessem matar um
ao outro, mas era só brincadeira. Assim que caíam no mar, es- pirrando água, largavam-se e
voltavam a levantar voo, guinchando e silvando, com a água salgada evaporando de sua pele, em
nuvens de vapor, enquanto as asas rasgavam o ar. Drogon também andava pelas alturas, mas não
se encontrava à vista; devia estar muito à frente ou atrás, caçando.
Seu Drogon andava sempre com fome. Com fome e crescendo depressa. Mais um ano, ou
talvez dois, e estará suficientemente grande para montar. Então não terei necessidade de navios
para atravessar o grande mar salgado.
Mas esse tempo ainda não tinha chegado. Rhaegal e Viserion eram do tamanho de cães
pequenos, Drogon, só um pouco maior, e qualquer cão seria mais pesado do que eles; os dragões
eram todos asas, pescoço e cauda, mais leves do que pareciam. E assim Daenerys Targaryen
dependia de madeira, vento e vela para levá-la para casa.
A madeira e a vela tinham-na servido bastante bem até agora, mas o inconstante vento
tornara-se traidor. Havia seis dias e seis noites que estavam presos numa calmaria, e agora o
sétimo dia chegara, e ainda não havia um sopro de ar que enchesse suas velas. Felizmente, dois
dos navios que o Magíster Illyrio tinha mandado à sua procura eram galés mercantes, com
duzentos remos cada uma e tripulação de remadores de braços fortes para manuseá-los. Mas a
grande coca Balerion tocava por outra partitura; um navio imponentemente largo que mais parecia
uma imensa porca, com porões gigantescos e enormes velas, mas que era impotente numa
calmaria. A Vbagar e a Meraxes tinham-lhe atirado cabos para rebocá-la, mas o avanço era
dolorosamente lento. Os três navios estavam repletos de gente e iam muito carregados.
- Não vejo o Drogon - disse Sor Jorah Mormont quando se juntou a ela no castelo de proa. -
Perdeu-se outra vez?
- Somos nós que estamos perdidos, sor. Drogon não gosta mais do que eu deste rastejar
molhado. - Mais ousado do que os outros dois, seu dragão negro tinha sido o primeiro a
experimentar as asas por cima da água, o primeiro a pairar de navio em navio, o primeiro a se
perder numa nuvem passageira... e o primeiro a matar. Assim que os peixes-voadores rompiam a
superfície da água, eram envolvidos numa lança de chamas, apanhados e engolidos. - Ele
crescerá até que tamanho? - perguntou Dany com curiosidade. - Você sabe?
- Nos Sete Reinos contam-se histórias de dragões que cresceram tanto que conseguiam
arrancar lulas gigantes do mar.
Dany soltou uma gargalhada.
- Isso seria uma visão maravilhosa.
- E só uma história, Kbaleesi - disse seu cavaleiro exilado. - Também falam de velhos e sábios
dragões que viveram mil anos.
- Bom, e quanto tempo vive mesmo um dragão? - olhou para cima quando Viserion passou em
voo rasante por cima do navio, batendo lentamente as asas e agitando as velas murchas.
Sor Jorah encolheu os ombros.
- A vida natural de um dragão é muito mais longa do que a de um homem, ou pelo menos é isso
que as canções nos querem levar a crer... mas os dragões que os Sete Reinos conheceram melhor
foram aqueles da Casa Targaryen. Eram criados para a guerra, e na guerra morriam. Matar um
dragão não é coisa fácil, mas é possível.
O escudeiro Barba-Branca, em pé junto da figura de proa, com uma mão esguia segurando seu
rijo bastão de madeira, virou-se para eles e disse:
- Balerion, o Terror Negro, tinha duzentos anos de idade quando morreu durante o reinado de
Jaehaerys, o Conciliador. Era tão grande que podia engolir um auroque inteiro. Um dragão nunca
para de crescer, Vossa Graça, desde que tenha comida e liberdade. - O nome do homem era
Arstan, mas Belwas, o Forte, apelidara-o de Barba-Branca devido à cor dos pelos que cresciam em
seu rosto, e agora quase todos o chamavam assim. Era mais alto do que Sor Jorah, embora não
fosse tão musculoso; seus olhos eram azul- -claros, e sua longa barba era branca como neve e fina
como seda.
- Liberdade? - perguntou Dany, curiosa. -O que quer dizer?
- Em Porto Real, seus ancestrais construíram para os dragões um imenso castelo coberto por
uma cúpula. Chama-se Fosso dos Dragões. Ainda está de pé no topo da Colina de Rhaenys,
embora esteja agora em ruínas. Era lá que os dragões reais moravam nos dias de outrora, e era
uma habitação espaçosa, com portas de ferro tão largas que trinta cavaleiros podiam atravessá-las
lado a lado. Mas, mesmo assim, notou-se que nunca nenhum dos dragões do fosso atingiu o
tamanho de seus ancestrais. Os meistres dizem que isso se deveu às paredes que os rodeavam, e
ao grande domo sobre suas cabeças.
- Se as paredes pudessem nos manter pequenos, os camponeses seriam todos minúsculos e
os reis, grandes como gigantes - disse Sor Jorah. - Eu vi homens enormes nascidos em casebres e
anões que viviam em castelos.
- Homens são homens - respondeu Barba-Branca. -Dragões são dragões.
Sor Jorah fungou de desdém.
- Que profundo. - O cavaleiro exilado não simpatizava com o velho, tinha deixado isso claro
desde o início. - De resto, o que você sabe a respeito de dragões?
~ Bastante pouco, é verdade. Mas servi durante algum tempo em Porto Real, nos dias em que o
Rei Aerys ocupava o Trono de Ferro, e caminhei sob os crânios de dragões que olhavam para
baixo, das paredes de sua sala do trono.
- Viserys falava desses crânios - disse Dany. - O Usurpador tirou-os das paredes e os
escondeu. Não suportava vê-los olhando-o no trono que havia roubado, - Fez um gesto para que
Barba-Branca se aproximasse. - Chegou a conhecer meu real pai? - o Rei Aerys II morrera antes
de a filha nascer,
- Tive essa grande honra, Vossa Graça.
- Achou-o bom e gentil?
Barba-Branca fez o seu melhor para esconder os sentimentos, mas eles estavam ali,
estampados em seu rosto,
- Sua Graça era... freqüentemente agradável.
- Freqüentemente? - Dany sorriu. - Mas nem sempre?
- Podia ser muito severo para com aqueles que julgava ser seus inimigos.
- Um homem sensato nunca faz de um rei um inimigo - disse Dany. - Também conheceu meu
irmão Rhaegar?
- Dizia-se que homem algum chegou a conhecer realmente o Príncipe Rhaegar. Mas tive o
privilégio de vê-lo em torneios e ouvi-o freqüentemente tocar a sua harpa de cordas de prata.
Sor Jorah fungou.
- Junto com outros mil em alguma festa das colheitas. A seguir vai dizer que foi o escudeiro dele.
- Não direi uma coisa dessas, sor. O escudeiro do Príncipe Rhaegar foi Myles Moo- ton, e
depois Richard Lonmouth. Quando ganharam suas esporas, foi ele mesmo quem os armou
cavaleiros, e permaneceram companheiros próximos. O jovem Lorde Conning- ton também era
caro ao príncipe, mas seu amigo mais antigo era Arthur Dayne.
- A Espada da Manhã! - disse Dany, deliciada. - Viserys costumava falar de sua maravilhosa
lâmina branca. Dizia que Sor Arthur era o único cavaleiro no reino capaz de se igualar a nosso
irmão.
Barba-Branca inclinou a cabeça.
- Não me cabe questionar as palavras do Príncipe Viserys.
- Rei - corrigiu Dany. - Ele foi um rei, embora nunca tenha reinado. Viserys, o Terceiro de Seu
Nome. Mas o que quer dizer? - a resposta dele não fora a que esperava. - Sor Jorah certa vez
chamou Rhaegar de o último dragão. Ele precisava ter sido um guerreiro ímpar para ser chamado
assim, certamente.
- Vossa Graça - disse Barba-Branca -, o Príncipe de Pedra do Dragão foi um guerreiro muito
poderoso, mas...
- Prossiga - pediu ela. - Pode falar livremente comigo.
- Às suas ordens. - O velho apoiou-se em seu bastão, com a testa enrugada. - Um guerreiro
sem par... essas são belas palavras, Vossa Graça, mas palavras não vencem batalhas.
- As espadas vencem batalhas - disse Sor Jorah sem rodeios. - E o Príncipe Rhaegar sabia usar
uma.
- Sabia, sor, mas... vi uma centena de torneios e mais guerras do que desejaria, e por mais
forte, rápido ou hábil que um cavaleiro seja, há outros que podem se equiparar a eles. Um homem
pode ganhar um torneio e cair rapidamente no seguinte. Um ponto escorregadio na relva, ou aquilo
que se comeu na noite anterior, pode significar a derrota. Uma mudança no vento pode trazer a
dádiva da vitória. - Olhou de relance para Sor Jorah. - Ou o favor de uma senhora atado em volta
de um braço.
O rosto de Mormont obscureceu-se.
- Tenha cuidado com o que diz, velho.
Dany sabia que Arstan vira Sor Jorah lutar em Lanisporto, no torneio que Mormont tinha
ganhado com o favor de uma senhora atado ao braço. Tinha conquistado também a senhora;
Lynesse, da Casa Hightower, sua segunda esposa, bem-nascida e bela... mas ela arruinara-o e
abandonara-o, e a recordação da mulher agora era amarga para ele.
- Seja gentil, meu cavaleiro. - Dany pôs uma mão no braço de Jorah. - Estou certa de que Arstan
não teve nenhuma intenção de ofendê-lo.
- Às suas ordens, Khaleesi. - A voz de Sor Jorah mostrava ressentimento,
Dany voltou-se para o escudeiro.
- Sei pouco de Rhaegar. Só as histórias que Viserys contava, e ele era um garotinho quando
nosso irmão morreu. Como ele era realmente?
O velho refletiu por um momento.
- Capaz. Isso acima de tudo. Determinado, circunspecto, cumpridor, obstinado. Conta-se uma
história sobre ele... mas sem dúvida Sor Jorah também a conhece.
- Gostaria de ouvi-la de você.
- Às suas ordens - disse Barba-Branca. - Quando criança, o Príncipe de Pedra do Dragão era
extraordinariamente dado à leitura. Começou a ler tão cedo que os homens diziam que a Rainha
Rhaella devia ter engolido alguns livros e uma vela enquanto ele estava em seu ventre. Rhaegar
não tinha nenhum interesse pelas brincadeiras das outras crianças. Os meistres ficavam
assombrados com sua inteligência, mas os cavaleiros do pai trocavam gracejos amargos sobre
Baelor, o Abençoado, ter renascido. Até que um dia o Príncipe Rhaegar encontrou algo em seus
pergaminhos que o mudou. Ninguém sabe o que pode ter sido, só se sabe que o garoto apareceu
no pátio uma manhã, no momento em que os cavaleiros vestiam as armaduras. Foi direito a Sor
Willem Darry, o mestre de armas, e disse: "Vou precisar de espada e armadura. Parece que tenho
de ser um guerreiro."
- E foi! — disse Dany, deliciada,
- Foi, realmente, - Barba-Branca fez uma reverência. - Meus perdões, Vossa Graça. Falamos de
guerreiros e eu vejo que Belwas, o Forte, se levantou. Tenho de ir servi-lo.
Dany lançou um rápido olhar para a popa. O eunuco saía do porão no meio do navio, ágil,
apesar de todo o seu tamanho. Belwas era atarracado mas largo, uns bons noventa e cinco quilos
de gordura e músculo, com sua grande barriga marrom atravessada por cicatrizes brancas
desvanecidas. Usava calças largas, uma faixa de seda amarela na cintura, e um colete de couro
absurdamente minúsculo, decorado com rebites de ferro,
- Belwas, o Forte, tem fome! - rugiu para todos e para ninguém em especial. - Belwas, o Forte,
quer comer, já! - Virando-se, viu Arstan no castelo de proa. - Barba- -Branca! Vai trazer comida
para Belwas, o Forte!
- Pode ir - disse Dany ao escudeiro. Ele fez outra reverência e afastou-se para satisfazer as
necessidades do homem a quem servia.
Sor Jorah ficou observando-o com uma carranca em seu rosto franco e honesto. Mor- mont era
grande e corpulento, com mandíbula forte e ombros largos. Hão era, de modo algum, um homem
bonito, mas era o amigo mais leal que Dany alguma vez tivera.
- Seria sensata se desse um bom desconto às palavras daquele velho - disse-lhe quando
Barba-Branca se afastou o suficiente para não ouvi-los.
- Uma rainha deve escutar todos - lembrou-lhe Dany. - Os de nascimento alto e baixo, os fortes
e os fracos, os nobres e os venais. Uma voz pode proferir falsidades, mas em muitas sempre é
possível encontrar verdade. - Lera aquilo num livro.
- Escute então a minha voz, Vossa Graça - disse o exilado, - Esse Arstan Barba- -Branca está
levando a senhora ao engano, E velho demais para ser escudeiro, e fala bem demais para servir
àquele eunuco idiota.
Isso realmente parece estranho, Dany teve de admitir. Belwas, o Forte, era um ex- -escravo,
criado e treinado nas arenas de luta de Meereen. O Magíster Illyrio enviara-o para protegê-la, ou
pelo menos era isso que Belwas dizia, e era verdade que ela precisava de proteção. O Usurpador,
em seu Trono de Ferro, oferecera terras e uma senhoria a qualquer homem que a matasse. Uma
tentativa já tinha acontecido, com uma taça de vinho envenenado. Quanto mais perto chegasse de
Westeros, mais provável se tornava outro ataque. Em Qarth, o mago Pyat Pree enviara um Homem
Pesaroso em seu encalço para vingar os Imortais que ela queimara na sua Casa de Poeira, Os
magos nunca esqueciam uma desfeita, dizia-se, e os Homens Pesarosos nunca falhavam uma
morte. A maioria dos dothraki também estaria contra ela. Os kos de Khal Drogo lideravam agora
kha- lasares seus, e nenhum hesitaria em atacar o pequeno bando de Dany assim que o visse,
para matar e escravizar seu povo e arrastar a própria Dany para Vaes Dothrak, a fim de tomar o
lugar que lhe era próprio entre as velhas mirradas do dosh khaleen. Ela esperava que Xaro Xhoan
Daxos não fosse um inimigo, mas o mercador qarteno tinha cobiçado seus dragões, E havia ainda
Quaithe da Sombra, essa mulher estranha com máscara de laca vermelha e todos os seus
misteriosos conselhos, Seria também uma inimiga, ou apenas uma amiga perigosa? Dany não
sabia dizer.
Sor Jorah salvou-me do envenenador, e Arstan Barba-Branca, da mantícora. Talvez Belwas, o
Forte, me salve do próximo, Ele era suficientemente enorme, com braços semelhantes a pequenas
árvores e um grande arakh curvo tão afiado que poderia ter se barbeado com ele, no improvável
caso de nascerem pelos naquelas bochechas lisas e marrons. Mas também era infantil Como
protetori deixa muito a desejar. Felizmente, tenho Sor Jorah e meus companheiros de sangue. E os
meus dragões, não posso esquecer. A seu tempo, os dragões seriam seus guardiães mais
poderosos, tal como tinham sido para Aegon, o Conquistador, e suas irmãs trezentos anos antes.
Mas, por enquanto, traziam-lhe mais perigo do que proteção. No mundo inteiro não havia mais de
três dragões vivos, e eles eram seus; uma maravilha e um terror. E não tinham preço.
Refletia sobre as palavras que diria em seguida quando sentiu um sopro frio na nuca, e uma
madeixa solta de seus cabelos louro-prateados se agitou contra sua testa. Por cima, a vela rangeu
e moveu-se, e de repente irrompeu um grande grito em todo o Balerion.
- Vento! - gritavam os marinheiros. - O vento voltou, o ventol
Dany olhou para cima, para onde as velas da grande coca ondulavam e se enfunavam enquanto
as cordas vibravam, se retesavam e cantavam a doce canção de que tinham sentido tanta falta
durante seis longos dias. O capitão Groleo correu para o fundo, gritando ordens. Os pentoshi,
aqueles que não estavam soltando vivas, escalavam os mastros, Até Belwas, o Forte, soltou um
grande urro e executou uma pequena dança.
- Os deuses são bons! - disse Dany, - Está vendo, Jorah? Vamos de novo a caminho,
- Sim - ele disse -, mas de quê, minha rainha?
O vento soprou durante todo o dia, a princípio constante e de leste, e depois em violentas
rajadas. O sol pôs-se num deslumbramento vermelho. Ainda estou a meio mundo de distância de
Westeros, lembrou Dany a si mesma, mas a cada hora me aproximo mais. Tentou imaginar como
se sentiria quando vislumbrasse pela primeira vez a terra que nascera para governar. Será uma
costa mais bela que qualquer outra que já tenha visto, eu sei. Como poderia ser de outro modo?
Mas mais tarde, nessa noite, enquanto o Balerion mergulhava adiante através da escuridão e
Dany se sentava de pernas cruzadas em seu beliche na cabine do capitão, dando comida aos
dragões ("Até no mar", disse Groleo, tão atenciosamente, "as rainhas têm precedência sobre os
capitães"), alguém bateu à porta com vivacidade.
Irri estava dormindo aos pés do beliche (era estreito demais para três, e naquela noite era a vez
de Jhiqui dividir a macia cama de penas com a sua khaleesi), mas a aía ergueu-se ao ouvir o toque
e dirigiu-se à porta. Dany puxou uma colcha para cima de si e prendeu- -a debaixo dos braços.
Estava nua, e não esperava um visitante àquela hora.
- Entre - disse, quando viu Sor Jorah à porta, sob uma lanterna oscilante.
O cavaleiro exilado abaixou a cabeça ao entrar,
- Vossa Graça, lamento perturbar seu sono,
- Não estava dormindo, sor. Entre e observe, - Tirou um pedaço de carne de porco salgada da
tigela que tinha no colo e ergueu-o para os dragões verem, Todos os três o olharam com um ar
faminto. Rhaegal estendeu asas verdes e agitou o ar, e o pescoço de Viserion balançou de um lado
para o outro como uma longa serpente pálida, enquanto seguia o movimento de sua mão. - Drogon
- disse Dany em voz baixa dracarys. - E atirou o pedaço de porco ao ar.
O movimento de Drogon foi mais rápido do que o ataque de uma cobra. Chamas saíram rugindo
de sua boca, em laranja, escarlate e negro, torrando a carne antes que começasse a cair. Quando
seus afiados dentes negros se fecharam em volta do naco, a cabeça de Rhaegal projetou-se para
perto, como que para roubar a recompensa das mandíbulas do irmão, mas Drogon engoliu e
guinchou, e o dragão verde, menor, só pôde silvar, frustrado.
- Pare com isso, Rhaegal - disse Dany, aborrecida, dando-lhe uma pancada na cabeça. -Já
comeu o último. Não admito dragões gananciosos. - Sorriu para Sor Jorah. - Já não vou precisar
esturricar a carne deles num braseiro durante muito mais tempo.
- Vejo que não. Dracarys?
Os três dragões viraram as cabeças ao ouvir aquela palavra, e Viserion soltou uma labareda de
um dourado claro que fez Sor Jorah dar um apressado passo para trás. Dany soltou um risinho.
- Cuidado com essa palavra, sor, senão é provável que eles chamusquem sua barba. Significa
"fogo de dragão" em Alto Valiriano. Quis arranjar um comando que não fosse provável que alguém
proferisse por acidente.
Mormont fez um aceno.
- Vossa Graça - disse -, gostaria de saber se posso conversar um pouco com a senhora em
particular.
- Claro. Irri, deixe-nos por um instante. - Pôs uma mão no ombro nu de Jhiqui e sacudiu a outra
aia até acordá-la. - Você também, querida. Sor Jorah precisa falar comigo.
- Sim, Kkaleesi. - Jhiqui tombou do beliche, nua e bocejando, com os espessos cabelos negros
caindo em volta de sua cabeça. Vestiu-se depressa e saiu com Irri, fechando a porta atrás delas.
Dany deixou os dragões lutarem pelo resto do porco salgado, e deu palmadinhas na cama a seu
lado.
- Sente-se, bom sor, e diga-me o que o perturba.
- Três coisas. - Sor Jorah sentou-se. - Belwas, o Forte. Aquele Arstan Barba-Branca. E Illyrio
Mopatis, que os enviou.
Outra vez? Dany puxou a colcha mais para cima e passou uma ponta por sobre o ombro.
- E por quê?
- Os magos de Qarth disseram-lhe que seria traída três vezes - lembrou-lhe o cavaleiro exilado,
enquanto Viserion e Rhaegal começavam a morder e arranhar um ao outro.
- Uma vez por sangue, uma vez por ouro e uma vez por amor. - Não era provável que Dany se
esquecesse. - Mirri Maz Duur foi a primeira.
- O que significa que ainda restam dois traidores... e agora aparecem aqueles dois. Sim, acho
isso perturbador. Não se esqueça de que Robert ofereceu uma senhoria ao homem que a matar.
Dany inclínou-se para a frente e deu um puxão na cauda de Viserion, para tirá-lo de cima do
irmão verde. A colcha soltou-se de seu corpo quando se mexeu. Agarrou-a apressadamente e
voltou a cobrir-se.
- O Usurpador está morto - disse.
- Mas o filho governa em seu lugar. - Sor Jorah ergueu o olhar, e os seus olhos escuros
encontraram os dela. - Um filho atencioso paga as dívidas do pai. Até as dívidas de sangue.
- Esse garoto, Joffrey, pode me querer morta... caso se lembre de que estou viva. O que isso
tem a ver com Belwas e Arstan Barba-Branca? O velho sequer usa uma espada. Você viu que não.
- Sim. E vi a habilidade com que ele maneja aquele bastão. Lembra-se de como matou aquela
mantícora em Qarth? Com a mesma facilidade poderia ter esmagado a sua garganta.
- Poderia ter sido, mas não foi - ela ressaltou. - Era uma mantícora picadora que estava
destinada a me matar. Ele salvou minha vida.
- Khaleesi, já lhe ocorreu que aquele Barba-Branca e Belwas podiam estar combinados com o
assassino? Pode ter sido tudo um estratagema para ganhar a sua confiança.
A súbita gargalhada de Dany fez Drogon silvar e Viserion voar até o seu poleiro, acima da
portinhola.
- O estratagema funcionou bem.
O cavaleiro exilado não lhe devolveu o sorriso.
- Estes são navios de Illyrio, capitães de Illyrio, marinheiros de Illyrio... e Belwas, o Forte, e o
Barba-Branca também são homens dele, não seus.
- O Magíster Illyrio já me protegeu no passado. Belwas, o Forte, diz que ele chorou quando
ouviu dizer que meu irmão estava morto.
- Sim - disse Mormont -, mas terá chorado por Viserys, ou pelos planos que tinha
feito com ele?
- Seus planos não precisam mudar. O Magíster Illyrio é um amigo da Casa Targaryen, e é rico...
- Ele não nasceu rico. Do que já vi do mundo, nenhum homem enriquece através da bondade.
Os magos disseram que a segunda traição seria por ouro. O que é que Illyrio Mopatis ama mais do
que ouro?
- A própria pele. - Do outro lado da cabine Drogon agitou-se desassossegadamente, com vapor
se erguendo de seu focinho. - Mirri Maz Duur traiu-me. Queimei-a por isso.
- Mirri Maz Duur encontrava-se em seu poder. Em Pentos, você estará em poder de Illyrio. Não
é a mesma coisa. Conheço o magíster tão bem quanto você, Ele é um homem desleal, e esperto...
- Preciso me cercar de homens espertos se quiser conquistar o Trono de Ferro.
Sor Jorah fungou.
- Aquele vendedor de vinhos que tentou envenená-la também era um homem esperto. Homens
espertos elaboram planos ambiciosos.
Dany puxou as pernas para cima, por baixo do cobertor.
- Você vai me proteger. Você e meus companheiros de sangue.
- Quatro homens? Khaleesi, acha que conhece Illyrio Mopatis, muito bem. Mas insiste em se
cercar de homens que não conhece, como esse eunuco inchado e o mais velho escudeiro do
mundo. Aprenda uma lição com Pyat Pree e Xaro Xhoan Daxos.
Ele tem boas intenções, lembrou Dany a si mesma. Ele faz tudo isso por amor.
- Parece-me que uma rainha que não confia em ninguém é tão tola quanto uma rainha que
confia em todo mundo. Cada homem que acolho ao meu serviço é um risco, compreendo isso, mas
como poderei conquistar os Sete Reinos sem correr esses riscos? Deverei conquistar Westeros
com um cavaleiro exilado e três companheiros de sangue dothraki?
O queixo de Sor Jorah retesou-se, teimosamente.
- Seu caminho é perigoso, não nego. Mas se confiar cegamente em todos os mentirosos e
conspiradores que o cruzarem, acabará como seus irmãos.
A obstinação dele irritou-a. Trata-me como a uma criança qualquer.
Belwas, o Forte, não conseguiria conspirar para chegar a um café da manhã. E que mentiras me
contou Arstan Barba-Branca?i' - cie nao è quem hnge ser. Fala com você com mais ousadia do
que qualquer escudeiro se atreveria.
Falou francamente sob ordens minhas, Ele conheceu meu irmão.
Muitos homens conheceram seu irmão. Vossa Graça, em Westeros, o Senhor Comandante da
Guarda Real faz parte do pequeno conselho e serve seu rei tanto com a inteligência como com o
aço. Se eu sou o primeiro de sua Guarda Real, suplico-lhe, escute- -me. Tenho um plano a sugerir.
Que plano? Conte-me.
Illyrio Mopatis a quer de volta a Pentos, sob o teto dele, Muito bem, vá até ele... mas em um
momento escolhido por você, e acompanhada. Vejamos quão leais e obedientes são realmente
esses seus novos súditos. Ordene a Groleo para mudar de rumo e se dirigir à Baía dos Escravos.
Dany não tinha certeza se gostava, mesmo que um tíquinho, de como aquilo soava. Tudo que
ouvira falar dos mercados de carne nas grandes cidades de escravos de Yunkai, Meereen e
Astapor era terrível e assustador.
O que há para mim na Baía dos Escravos?
Um exército - disse Sor Jorah. - Se Belwas, o Forte, lhe agrada tanto assim, podemos comprar
mais centenas como ele nas arenas de lutadores de Meereen... mas eu dire- cionaria minhas velas
para Astapor. Em Astapor você pode comprar Imaculados.
Os escravos com chapéu de bronze com espigão? - Dany tinha visto guardas Imaculados nas
Cidades Livres, em posição ao lado dos portões de magísteres, arcontes e dinastas. - Por que eu
teria Imaculados? Eles sequer montam a cavalo, e em sua maioria são gordos.
Os Imaculados que podem ter visto em Pentos e Myr eram guardas domésticos. Isso é serviço
leve e, em todo caso, os eunucos tendem a engordar. A comida é o único vício que lhes é
permitido. Julgar todos os Imaculados por uns poucos velhos escravos domésticos é como julgar
todos os escudeiros por Arstan Barba-Branca, Vossa Graça. Conhece a história dos Três Mil de
Qohor?
Não. - A colcha deslizou do ombro de Dany, e ela voltou a colocá-la no lugar.
Foi há quatrocentos anos ou mais, quando os dothraki chegaram pela primeira vez do leste,
saqueando e incendiando todas as vilas e cidades que encontravam pelo caminho. O khal que os
liderava chamava-se Temmo. Seu khalasar não era tão grande quanto o de Drogo, mas era grande
o suficiente. Cinqüenta mil, pelo menos, metade dos quais era de guerreiros com campainhas
tinindo em suas tranças,
"Os Qohorik sabiam que ele estava a caminho. Fortaleceram as muralhas, duplicaram o
tamanho de sua guarda e contrataram ainda duas companhias livres, os Brilhantes Estandartes e
os Segundos Filhos. E, quase como uma idéia de última hora, enviaram um homem a Astapor para
comprar três mil Imaculados. Mas era uma longa marcha de regresso a Qohor e, quando se
aproximaram, viram fumaça e poeira e ouviram o estrondo distante da batalha.
"Quando os Imaculados chegaram à cidade, o sol tinha se posto. Corvos e lobos
banqueteavam-se à sombra das muralhas com aquilo que restava da cavalaria pesada de Qohor.
Os Brilhantes Estandartes e os Segundos Filhos tinham fugido, como os mercenários costumam
fazer quando se defrontam com desvantagens insuperáveis. Com a escuridão caindo, os dothraki
tinham se retirado para os seus acampamentos, a fim de beber, dançar e banquetear-se, mas
ninguém duvidava de que retornariam de manhã para esmagar as portas da cidade, assaltar as
muralhas e violar, saquear e escravizar a seu bel-prazer.
"Mas quando rompeu a alvorada e Temmo e seus companheiros de sangue saíram do
acampamento à frente do khalasar, foram encontrar três mil Imaculados imóveis diante dos
portões, com o estandarte da Cabra Negra esvoaçando sobre as suas cabeças. Uma força tão
pequena podia ter sido facilmente flanqueada, mas conhece os dothraki. Aqueles homens
estavam a pé, e homens a pé só servem para ser atropelados.
"Os dothraki investiram. Os Imaculados ergueram os escudos, baixaram as lanças, e
suportaram. Contra vinte mil homens aos gritos, com campainhas nos cabelos, agüentaram.
"Dezoito vezes os dothraki investiram, e quebraram-se contra aqueles escudos e lanças como
ondas em uma costa rochosa. Três vezes Temmo mandou seus arqueiros cercarem os
Imaculados, e flechas choveram como chuva sobre eles, mas os Três Mil limitaram-se a erguer os
escudos sobre a cabeça até a tempestade passar. Por fim, só restaram seiscentos deles... mas
mais de doze mil dothraki jaziam mortos naquele campo de batalha, incluindo Khal Temmo, seus
companheiros de sangue, seus kos e todos os seus filhos. Na manhã do quarto dia, o novo khal
levou os sobreviventes em uma imponente procissão junto aos portões da cidade. Um por um,
todos os homens cortaram as tranças e arremessaram-nas aos pés dos Três Mil.
"Desde esse dia, a guarda urbana de Qohor é composta unicamente de Imaculados, e todos
usam uma grande lança, da qual pende uma trança de cabelo humano.
"Isto é o que encontrará em Astapor, Vossa Graça. Acoste lá, e prossiga até Pentos por terra.
Levará mais tempo, sim... mas quando dividir a mesa com o Magíster Illyrio, terá mil espadas atrás
de si, e não apenas quatro."
Sim, há sabedoria nisso, pensou Dany, mas...
- Como posso comprar mil soldados escravos? Tudo que tenho de valor é a coroa que a
Irmandade Turmalina me deu.
- Os dragões serão uma maravilha tão grande em Astapor como foram em Qarth. Pode ser que
os negociantes de escravos façam chover presentes sobre você, como os qar- tenos fizeram. Se
não... estes navios transportam mais do que os seus dothraki e seus cavalos. Embarcaram
mercadoria em Qarth, eu percorri os porões e vi-a com meus próprios olhos. Rolos de seda e
fardos de pele de tigre, esculturas em âmbar e jade, açafrão, mirra... os escravos são baratos,
Vossa Graça. Peles de tigre são caras.
- Essas peles de tigre são de Illyrio - ela objetou.
- E Illyrio é um amigo da Casa Targaryen.
- Mais um motivo para não roubar sua mercadoria.
- Para que servem os amigos ricos se não puserem a sua riqueza ao seu dispor, minha rainha?
Se o Magíster Illyrio lhe negar isso, é apenas um Xaro Xhoan Daxos com quatro queixos. E se for
sincero em sua devoção à sua causa, não se mostrará relutante em dar- -Ihe três navios
carregados de mercadoria. Que melhor uso poderá haver para as suas peles de tigre do que
comprar o início de um exército para você?
Isso é verdade. Dany sentiu uma excitação crescente.
- Haverá perigos numa marcha tão longa.
- Também há perigos no mar. Corsários e piratas percorrem a rota sul e, ao norte de Valíria, o
Mar Fumegante é assombrado por demônios. A próxima tempestade pode nos afundar ou nos
dispersar, uma lula gigante pode nos puxar para o fundo,., ou podemos nos perder de novo numa
calmaria, e morrer de sede enquanto esperamos pelo vento. Uma marcha terá perigos diferentes,
minha rainha, mas nenhum será maior.
- Mas e se o capitáo Groleo recusar a mudança de rota? E Arstan e Belwas, o Forte, o que
farão?
Sor Jorah levantou-se.
- Talvez seja hora de descobrir.
- Sim - decidiu ela. - Farei isso! - Dany atirou a colcha para trás e saltou do beliche. - Vou já falar
com o capitão, ordenar-lhe que marque uma rota para Astapor. - Dobrou- -se sobre o seu baú,
abriu a tampa e pegou a primeira roupa que encontrou, um par de calças largas de sedareia. -
Dê-me o meu cinto de medalhões - ordenou a Jorah enquanto puxava a sedareia sobre as coxas. -
E o meu colete... - começou a dizer, virando-se.
Sor Jorah deslizou os braços em volta dela.
- Oh - foi tudo o que Dany teve tempo de dizer quando ele a puxou e pressionou os lábios contra
os dela. Cheirava a suor, sal e couro, e os rebites de ferro em seu justilho enterraram-se nos seus
seios nus quando ele a apertou com força contra si. Uma mão prendeu-a pelos ombros enquanto a
outra deslizou ao longo da espinha até a base das costas, e a boca de Dany abriu-se para deixar
entrar a língua dele, embora ela não lhe tivesse dito para fazer isso. A barba dele arranha, pensou,
mas a boca é suave. Os dothraki não usavam barba, tinham apenas longos bigodes, e antes só
Khal Drogo a beijara. Ele não devia estar fazendo isso. Sou sua rainha, não sua mulher.
Foi um beijo longo, embora Dany não soubesse dizer quão longo. Quando terminou, Sor Jorah
largou-a, e ela deu um passo rápido para trás.
- Você... você não devia...
- Eu não devia ter esperado tanto tempo - concluiu o cavaleiro, - Devia tê-la beijado em Qarth,
em Vaes Tolorro. Devia tê-la beijado no deserto vermelho, todas as noites e todos os dias. Foi feita
para ser beijada, sempre e bem. - Os olhos dele estavam fixos em seus seios.
Dany cobriu-os com as mãos, antes que os mamilos a traíssem.
- Eu... isso não foi certo. Sou sua rainha.
- Minha rainha - disse ele - e a mais corajosa, mais doce e mais bela mulher que eu já vi.
Daenerys...
- Vossa Graçal
- Vossa Graça - concedeu ele -, o dragão tem três cabeças, lembra? Tem refletido sobre essa
frase desde que a ouviu dos feiticeiros na Casa da Poeira, Bem, aqui está o significado: Balerion,
Meraxes e Vhagar, montados por Aegon, Rhaenys e Visenya. O dragão de três cabeças da Casa
Targaryen,,. três dragões e três cavaleiros.
- Sim - disse Dany mas meus irmãos estão mortos.
- Rhaenys e Visenya eram esposas de Aegon, além de serem suas irmãs. Não tem irmãos, mas
pode ter maridos, E digo-lhe com franqueza, Daenerys, não há outro homem no mundo inteiro que
tenha por você nem metade da fidelidade que eu tenho.
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
JON
mundo era uma escuridão cinzenta e fria, com cheiro de pinheiro e musgo, Névoas pálidas
erguiam-se da terra negra enquanto os cavaleiros abriam caminho pela confusão de pedras e
árvores deformadas na direção das bem-vindas fogueiras que se espalhavam como jóias no fundo
do vale do rio, lá embaixo. Havia mais fogueiras do quejon Snow conseguia contar, centenas delas,
milhares, um segundo rio de luzes tremeluzentes ao longo das margens do Guadeleite, branco de
gelo. Os dedos da mão que manejava a espada se abriram e fecharam.
Desceram a vertente sem estandartes nem trombetas, num silêncio interrompido apenas pelo
murmúrio distante do rio, pelo ruído dos cascos e pelos estalidos da armadura de ossos do Camisa
de Chocalho, Em algum lugar, lá no alto, uma águia pairava, com grandes asas azul-acinzentadas
abertas, enquanto embaixo seguiam homens, cães, cavalos e um gigante lobo branco.
Uma pedra rolou encosta abaixo, perturbado por um casco de passagem, e Jon viu Fantasma
virar a cabeça ao ouvir o súbito som. Ele tinha seguido os cavaleiros a distância o dia todo, como
era seu costume, mas quando a lua se ergueu sobre os pinheiros marciais, aproximou-se aos
saltos, com os olhos vermelhos brilhando. Os cães do Camisa de Chocalho receberam-no com um
coro de rosnidos e violentos latidos, como sempre, mas o lobo gigante não lhes deu importância.
Seis dias antes, o maior dos cães atacara-o por trás enquanto os selvagens acampavam à noite,
mas Fantasma virara-se e mordera- -o, colocando o cão para correr com um quadril
ensangüentado. Depois disso, o resto da matilha passou a guardar uma distância saudável.
O garrano de Jon Snow relinchou baixinho, mas um toque e uma palavra carinhosa rapidamente
aquietaram o animal. Seria bom que seus próprios medos fossem acalmados com tanta facilidade
quanto os do animal. Estava todo vestido de preto, o negro da Patrulha da Noite, mas o inimigo
acompanhava-o, à frente e atrás. Selvagens, e eu estou com eles, Ygritte usava o manto de Qhorin
Meia-Mão. Lenyl tinha a camisa de malha dele; a grande esposa de lanças, Ragwyle, as luvas; um
dos arqueiros, as botas. O elmo de Qhorin foi ganho pelo pequeno simplório chamado
Lança-Longa Ryk, mas encaixava-se mal em sua cabeça estreita, e ele deu-o também a Ygritte. E
o Camisa de Chocalho levava os ossos de Qhorin no saco, bem como a cabeça ensangüentada de
Ebben, que tinha partido com Jon para bater o Passo dos Guinchos, Mortos, todos mortos, menos
eu, e eu estou morto para o mundo.
Ygritte seguia logo atrás dele, À frente ia o Lança-Longa Ryk. O Senhor dos Ossos tinha feito
dos dois seus guardas,
O
- Se o corvo fugir, também fervo os ossos de vocês - preveniu-os quando partiram, sorrindo
através dos dentes tortos do crânio de gigante que usava como elmo.
Ygritte gritou para ele.
- Você quer guardá-lo? Se quer que nos encarreguemos disso, deixe-nos em paz e faremos o
que pede.
Este é realmente um povo livre, compreendeu Jon. Camisa de Chocalho podia ser o líder, mas
nenhum deles se acanhava em dar resposta a ele.
O líder selvagem fitou-o com um olhar pouco amistoso.
- Pode ser que tenha enganado esses aí, corvo, mas não ache que vai enganar Mance. Ele vai
olhar uma vez pra você e ver que é um farsante. E quando isso acontecer, vou fazer um manto
com o seu lobo ali, e abrir sua barriga mole de rapaz pra costurá-la com uma doninha lá dentro.
A mão de Jon que manejava a espada tinha se aberto e fechado, flexionando os dedos
queimados sob a luva, mas o Lança-Longa Ryk limitou-se a rir.
- E onde é que você ia achar uma doninha na neve?
Nessa primeira noite, após um longo dia a cavalo, tinham acampado numa rasa con- cavidade
de pedra, no topo de uma montanha sem nome, aninhando-se junto à fogueira enquanto a neve
começava a cair. Jon observava os flocos derreterem enquanto pairavam sobre as chamas.
Apesar das camadas de lá, peles e couro, sentia frio até os ossos. Ygritte sentou-se ao seu lado
depois de comer, com o capuz levantado e as mãos enfiadas nas mangas, para aquecâ-las.
- Quando Mance ouvir dizer como você deu cabo do Meia-Mão, vai recebê-lo bem depressa -
disse-lhe.
- Receber-me onde?
A moça riu com zombaria.
- Recebê-lo como um de nós. Acha que é o primeiro corvo a fugir da Muralha? Lá no fundo,
vocês todos só querem voar livres.
- E quando eu for livre - disse ele lentamente -, serei livre para ir embora?
- Claro que sim. - Ela tinha um sorriso quente, apesar dos dentes tortos. - E ele vai ser livre pra
matar você. Ser livre é perigoso, mas a maior parte acaba gostando. - Pousou a mão enluvada em
sua perna, logo acima do joelho. - Você vai ver.
- Vou ver, pensou Jon. Vou ver e ouvir, e aprender, e quando o tiver feito, levarei as novidades
de volta para a Muralha. Os selvagens tinham-no tomado por perjuro, mas em seu âmago ainda
era um homem da Patrulha da Noite, cumprindo o último dever que Qhorin Meia-Mão depositara
nele. Antes de ser morto por mim..
- No fundo da encosta depararam-se com um pequeno riacho que descia do sopé dos montes e
ia se juntar ao Guadeleite. Parecia todo feito de pedras e gelo, embora conseguissem ouvir o som
da água correndo sob a superfície congelada. Camisa de Chocalho atravessou à frente deles,
estilhaçando a fina crosta de gelo.
- Os batedores de Mance Rayder cercaram-nos quando subiram para a margem. De re- lance,
Jon verificou quantos eram; oito cavaleiros, tanto homens como mulheres, vestidos de peles e
couro fervido, com um elmo ou um pouco de cota de malha aqui e ali. Vinham armados com lanças
e arpões endurecidos pelo fogo, todos menos o chefe, um louro cor
pulento, com olhos lacrimejantes, que usava uma grande gadanha curva de aço afiado. O Chorão,
compreendeu de imediato. Os irmãos negros contavam histórias sobre ele. Assim como Camisa
de Chocalho, Harma Cabeça de Cão e Alfyn Mata-Corvos, era um célebre assaltante.
- O Senhor dos Ossos - disse Chorão quando os viu. Deu uma olhada em Jon e em seu lobo. -
E este, quem é?
- Um corvo que passou pro lado de cá - disse Camisa de Chocalho, que preferia ser chamado
de Senhor dos Ossos devido à ruidosa armadura que usava. - Tava com medo que eu roubasse os
ossos dele como os do Meia-Mão. - Sacudiu o saco de troféus na direção dos outros selvagens,
- Ele matou Qhorin Meia-Mão - disse Lança-Longa Ryk. - Ele e seu lobo.
- E também deu cabo do Orell - disse Camisa de Chocalho.
- O moço é um warg, ou coisa que o valha - interveio Ragwyle, a grande esposa de lanças, - O
lobo dele arrancou um pedaço da perna do Meia-Mão.
Os olhos vermelhos e remelentos de Chorão deram outra olhada em Jon.
- Ah, é? Bom, tem certo ar de lobo, agora que o vejo de perto. Levem-no até Mance, pode ser
que fique com ele. - Fez o cavalo dar meia-volta e afastou-se a galope, com os companheiros logo
atrás.
O vento soprava úmido e pesado quando atravessaram o vale do Guadeleite e avançaram em
fila pelo acampamento. Fantasma manteve-se perto de Jon, mas seu cheiro seguia à frente do
grupo como um arauto, e logo havia cães dos selvagens por toda a volta, rosnando e latindo. Lenyl
gritou-lhes que se calassem, mas não prestaram atenção nele.
- Não gostam muito desse seu animal - comentou Lança-Longa Ryk a Jon.
- São cães e ele é um lobo - disse Jon. - Sabem que não pertence à espécie deles. - Tal como
eu não pertenço à sua. Mas tinha de manter seu dever em mente, a tarefa de que Qhorin Meia-Mão
o encarregara enquanto partilhavam aquela última fogueira... desempenhar o papel de vira-casaca
e encontrar o que quer que fosse que os selvagens tinham andado à procura na estéril desolação
fria das Presas de Gelo. "Algum poder", Qhorin tinha denominado em conversa com o Velho Urso,
mas morrera antes de saber que poder seria, ou se Mance Rayder o teria encontrado com suas
escavações.
Havia fogueiras para cozinhar ao longo de todo o rio, entre carros, carroças e trenós. Muitos dos
selvagens tinham erguido tendas, de couro cru, peles e feltro. Outros abrigavam-se atrás de
rochedos, em toldos improvisados, ou dormiam debaixo de suas carroças. Junto a uma fogueira,
Jon viu um homem endurecendo a ponta de longas lanças de madeira e atirando-as em uma pilha.
Em outro ponto, dois jovens barbudos vestidos de couro fervido lutavam com varas, saltando um
sobre o outro por cima das chamas, grunhindo toda vez que um golpe acertava o alvo. Uma dúzia
de mulheres estava sentada ali perto, preparando flechas.
Flechas para os meus irmãos, pensou Jon. Flechas para o povo de meu pai, para o povo de
Winterjell, Bosque Profundo e Última Lareira. Flechas para o norte.
Mas nem tudo que via era bélico. Vislumbrou também mulheres dançando, e ouviu um bebê
chorando, e um garotinho passou correndo diante de seu garrano, todo enrolado em peles e sem
fôlego, por causa da brincadeira. Ovelhas e cabras vagueavam livremente, enquanto bois
percorriam a margem do rio em busca de pasto. Cheiro de carneiro assado pairava no ar, vindo de
uma das fogueiras, e em outra viu um javali sendo girado em um espeto de madeira.
Num espaço aberto rodeado por grandes pinheiros marciais, Camisa de Chocalho desmontou.
- Acampamos aqui - disse a Lenyl, Ragwyle e os outros. - Deem de comer aos cavalos, depois
aos cães, depois a vocês. Ygritte, Lança-Longa, tragam o corvo para que Mance possa dar uma
olhada nele. Vamos estripá-lo depois.
Seguiram a pé o resto do caminho, passando por mais fogueiras e tendas, com Fantasma
seguindo de perto. Jon nunca tinha visto tantos selvagens. Perguntou a si mesmo se alguém já
teria. 0 acampamento não tem fim, refletiu, mas é mais uma centena de acampamentos do que um
só, e cada um deles é mais vulnerável do que o anterior. Espalhados ao longo de uma grande área,
os selvagens não tinham defesas de que valesse a pena falar, nem fossos nem estacas afiadas, só
pequenos grupos de batedores patrulhando os terrenos ao redor. Cada grupo, clã ou aldeia
simplesmente acampou onde quis, assim que viu os outros parando ou encontrou um bom local. O
povo livre. Se os seus irmãos os apanhassem em tal desordem, muitos pagariam tal liberdade com
o sangue do corpo. Possuíam número, mas a Patrulha da Noite tinha disciplina e, "em batalha, a
disciplina vence o número em nove entre dez batalhas", o pai disse-lhe certa vez.
Não havia como não saber qual das tendas pertencia ao rei. Era três vezes maior do que a
segunda maior tenda que vira, e ouvia-se música vinda lá de dentro. Tal como muitas das tendas
menores, aquela era feita de peles cosidas ainda com pelo, mas as de Mance Rayder eram as
hirsutas peles brancas dos ursos das neves. Um enorme par de chifres de um dos alces gigantes
que outrora vagueavam livremente pelos Sete Reinos, nos tempos dos Primeiros Homens,
coroava a cobertura pontiaguda.
Pelo menos ali encontrou defensores; dois guardas junto à abertura da tenda, apoiados em
grandes lanças e com escudos redondos feitos de couro. Quando viram Fantasma, um deles
baixou a lança e disse:
- Esse animal fica aqui.
- Fantasma, fique - ordenou Jon. O lobo gigante sentou-se.
- Lança-Longa, vigie o lobo. - Camisa de Chocalho puxou a aba da tenda e, com um gesto,
ordenou que Jon e Ygritte entrassem.
A tenda estava quente e fumacenta. Nos quatro cantos havia cestos de turfa queimando,
enchendo o ar com uma tênue luz avermelhada. Mais peles atapetavam o chão. Jon sentiu-se
absolutamente só ali, em pé, vestido de negro, esperando a atenção do vira-casaca que se
autodenominava Rei-para-lá-da-Muralha. Depois de seus olhos se ajustarem à luz vermelha e
esfumaçada, viu seis pessoas, nenhuma das quais prestou qualquer atenção nele. Um jovem
escuro e uma loura bonita dividiam um corno de hidromel. Uma mulher grávida estava em pé junto
a um braseiro, cozinhando algumas galinhas, enquanto um homem grisalho com um esfarrapado
manto preto e vermelho estava sentado numa almofada, de pernas cruzadas, tocando um alaúde e
cantando:
A mulher do dornês era bela como o sol e seus beijos, quentes como a primavera. Mas a espada
do dornês era feita de aço negro e o seu beijo, a mordida de uma fera. Jon conhecia a canção,
embora fosse estranho ouvi-la ali, numa tenda de peles felpudas para lá da Muralha, a dez mil
léguas das montanhas vermelhas e dos ventos quentes de Dorne.
Camisa de Chocalho tirou seu elmo amarelado enquanto esperava que a canção chegasse ao
fim. Sob sua armadura de osso e couro era um homem pequeno, e o rosto por baixo do crânio de
gigante era simples, com um queixo nodoso, um bigode fino e bochechas pálidas e descarnadas.
Os olhos eram bem próximos um do outro, com sobrancelhas que cruzavam toda a testa, e os
cabelos escuros rareavam, recuando nas têmporas.
A mulher do dornês cantava no banho, numa voz que era pêssego doce. Mas a espada do
dornês tinha a sua canção, e mordia como se sanguessuga fosse.
Ao lado do braseiro, um homem baixo mas imensamente largo estava sentado num banco,
comendo uma galinha diretamente no espeto. Gordura quente escorria por seu queixo e pela barba
branca como a neve, mas ele sorria mesmo assim, com um ar feliz. Três presilhas de ouro
gravadas com runas cingiam seus braços fortes, e usava uma pesada camisa de cota de malha
negra que só podia ter vindo de um patrulheiro morto. Não muito longe dele, um homem mais alto
e mais esguio, com uma camisa de couro com escamas de bronze, franzia a testa sobre um mapa,
com uma longa espada a tiracolo, em uma bainha de couro. Era reto como uma lança, todo ele
longos músculos duros, escanhoado, calvo, com um forte nariz reto e olhos cinzentos encovados.
Podia ter sido bonito se tivesse orelhas, mas perdera ambas; Jon não sabia dizer se devido ao frio
ou à faca de algum inimigo. A falta delas fazia com que a cabeça do homem parecesse estreita e
pontiaguda.
Tanto o homem de barba branca como o calvo eram guerreiros, tinha bastado um relance para
que isso ficasse claro para Jon. Esses dois são de longe mais perigosos do que o Camisa de
Chocalho. Perguntou a si mesmo qual deles seria Mance Rayder.
Jazendo no chão, rodeado de escuridão, seu sangue ele saboreou, Os irmãos se ajoelharam e
rezaram uma oração, e ele sorriu e ele riu e cantou, "Irmãos, oh irmãos, os meus dias estão no fim,
o dornês minha vida desfez, Mas que importa, não há homem que não tenha de morrer, e eu provei
a mulher do dornês!"
Enquanto as últimas notas de "A mulher do dornês" se desvaneciam, o homem careca e sem
orelhas ergueu os olhos do mapa e fez uma carranca feroz para Camisa de Chocalho e Ygritte, que
tinham Jon entre eles.
- O que é isto? - ele perguntou. - Um corvo? O bastardo preto que estripou Orell - disse Camisa
de Chocalho - e também um maldito warg.
- Devia ter matado todos.
- Este passou para o nosso lado - explicou Ygritte. - Matou Qhorin Meia-Mão com as próprias
mãos.
- Esse garoto? - o homem sem orelhas irritou-se com a notícia. - O Meia-Mão devia ter sido
meu. Você tem nome, corvo?
-Jon Snow, Vossa Graça, - Perguntou a si mesmo se também esperavam que dobrasse o
joelho.
- Vossa Graça? - o homem sem orelhas olhou para o grandalhão da barba branca. - Vê? Ele
acha que sou rei.
O barbudo riu com tanta força que espalhou pedaços de galinha por toda a parte. Limpou a
gordura da boca com as costas de uma de suas enormes mãos.
- Um rapaz cego, só pode ser. Quem já ouviu falar de um rei sem orelhas? Ora, a coroa cairia
até o pescoço! Ha! - Dirigiu a Jon um sorriso, limpando os dedos nas calças, - Feche o bico, corvo.
Dê meia-volta e talvez encontre quem veio procurar.
Jon virou-se.
O cantor pôs-se em pé.
- Sou Mance Rayder - disse ele, enquanto colocava o alaúde de lado. - E você é o bastardo de
Ned Stark, o Snow de Winterfell.
Aturdido, Jon ficou sem fala por um momento, antes de se recuperar o suficiente para dizer:
- Como... como pode saber...
- Isso é uma história para mais tarde - disse Mance Rayder. - O que achou da canção, moço?
- Gostei bastante. Já a tinha ouvido.
- Mas que importa, não há homem que não tenha de morrer - disse alegremente o
Rei-para-Iá-da-Muralha -, e eu provei a mulher do dornês. Diga-me, o meu Senhor dos Ossos fala
a verdade? Matou meu velho amigo, o Meia-Mão?
- Matei. - Embora tenha sido mais obra dele do que minha.
- A Torre Sombria nunca mais vai parecer tão temível - disse o rei, com tristeza na voz. - Qhorin
era meu inimigo. Mas também foi meu irmão um dia. Por isso... devo agradecê-lo por tê-lo matado,
Jon Snow? Ou amaldiçoá-lo? - dirigiu a Jon um sorriso zombeteiro.
O Rei-para-lá-da-Muralha não se parecia em nada com um rei, e tampouco se parecia com um
selvagem, Era de média estatura, magro, com feições bem definidas, astutos olhos castanhos e
longos cabelos castanhos já quase totalmente grisalhos. Não havia coroa em sua cabeça, nem
presilhas de ouro nos braços, nem jóias no pescoço, nem mesmo uma cintilação de prata. Usava
lã e couro, e o único traje digno de nota que vestia era o esfarrapado manto de lã negra, cujos
longos rasgões tinham sido cosidos com seda vermelha desbotada.
- Devia me agradecer por matar seu inimigo - disse Jon por fim - e me amaldiçoar por matar seu
amigo.
- Ha! - trovejou o homem da barba branca. - Bem respondido!
- De acordo. - Mance Rayder fez um gesto para Jon se aproximar. - Se quer se juntar a
nós, é melhor que nos conheça. O homem que confundiu comigo é Styr, Magnar de Thenn.
Magnar significa "senhor" no Idioma Antigo. - O homem sem orelhas fitou Jon friamente
enquanto Mance se virava para o homem da barba branca. - Aqui, nosso feroz comedor de
galinhas é o meu leal Tormund. A mulher...
- Tormund levantou-se.
- Espere. Tratou Styr por seu título, trate-me também pelo meu,
Mance Rayder soltou uma gargalhada,
- Como quiser. Jon Snow, perante a sua presença encontra-se Tormund Terror dos
Gigantes, Arauto, Soprador de Chifres e Quebrador de Gelo. Eis também Tormund Punho
de Trovão, Esposo de Ursas, Rei-Hidromel de Solar Ruivo, Falador com os Deuses e Pai de
Tropas.
- Isso já se parece mais comigo - disse Tormund. - Prazer em conhecê-lo, Jon Snow.
Acontece que gosto de wargs, apesar de não gostar nada dos Stark,
- A boa mulher junto ao braseiro - prosseguiu Mance Rayder - é Dalla, - A grávida deu um
sorriso tímido. - Trate-a como trataria qualquer rainha, porque espera um filho meu. -
Virou-se para os últimos dois. - Esta beldade é a irmã de Dalla, Vai. O jovem Jarl, ao lado
dela, é seu último animalzinho de estimação.
- Não sou animal de estimação de homem nenhum - disse Jarl, sombrio e feroz.
- E Vai não é homem nenhum - resfolegou o da barba branca, Tormund. - A esta altura já
devia ter percebido, moço.
- Então aqui nos tem, Jon Snow - disse Mance Rayder, - O Rei-para-lá-da-Muralha e sua
corte, tal como é. E agora algumas palavras suas, creio eu. De onde vem?
- De Winterfell - disse Jon -, via Castelo Negro.
- E o que o traz ao vale do Guadeleite, tão longe dos fogos de sua casa? - não esperou
pela resposta de Jon, e olhou de imediato para Camisa de Chocalho. - Quantos eram?
- Cinco. Três tão mortos e o rapaz tá aqui. O outro subiu uma encosta onde nenhum
cavalo podia segui-lo.
Os olhos de Rayder voltaram a encontrar os de Jon,
- Eram só os cinco? Ou há mais irmãos seus escondidos por aí?
- Éramos quatro e o Meia-Mão. Qhorin valia por vinte homens comuns.
O Rei-para-lá-da-Muralha sorriu ao ouvir aquilo.
- Havia quem pensasse assim. Seja como for... um rapaz de Castelo Negro com patrulheiros
da Torre Sombria? Como foi que isso aconteceu?
Jon tinha a mentira pronta.
- O Senhor Comandante mandou-me ao Meia-Mão para ganhar experiência, e por isso
ele trouxe-me a essa patrulha.
Styr, o Magnar, franziu a testa ao ouvir aquilo.
- Chama isso de patrulha... por que corvos viriam patrulhar pelo Passo dos Guin- chos
acima?
- As aldeias estavam desertas - disse Jon, honestamente. - Era como se todo o povo livre
tivesse desaparecido.
- Desaparecido, certo - falou Mance Rayder. - E não só o povo livre. Quem lhes disse
onde estávamos, Jon Snow?
Tormund fungou.
- Se não foi o Craster, eu sou uma donzela corada. Eu disse, Mance, aquela criatura
precisa ficar uma cabeça mais curta.
üi I O rei deu ao homem mais velho um olhar irritado.
- Tormund, um dia desses experimente pensar antes de falar. Eu sei que foi o Craster.
Perguntei a Jon para ver se ele nos diria a verdade.
- Ha. - Tormund escarrou, - Bem, meti os pés pelas mãos! - Dirigiu um sorriso a Jon. - Tá
vendo, moço, é por isso que ele é rei e eu não. Bebo melhor, luto melhor e canto melhor que ele, e
o meu membro é três vezes maior que o dele, mas Mance tem astúcia. Foi educado como corvo,
sabe, e o corvo é um pássaro cheio de truques.
- Gostaria de falar com o rapaz a sós, meu Senhor dos Ossos - disse Mance Rayder ao Camisa
de Chocalho. - Deixem-nos, todos vocês,
- O quê, eu também? - perguntou Tormund.
- Sim, especialmente você - disse Mance.
- Não como em um salão onde não sou bem-vindo. - Tormund ficou em pé. - Eu e as galinhas
vamos embora. - Pegou outra galinha do braseiro, enfiou-a num bolso costurado no forro de seu
manto, disse "Ha", e saiu lambendo os dedos. Os outros seguiram- -no, todos menos a mulher
chamada Dalla.
- Sente-se, se quiser - disse Rayder depois de eles partirem. - Está com fome? Tormund
deixou-nos pelo menos duas aves.
- Eu adoraria comer, Vossa Graça. E obrigado.
- Vossa Graça? - o rei sorriu. - Isso não é tratamento que se ouça com freqüência vindo dos
lábios do povo livre. Para a maioria sou Mance. 0 Mance para alguns. Aceita um corno de
hidromel?
- De bom grado - disse Jon.
O próprio rei o serviu enquanto Dalla cortava as galinhas crocantes e dividia a porção entre os
dois. Jon descalçou as luvas e comeu com os dedos, chupando dos ossos cada pedacinho de
carne.
- Tormund falou a verdade - disse Mance Rayder enquanto partia um pão. - O corvo preto é um
pássaro cheio de truques, é assim mesmo... mas eu já era um corvo quando você não era maior
do que o bebê na barriga de Dalla, Jon Snow, Portanto tome cuidado para não tentar truques
comigo.
-Às suas ordens, Vossa... Mance.
O rei soltou uma gargalhada.
- Vossa Mance! E por que não? Há pouco prometi uma história a você sobre o modo como o
conheci. Já descobriu?
Jon balançou a cabeça.
- Camisa de Chocalho enviou a notícia à nossa frente?
- Voando? Não temos corvos treinados. Não, reconheci seu rosto. Já tinha visto você antes.
Duas vezes.
- A princípio não fazia sentido, mas quando Jon revirou a informação em sua mente, a manhã
clareou,
- Quando era um irmão da Patrulha...
- Muito bem! Sim, essa foi a primeira vez. Você era só um garoto e eu estava todo de preto, fazia
parte de uma dúzia que escoltou o velho Senhor Comandante Qorgyle quando ele desceu até
Winterfell para um encontro com o seu pai. Eu percorria a muralha em volta do pátio quando me
deparei com você e seu irmão Robb. Nevara na noite anterior, e vocês tinham feito uma grande
montanha por cima do portão e estavam esperando que alguém passasse por baixo.
- Eu me lembro - disse Jon, surpreso, com uma gargalhada. Um jovem irmão negro no adarve,
sim. - Jurou não contar.
- E mantive meu voto. Pelo menos esse.
- Despejamos a neve em cima do Gordo Tom. Ele era o guarda mais lento do pai. - Tom
perseguira-os depois, em volta do pátio, até os três ficarem vermelhos como maçãs de outono. -
Mas disse que me viu duas vezes. Quando foi a segunda?
- Quando o Rei Robert veio a Winterfell para fazer de seu pai Mão - disse com malícia o
Rei-para-lá-da-Muralha.
Os olhos de Jon arregalaram-se de descrença.
- Não pode ser verdade.
- Mas foi. Quando seu pai soube que o rei vinha, mandou a notícia ao irmão Benjen, na Muralha,
para que ele pudesse descer para o banquete, Há mais trocas entre os irmãos negros e o povo livre
do que você imagina, e não demorou muito tempo para a notícia chegar também aos meus
ouvidos. Era uma oportunidade boa demais para resistir. Seu tio não me conhecia de vista,
portanto nada tinha a temer vindo daí, e não me parecia que seu pai fosse capaz de se lembrar de
um jovem corvo que conhecera brevemente anos antes. Queria ver esse Robert com meus
próprios olhos, de rei para rei, e também avaliar seu tio Benjen. Nessa época, ele era Primeiro
Patrulheiro, e o terror de todo o meu povo. Portanto selei meu cavalo mais veloz e tomei o caminho.
- Mas - objetou Jon - a Muralha...
- A Muralha pode parar um exército, mas não um homem sozinho. Peguei um alaú- de e uma
bolsa de prata, escalei o gelo perto do Monte Longo, caminhei algumas léguas para o sul da Nova
Dádiva e comprei um cavalo. Apesar de tudo, fui muito mais rápido do que Robert, que viajava com
uma imponente e enorme casa rolante para manter a sua rainha confortável. A um dia de
Winterfell, para o sul, encontrei-o e juntei-me à sua comitiva. Cavaleiros livres e pequenos
cavaleiros passam a vida ligando-se a cortejos reais, na esperança de entrar para o serviço do rei,
e o meu alaúde me fez conquistar uma aceitação fácil. - Mance soltou uma gargalhada. - Conheço
todas as canções obscenas que já foram feitas, ao norte ou ao sul da Muralha. Então é isso. Na
noite em que seu pai ofereceu o banquete a Robert, eu estava sentado num banco no fundo do seu
salão, com os outros cavaleiros livres, ouvindo Orland de Vilavelha tocar sua harpa e cantar
cantigas sobre reis mortos sob o mar. Entreguei-me à comida e à bebida do senhor seu pai, passei
os olhos pelo Regicida e pelo Duende... e tomei nota, de passagem, dos filhos de Lorde Eddard e
dos lobinhos que corriam atrás deles,
- Bael, o Bardo - disse Jon, lembrando-se da história que Ygritte lhe contara nas Presas de Gelo,
na noite em que quase a tinha matado.
- Bem que eu gostaria. Não negarei que a façanha de Bael inspirou a minha... mas, que me
lembre, não raptei nenhuma de suas irmãs. Bael escrevia as próprias canções e viveu-as. Eu só
canto as canções que homens melhores fizeram. Mais hidromel?
- Não - disse Jon. - Se tivesse sido descoberto... capturado...
- Seu pai teria cortado a minha cabeça. - O rei encolheu os ombros. - Se bem que, depois de ter
comido à sua mesa, estivesse protegido pelo direito de hóspede. As leis da hospitalidade são
velhas como os Primeiros Homens e sagradas como uma árvore-coração. - Fez um gesto para a
mesa entre eles, para o pão partido e os ossos de galinha. - Aqui é você o hóspede, e está a salvo
de ser ferido pelas minhas mãos... esta noite, pelo
menos. Portanto, diga-me a verdade, Jon Snow. É um covarde que virou a casaca por medo, ou há
algum outro motivo que o traga à minha tenda?
Direito de hóspede ou não, Jon Snow sabia que ali caminhava em gelo quebradiço. Um passo
em falso e podia atravessá-lo para dentro de água suficientemente fria para lhe parar o coração.
Pese toâas as palavras antes de dize-las, disse a si mesmo. Tomou um longo trago de hidromel, a
fim de ganhar tempo para a resposta. Quando apoiou o corno, disse:
- Diga-me por que virou a sua casaca, e eu direi por que virei a minha.
Mance Rayder sorriu, como Jon esperara que fizesse. O rei era claramente um homem que
gostava do som da própria voz.
- Certamente já deve ter ouvido histórias sobre a minha deserção.
- Alguns dizem que foi por uma coroa. Outros, que foi por uma mulher. Outros ainda, que tem
sangue de selvagem.
- Sangue de selvagem é o sangue dos Primeiros Homens, o mesmo sangue que corre nas
veias dos Stark. Quanto à coroa, você vê alguma?
- Vejo uma mulher. - Olhou de relance para Dalla.
Mance pegou-a pela mão e puxou-a para junto dele.
- A minha senhora não tem culpa. Conheci-a ao voltar do castelo de seu pai. O Meia- -Mão era
esculpido de um velho carvalho, mas eu sou feito de carne e tenho um grande gosto pelos
encantos das mulheres... o que faz com que não seja em nada diferente de três quartos da
Patrulha. Há homens ainda de negro que tiveram dez vezes mais mulheres do que este pobre rei.
Precisa tentar de novo, Jon Snow.
Jon refletiu por um momento.
- Meia-Mão disse que tinha uma paixão pela música dos selvagens.
- Tinha. E tenho. Isso está mais perto do alvo, sim. Mas ainda não acertou. - Mance Rayder
ergueu-se, desprendeu a fivela que segurava seu manto e atirou-o para cima do banco. - Foi por
isto.
- Um manto?
- O manto de lã negra de um Irmão Juramentado da Patrulha da Noite - disse o Rei- -para-íá-da
Muralha. - Um dia, numa patrulha, abatemos um grande e belo alce. Estávamos esfolando-o
quando o cheiro do sangue fez um gato-das-sombras sair de seu covil. Eu afastei-o, mas não antes
de ele ter rasgado meu manto em tiras. Está vendo? Aqui, aqui e aqui? - soltou um risinho. -
Também me rasgou o braço e as costas, e sangrei mais do que o alce. Meus irmãos temeram que
pudesse morrer antes de conseguirem me levar ao Meistre Mullin na Torre Sombria, e levaram-me
até uma aldeia selvagem onde sabíamos que uma velha feiticeira fazia algumas curas. Aconteceu
que ela estava morta, mas a filha tratou de mim. Limpou meus ferimentos, deu pontos em mim e me
alimentou com mingau de aveia e poções até eu ficar suficientemente forte para voltar a subir em
um cavalo. E também costurou os rasgões em meu manto, com um pouco de seda escarlate de
Asshai que a avó tinha tirado dos restos de um barco afundado que apareceu na Costa Gelada, Era
o maior tesouro que ela possuía, e foi um presente para mim. - Voltou a pôr o manto nos ombros. -
Mas na Torre Sombria me deram um manto novo de lã, tirado dos armazéns, preto e preto, e
forrado de preto, para combinar com meus calções pretos e minhas botas pretas, meu gibão preto
e cota de malha preta. O manto novo não tinha Zonas puídas, rasgões ou cortes... e, acima de
tudo, não tinha vermelho. Os homens da Patrulha da Noite vestiam-se de negro, lembrou-me
severamente Sor Denys Mallister, como se eu tivesse me esquecido, Agora, meu velho manto só
estava bom para queimar, disse ele. Parti na manhã seguinte... para um lugar onde um beijo não
era crime e um homem podia usar o manto que quisesse. - Fechou a fivela e se sentou novamente.
- E você, Jon Snow?
Jon bebeu outro trago de hidromel. Só há uma história em que ele pode acreditar.
- Disse que estava em Winterfell na noite em que meu pai ofereceu o banquete ao Rei Robert.
- Disse, porque estava.
- Então viu-os todos. O Príncipe Joffrey e o Príncipe Tommen, a Princesa Myrcella, meus irmãos
Robb, Bran e Rickon, minhas irmãs Arya e Sansa. Viu-os caminhar pelo corredor central com todos
os olhos postos neles e ocupar seus lugares na mesa logo abaixo do estrado onde o rei e a rainha
se sentavam.
- - Lembro-me.
- - E viu onde eu estava sentado, Mance? - inclinou-se para a frente. - Viu onde eles puseram o
bastardo?
- Mance Rayder olhou o rosto de Jon durante um longo momento.
- Acho que é melhor arranjarmos um novo manto para você - disse o rei, estendendo a mão.
mundo era uma escuridão cinzenta e fria, com cheiro de pinheiro e musgo, Névoas pálidas
erguiam-se da terra negra enquanto os cavaleiros abriam caminho pela confusão de pedras e
árvores deformadas na direção das bem-vindas fogueiras que se espalhavam como jóias no fundo
do vale do rio, lá embaixo. Havia mais fogueiras do quejon Snow conseguia contar, centenas delas,
milhares, um segundo rio de luzes tremeluzentes ao longo das margens do Guadeleite, branco de
gelo. Os dedos da mão que manejava a espada se abriram e fecharam.
Desceram a vertente sem estandartes nem trombetas, num silêncio interrompido apenas pelo
murmúrio distante do rio, pelo ruído dos cascos e pelos estalidos da armadura de ossos do Camisa
de Chocalho, Em algum lugar, lá no alto, uma águia pairava, com grandes asas azul-acinzentadas
abertas, enquanto embaixo seguiam homens, cães, cavalos e um gigante lobo branco.
Uma pedra rolou encosta abaixo, perturbado por um casco de passagem, e Jon viu Fantasma
virar a cabeça ao ouvir o súbito som. Ele tinha seguido os cavaleiros a distância o dia todo, como
era seu costume, mas quando a lua se ergueu sobre os pinheiros marciais, aproximou-se aos
saltos, com os olhos vermelhos brilhando. Os cães do Camisa de Chocalho receberam-no com um
coro de rosnidos e violentos latidos, como sempre, mas o lobo gigante não lhes deu importância.
Seis dias antes, o maior dos cães atacara-o por trás enquanto os selvagens acampavam à noite,
mas Fantasma virara-se e mordera- -o, colocando o cão para correr com um quadril
ensangüentado. Depois disso, o resto da matilha passou a guardar uma distância saudável.
O garrano de Jon Snow relinchou baixinho, mas um toque e uma palavra carinhosa rapidamente
aquietaram o animal. Seria bom que seus próprios medos fossem acalmados com tanta facilidade
quanto os do animal. Estava todo vestido de preto, o negro da Patrulha da Noite, mas o inimigo
acompanhava-o, à frente e atrás. Selvagens, e eu estou com eles, Ygritte usava o manto de Qhorin
Meia-Mão. Lenyl tinha a camisa de malha dele; a grande esposa de lanças, Ragwyle, as luvas; um
dos arqueiros, as botas. O elmo de Qhorin foi ganho pelo pequeno simplório chamado
Lança-Longa Ryk, mas encaixava-se mal em sua cabeça estreita, e ele deu-o também a Ygritte. E
o Camisa de Chocalho levava os ossos de Qhorin no saco, bem como a cabeça ensangüentada de
Ebben, que tinha partido com Jon para bater o Passo dos Guinchos, Mortos, todos mortos, menos
eu, e eu estou morto para o mundo.
Ygritte seguia logo atrás dele, À frente ia o Lança-Longa Ryk. O Senhor dos Ossos tinha feito
dos dois seus guardas,
O
- Se o corvo fugir, também fervo os ossos de vocês - preveniu-os quando partiram, sorrindo
através dos dentes tortos do crânio de gigante que usava como elmo.
Ygritte gritou para ele.
- Você quer guardá-lo? Se quer que nos encarreguemos disso, deixe-nos em paz e faremos o
que pede.
Este é realmente um povo livre, compreendeu Jon. Camisa de Chocalho podia ser o líder, mas
nenhum deles se acanhava em dar resposta a ele.
O líder selvagem fitou-o com um olhar pouco amistoso.
- Pode ser que tenha enganado esses aí, corvo, mas não ache que vai enganar Mance. Ele vai
olhar uma vez pra você e ver que é um farsante. E quando isso acontecer, vou fazer um manto
com o seu lobo ali, e abrir sua barriga mole de rapaz pra costurá-la com uma doninha lá dentro.
A mão de Jon que manejava a espada tinha se aberto e fechado, flexionando os dedos
queimados sob a luva, mas o Lança-Longa Ryk limitou-se a rir.
- E onde é que você ia achar uma doninha na neve?
Nessa primeira noite, após um longo dia a cavalo, tinham acampado numa rasa con- cavidade
de pedra, no topo de uma montanha sem nome, aninhando-se junto à fogueira enquanto a neve
começava a cair. Jon observava os flocos derreterem enquanto pairavam sobre as chamas.
Apesar das camadas de lá, peles e couro, sentia frio até os ossos. Ygritte sentou-se ao seu lado
depois de comer, com o capuz levantado e as mãos enfiadas nas mangas, para aquecâ-las.
- Quando Mance ouvir dizer como você deu cabo do Meia-Mão, vai recebê-lo bem depressa -
disse-lhe.
- Receber-me onde?
A moça riu com zombaria.
- Recebê-lo como um de nós. Acha que é o primeiro corvo a fugir da Muralha? Lá no fundo,
vocês todos só querem voar livres.
- E quando eu for livre - disse ele lentamente -, serei livre para ir embora?
- Claro que sim. - Ela tinha um sorriso quente, apesar dos dentes tortos. - E ele vai ser livre pra
matar você. Ser livre é perigoso, mas a maior parte acaba gostando. - Pousou a mão enluvada em
sua perna, logo acima do joelho. - Você vai ver.
- Vou ver, pensou Jon. Vou ver e ouvir, e aprender, e quando o tiver feito, levarei as novidades
de volta para a Muralha. Os selvagens tinham-no tomado por perjuro, mas em seu âmago ainda
era um homem da Patrulha da Noite, cumprindo o último dever que Qhorin Meia-Mão depositara
nele. Antes de ser morto por mim..
- No fundo da encosta depararam-se com um pequeno riacho que descia do sopé dos montes e
ia se juntar ao Guadeleite. Parecia todo feito de pedras e gelo, embora conseguissem ouvir o som
da água correndo sob a superfície congelada. Camisa de Chocalho atravessou à frente deles,
estilhaçando a fina crosta de gelo.
- Os batedores de Mance Rayder cercaram-nos quando subiram para a margem. De re- lance,
Jon verificou quantos eram; oito cavaleiros, tanto homens como mulheres, vestidos de peles e
couro fervido, com um elmo ou um pouco de cota de malha aqui e ali. Vinham armados com lanças
e arpões endurecidos pelo fogo, todos menos o chefe, um louro cor
pulento, com olhos lacrimejantes, que usava uma grande gadanha curva de aço afiado. O Chorão,
compreendeu de imediato. Os irmãos negros contavam histórias sobre ele. Assim como Camisa
de Chocalho, Harma Cabeça de Cão e Alfyn Mata-Corvos, era um célebre assaltante.
- O Senhor dos Ossos - disse Chorão quando os viu. Deu uma olhada em Jon e em seu lobo. -
E este, quem é?
- Um corvo que passou pro lado de cá - disse Camisa de Chocalho, que preferia ser chamado
de Senhor dos Ossos devido à ruidosa armadura que usava. - Tava com medo que eu roubasse os
ossos dele como os do Meia-Mão. - Sacudiu o saco de troféus na direção dos outros selvagens,
- Ele matou Qhorin Meia-Mão - disse Lança-Longa Ryk. - Ele e seu lobo.
- E também deu cabo do Orell - disse Camisa de Chocalho.
- O moço é um warg, ou coisa que o valha - interveio Ragwyle, a grande esposa de lanças, - O
lobo dele arrancou um pedaço da perna do Meia-Mão.
Os olhos vermelhos e remelentos de Chorão deram outra olhada em Jon.
- Ah, é? Bom, tem certo ar de lobo, agora que o vejo de perto. Levem-no até Mance, pode ser
que fique com ele. - Fez o cavalo dar meia-volta e afastou-se a galope, com os companheiros logo
atrás.
O vento soprava úmido e pesado quando atravessaram o vale do Guadeleite e avançaram em
fila pelo acampamento. Fantasma manteve-se perto de Jon, mas seu cheiro seguia à frente do
grupo como um arauto, e logo havia cães dos selvagens por toda a volta, rosnando e latindo. Lenyl
gritou-lhes que se calassem, mas não prestaram atenção nele.
- Não gostam muito desse seu animal - comentou Lança-Longa Ryk a Jon.
- São cães e ele é um lobo - disse Jon. - Sabem que não pertence à espécie deles. - Tal como
eu não pertenço à sua. Mas tinha de manter seu dever em mente, a tarefa de que Qhorin Meia-Mão
o encarregara enquanto partilhavam aquela última fogueira... desempenhar o papel de vira-casaca
e encontrar o que quer que fosse que os selvagens tinham andado à procura na estéril desolação
fria das Presas de Gelo. "Algum poder", Qhorin tinha denominado em conversa com o Velho Urso,
mas morrera antes de saber que poder seria, ou se Mance Rayder o teria encontrado com suas
escavações.
Havia fogueiras para cozinhar ao longo de todo o rio, entre carros, carroças e trenós. Muitos dos
selvagens tinham erguido tendas, de couro cru, peles e feltro. Outros abrigavam-se atrás de
rochedos, em toldos improvisados, ou dormiam debaixo de suas carroças. Junto a uma fogueira,
Jon viu um homem endurecendo a ponta de longas lanças de madeira e atirando-as em uma pilha.
Em outro ponto, dois jovens barbudos vestidos de couro fervido lutavam com varas, saltando um
sobre o outro por cima das chamas, grunhindo toda vez que um golpe acertava o alvo. Uma dúzia
de mulheres estava sentada ali perto, preparando flechas.
Flechas para os meus irmãos, pensou Jon. Flechas para o povo de meu pai, para o povo de
Winterjell, Bosque Profundo e Última Lareira. Flechas para o norte.
Mas nem tudo que via era bélico. Vislumbrou também mulheres dançando, e ouviu um bebê
chorando, e um garotinho passou correndo diante de seu garrano, todo enrolado em peles e sem
fôlego, por causa da brincadeira. Ovelhas e cabras vagueavam livremente, enquanto bois
percorriam a margem do rio em busca de pasto. Cheiro de carneiro assado pairava no ar, vindo de
uma das fogueiras, e em outra viu um javali sendo girado em um espeto de madeira.
Num espaço aberto rodeado por grandes pinheiros marciais, Camisa de Chocalho desmontou.
- Acampamos aqui - disse a Lenyl, Ragwyle e os outros. - Deem de comer aos cavalos, depois
aos cães, depois a vocês. Ygritte, Lança-Longa, tragam o corvo para que Mance possa dar uma
olhada nele. Vamos estripá-lo depois.
Seguiram a pé o resto do caminho, passando por mais fogueiras e tendas, com Fantasma
seguindo de perto. Jon nunca tinha visto tantos selvagens. Perguntou a si mesmo se alguém já
teria. 0 acampamento não tem fim, refletiu, mas é mais uma centena de acampamentos do que um
só, e cada um deles é mais vulnerável do que o anterior. Espalhados ao longo de uma grande área,
os selvagens não tinham defesas de que valesse a pena falar, nem fossos nem estacas afiadas, só
pequenos grupos de batedores patrulhando os terrenos ao redor. Cada grupo, clã ou aldeia
simplesmente acampou onde quis, assim que viu os outros parando ou encontrou um bom local. O
povo livre. Se os seus irmãos os apanhassem em tal desordem, muitos pagariam tal liberdade com
o sangue do corpo. Possuíam número, mas a Patrulha da Noite tinha disciplina e, "em batalha, a
disciplina vence o número em nove entre dez batalhas", o pai disse-lhe certa vez.
Não havia como não saber qual das tendas pertencia ao rei. Era três vezes maior do que a
segunda maior tenda que vira, e ouvia-se música vinda lá de dentro. Tal como muitas das tendas
menores, aquela era feita de peles cosidas ainda com pelo, mas as de Mance Rayder eram as
hirsutas peles brancas dos ursos das neves. Um enorme par de chifres de um dos alces gigantes
que outrora vagueavam livremente pelos Sete Reinos, nos tempos dos Primeiros Homens,
coroava a cobertura pontiaguda.
Pelo menos ali encontrou defensores; dois guardas junto à abertura da tenda, apoiados em
grandes lanças e com escudos redondos feitos de couro. Quando viram Fantasma, um deles
baixou a lança e disse:
- Esse animal fica aqui.
- Fantasma, fique - ordenou Jon. O lobo gigante sentou-se.
- Lança-Longa, vigie o lobo. - Camisa de Chocalho puxou a aba da tenda e, com um gesto,
ordenou que Jon e Ygritte entrassem.
A tenda estava quente e fumacenta. Nos quatro cantos havia cestos de turfa queimando,
enchendo o ar com uma tênue luz avermelhada. Mais peles atapetavam o chão. Jon sentiu-se
absolutamente só ali, em pé, vestido de negro, esperando a atenção do vira-casaca que se
autodenominava Rei-para-lá-da-Muralha. Depois de seus olhos se ajustarem à luz vermelha e
esfumaçada, viu seis pessoas, nenhuma das quais prestou qualquer atenção nele. Um jovem
escuro e uma loura bonita dividiam um corno de hidromel. Uma mulher grávida estava em pé junto
a um braseiro, cozinhando algumas galinhas, enquanto um homem grisalho com um esfarrapado
manto preto e vermelho estava sentado numa almofada, de pernas cruzadas, tocando um alaúde e
cantando:
A mulher do dornês era bela como o sol e seus beijos, quentes como a primavera. Mas a espada
do dornês era feita de aço negro e o seu beijo, a mordida de uma fera. Jon conhecia a canção,
embora fosse estranho ouvi-la ali, numa tenda de peles felpudas para lá da Muralha, a dez mil
léguas das montanhas vermelhas e dos ventos quentes de Dorne.
Camisa de Chocalho tirou seu elmo amarelado enquanto esperava que a canção chegasse ao
fim. Sob sua armadura de osso e couro era um homem pequeno, e o rosto por baixo do crânio de
gigante era simples, com um queixo nodoso, um bigode fino e bochechas pálidas e descarnadas.
Os olhos eram bem próximos um do outro, com sobrancelhas que cruzavam toda a testa, e os
cabelos escuros rareavam, recuando nas têmporas.
A mulher do dornês cantava no banho, numa voz que era pêssego doce. Mas a espada do
dornês tinha a sua canção, e mordia como se sanguessuga fosse.
Ao lado do braseiro, um homem baixo mas imensamente largo estava sentado num banco,
comendo uma galinha diretamente no espeto. Gordura quente escorria por seu queixo e pela barba
branca como a neve, mas ele sorria mesmo assim, com um ar feliz. Três presilhas de ouro
gravadas com runas cingiam seus braços fortes, e usava uma pesada camisa de cota de malha
negra que só podia ter vindo de um patrulheiro morto. Não muito longe dele, um homem mais alto
e mais esguio, com uma camisa de couro com escamas de bronze, franzia a testa sobre um mapa,
com uma longa espada a tiracolo, em uma bainha de couro. Era reto como uma lança, todo ele
longos músculos duros, escanhoado, calvo, com um forte nariz reto e olhos cinzentos encovados.
Podia ter sido bonito se tivesse orelhas, mas perdera ambas; Jon não sabia dizer se devido ao frio
ou à faca de algum inimigo. A falta delas fazia com que a cabeça do homem parecesse estreita e
pontiaguda.
Tanto o homem de barba branca como o calvo eram guerreiros, tinha bastado um relance para
que isso ficasse claro para Jon. Esses dois são de longe mais perigosos do que o Camisa de
Chocalho. Perguntou a si mesmo qual deles seria Mance Rayder.
Jazendo no chão, rodeado de escuridão, seu sangue ele saboreou, Os irmãos se ajoelharam e
rezaram uma oração, e ele sorriu e ele riu e cantou, "Irmãos, oh irmãos, os meus dias estão no fim,
o dornês minha vida desfez, Mas que importa, não há homem que não tenha de morrer, e eu provei
a mulher do dornês!"
Enquanto as últimas notas de "A mulher do dornês" se desvaneciam, o homem careca e sem
orelhas ergueu os olhos do mapa e fez uma carranca feroz para Camisa de Chocalho e Ygritte, que
tinham Jon entre eles.
- O que é isto? - ele perguntou. - Um corvo? O bastardo preto que estripou Orell - disse Camisa
de Chocalho - e também um maldito warg.
- Devia ter matado todos.
- Este passou para o nosso lado - explicou Ygritte. - Matou Qhorin Meia-Mão com as próprias
mãos.
- Esse garoto? - o homem sem orelhas irritou-se com a notícia. - O Meia-Mão devia ter sido
meu. Você tem nome, corvo?
-Jon Snow, Vossa Graça, - Perguntou a si mesmo se também esperavam que dobrasse o
joelho.
- Vossa Graça? - o homem sem orelhas olhou para o grandalhão da barba branca. - Vê? Ele
acha que sou rei.
O barbudo riu com tanta força que espalhou pedaços de galinha por toda a parte. Limpou a
gordura da boca com as costas de uma de suas enormes mãos.
- Um rapaz cego, só pode ser. Quem já ouviu falar de um rei sem orelhas? Ora, a coroa cairia
até o pescoço! Ha! - Dirigiu a Jon um sorriso, limpando os dedos nas calças, - Feche o bico, corvo.
Dê meia-volta e talvez encontre quem veio procurar.
Jon virou-se.
O cantor pôs-se em pé.
- Sou Mance Rayder - disse ele, enquanto colocava o alaúde de lado. - E você é o bastardo de
Ned Stark, o Snow de Winterfell.
Aturdido, Jon ficou sem fala por um momento, antes de se recuperar o suficiente para dizer:
- Como... como pode saber...
- Isso é uma história para mais tarde - disse Mance Rayder. - O que achou da canção, moço?
- Gostei bastante. Já a tinha ouvido.
- Mas que importa, não há homem que não tenha de morrer - disse alegremente o
Rei-para-Iá-da-Muralha -, e eu provei a mulher do dornês. Diga-me, o meu Senhor dos Ossos fala
a verdade? Matou meu velho amigo, o Meia-Mão?
- Matei. - Embora tenha sido mais obra dele do que minha.
- A Torre Sombria nunca mais vai parecer tão temível - disse o rei, com tristeza na voz. - Qhorin
era meu inimigo. Mas também foi meu irmão um dia. Por isso... devo agradecê-lo por tê-lo matado,
Jon Snow? Ou amaldiçoá-lo? - dirigiu a Jon um sorriso zombeteiro.
O Rei-para-lá-da-Muralha não se parecia em nada com um rei, e tampouco se parecia com um
selvagem, Era de média estatura, magro, com feições bem definidas, astutos olhos castanhos e
longos cabelos castanhos já quase totalmente grisalhos. Não havia coroa em sua cabeça, nem
presilhas de ouro nos braços, nem jóias no pescoço, nem mesmo uma cintilação de prata. Usava
lã e couro, e o único traje digno de nota que vestia era o esfarrapado manto de lã negra, cujos
longos rasgões tinham sido cosidos com seda vermelha desbotada.
- Devia me agradecer por matar seu inimigo - disse Jon por fim - e me amaldiçoar por matar seu
amigo.
- Ha! - trovejou o homem da barba branca. - Bem respondido!
- De acordo. - Mance Rayder fez um gesto para Jon se aproximar. - Se quer se juntar a
nós, é melhor que nos conheça. O homem que confundiu comigo é Styr, Magnar de Thenn.
Magnar significa "senhor" no Idioma Antigo. - O homem sem orelhas fitou Jon friamente
enquanto Mance se virava para o homem da barba branca. - Aqui, nosso feroz comedor de
galinhas é o meu leal Tormund. A mulher...
- Tormund levantou-se.
- Espere. Tratou Styr por seu título, trate-me também pelo meu,
Mance Rayder soltou uma gargalhada,
- Como quiser. Jon Snow, perante a sua presença encontra-se Tormund Terror dos
Gigantes, Arauto, Soprador de Chifres e Quebrador de Gelo. Eis também Tormund Punho
de Trovão, Esposo de Ursas, Rei-Hidromel de Solar Ruivo, Falador com os Deuses e Pai de
Tropas.
- Isso já se parece mais comigo - disse Tormund. - Prazer em conhecê-lo, Jon Snow.
Acontece que gosto de wargs, apesar de não gostar nada dos Stark,
- A boa mulher junto ao braseiro - prosseguiu Mance Rayder - é Dalla, - A grávida deu um
sorriso tímido. - Trate-a como trataria qualquer rainha, porque espera um filho meu. -
Virou-se para os últimos dois. - Esta beldade é a irmã de Dalla, Vai. O jovem Jarl, ao lado
dela, é seu último animalzinho de estimação.
- Não sou animal de estimação de homem nenhum - disse Jarl, sombrio e feroz.
- E Vai não é homem nenhum - resfolegou o da barba branca, Tormund. - A esta altura já
devia ter percebido, moço.
- Então aqui nos tem, Jon Snow - disse Mance Rayder, - O Rei-para-lá-da-Muralha e sua
corte, tal como é. E agora algumas palavras suas, creio eu. De onde vem?
- De Winterfell - disse Jon -, via Castelo Negro.
- E o que o traz ao vale do Guadeleite, tão longe dos fogos de sua casa? - não esperou
pela resposta de Jon, e olhou de imediato para Camisa de Chocalho. - Quantos eram?
- Cinco. Três tão mortos e o rapaz tá aqui. O outro subiu uma encosta onde nenhum
cavalo podia segui-lo.
Os olhos de Rayder voltaram a encontrar os de Jon,
- Eram só os cinco? Ou há mais irmãos seus escondidos por aí?
- Éramos quatro e o Meia-Mão. Qhorin valia por vinte homens comuns.
O Rei-para-lá-da-Muralha sorriu ao ouvir aquilo.
- Havia quem pensasse assim. Seja como for... um rapaz de Castelo Negro com patrulheiros
da Torre Sombria? Como foi que isso aconteceu?
Jon tinha a mentira pronta.
- O Senhor Comandante mandou-me ao Meia-Mão para ganhar experiência, e por isso
ele trouxe-me a essa patrulha.
Styr, o Magnar, franziu a testa ao ouvir aquilo.
- Chama isso de patrulha... por que corvos viriam patrulhar pelo Passo dos Guin- chos
acima?
- As aldeias estavam desertas - disse Jon, honestamente. - Era como se todo o povo livre
tivesse desaparecido.
- Desaparecido, certo - falou Mance Rayder. - E não só o povo livre. Quem lhes disse
onde estávamos, Jon Snow?
Tormund fungou.
- Se não foi o Craster, eu sou uma donzela corada. Eu disse, Mance, aquela criatura
precisa ficar uma cabeça mais curta.
üi I O rei deu ao homem mais velho um olhar irritado.
- Tormund, um dia desses experimente pensar antes de falar. Eu sei que foi o Craster.
Perguntei a Jon para ver se ele nos diria a verdade.
- Ha. - Tormund escarrou, - Bem, meti os pés pelas mãos! - Dirigiu um sorriso a Jon. - Tá
vendo, moço, é por isso que ele é rei e eu não. Bebo melhor, luto melhor e canto melhor que ele, e
o meu membro é três vezes maior que o dele, mas Mance tem astúcia. Foi educado como corvo,
sabe, e o corvo é um pássaro cheio de truques.
- Gostaria de falar com o rapaz a sós, meu Senhor dos Ossos - disse Mance Rayder ao Camisa
de Chocalho. - Deixem-nos, todos vocês,
- O quê, eu também? - perguntou Tormund.
- Sim, especialmente você - disse Mance.
- Não como em um salão onde não sou bem-vindo. - Tormund ficou em pé. - Eu e as galinhas
vamos embora. - Pegou outra galinha do braseiro, enfiou-a num bolso costurado no forro de seu
manto, disse "Ha", e saiu lambendo os dedos. Os outros seguiram- -no, todos menos a mulher
chamada Dalla.
- Sente-se, se quiser - disse Rayder depois de eles partirem. - Está com fome? Tormund
deixou-nos pelo menos duas aves.
- Eu adoraria comer, Vossa Graça. E obrigado.
- Vossa Graça? - o rei sorriu. - Isso não é tratamento que se ouça com freqüência vindo dos
lábios do povo livre. Para a maioria sou Mance. 0 Mance para alguns. Aceita um corno de
hidromel?
- De bom grado - disse Jon.
O próprio rei o serviu enquanto Dalla cortava as galinhas crocantes e dividia a porção entre os
dois. Jon descalçou as luvas e comeu com os dedos, chupando dos ossos cada pedacinho de
carne.
- Tormund falou a verdade - disse Mance Rayder enquanto partia um pão. - O corvo preto é um
pássaro cheio de truques, é assim mesmo... mas eu já era um corvo quando você não era maior
do que o bebê na barriga de Dalla, Jon Snow, Portanto tome cuidado para não tentar truques
comigo.
-Às suas ordens, Vossa... Mance.
O rei soltou uma gargalhada.
- Vossa Mance! E por que não? Há pouco prometi uma história a você sobre o modo como o
conheci. Já descobriu?
Jon balançou a cabeça.
- Camisa de Chocalho enviou a notícia à nossa frente?
- Voando? Não temos corvos treinados. Não, reconheci seu rosto. Já tinha visto você antes.
Duas vezes.
- A princípio não fazia sentido, mas quando Jon revirou a informação em sua mente, a manhã
clareou,
- Quando era um irmão da Patrulha...
- Muito bem! Sim, essa foi a primeira vez. Você era só um garoto e eu estava todo de preto, fazia
parte de uma dúzia que escoltou o velho Senhor Comandante Qorgyle quando ele desceu até
Winterfell para um encontro com o seu pai. Eu percorria a muralha em volta do pátio quando me
deparei com você e seu irmão Robb. Nevara na noite anterior, e vocês tinham feito uma grande
montanha por cima do portão e estavam esperando que alguém passasse por baixo.
- Eu me lembro - disse Jon, surpreso, com uma gargalhada. Um jovem irmão negro no adarve,
sim. - Jurou não contar.
- E mantive meu voto. Pelo menos esse.
- Despejamos a neve em cima do Gordo Tom. Ele era o guarda mais lento do pai. - Tom
perseguira-os depois, em volta do pátio, até os três ficarem vermelhos como maçãs de outono. -
Mas disse que me viu duas vezes. Quando foi a segunda?
- Quando o Rei Robert veio a Winterfell para fazer de seu pai Mão - disse com malícia o
Rei-para-lá-da-Muralha.
Os olhos de Jon arregalaram-se de descrença.
- Não pode ser verdade.
- Mas foi. Quando seu pai soube que o rei vinha, mandou a notícia ao irmão Benjen, na Muralha,
para que ele pudesse descer para o banquete, Há mais trocas entre os irmãos negros e o povo livre
do que você imagina, e não demorou muito tempo para a notícia chegar também aos meus
ouvidos. Era uma oportunidade boa demais para resistir. Seu tio não me conhecia de vista,
portanto nada tinha a temer vindo daí, e não me parecia que seu pai fosse capaz de se lembrar de
um jovem corvo que conhecera brevemente anos antes. Queria ver esse Robert com meus
próprios olhos, de rei para rei, e também avaliar seu tio Benjen. Nessa época, ele era Primeiro
Patrulheiro, e o terror de todo o meu povo. Portanto selei meu cavalo mais veloz e tomei o caminho.
- Mas - objetou Jon - a Muralha...
- A Muralha pode parar um exército, mas não um homem sozinho. Peguei um alaú- de e uma
bolsa de prata, escalei o gelo perto do Monte Longo, caminhei algumas léguas para o sul da Nova
Dádiva e comprei um cavalo. Apesar de tudo, fui muito mais rápido do que Robert, que viajava com
uma imponente e enorme casa rolante para manter a sua rainha confortável. A um dia de
Winterfell, para o sul, encontrei-o e juntei-me à sua comitiva. Cavaleiros livres e pequenos
cavaleiros passam a vida ligando-se a cortejos reais, na esperança de entrar para o serviço do rei,
e o meu alaúde me fez conquistar uma aceitação fácil. - Mance soltou uma gargalhada. - Conheço
todas as canções obscenas que já foram feitas, ao norte ou ao sul da Muralha. Então é isso. Na
noite em que seu pai ofereceu o banquete a Robert, eu estava sentado num banco no fundo do seu
salão, com os outros cavaleiros livres, ouvindo Orland de Vilavelha tocar sua harpa e cantar
cantigas sobre reis mortos sob o mar. Entreguei-me à comida e à bebida do senhor seu pai, passei
os olhos pelo Regicida e pelo Duende... e tomei nota, de passagem, dos filhos de Lorde Eddard e
dos lobinhos que corriam atrás deles,
- Bael, o Bardo - disse Jon, lembrando-se da história que Ygritte lhe contara nas Presas de Gelo,
na noite em que quase a tinha matado.
- Bem que eu gostaria. Não negarei que a façanha de Bael inspirou a minha... mas, que me
lembre, não raptei nenhuma de suas irmãs. Bael escrevia as próprias canções e viveu-as. Eu só
canto as canções que homens melhores fizeram. Mais hidromel?
- Não - disse Jon. - Se tivesse sido descoberto... capturado...
- Seu pai teria cortado a minha cabeça. - O rei encolheu os ombros. - Se bem que, depois de ter
comido à sua mesa, estivesse protegido pelo direito de hóspede. As leis da hospitalidade são
velhas como os Primeiros Homens e sagradas como uma árvore-coração. - Fez um gesto para a
mesa entre eles, para o pão partido e os ossos de galinha. - Aqui é você o hóspede, e está a salvo
de ser ferido pelas minhas mãos... esta noite, pelo
menos. Portanto, diga-me a verdade, Jon Snow. É um covarde que virou a casaca por medo, ou há
algum outro motivo que o traga à minha tenda?
Direito de hóspede ou não, Jon Snow sabia que ali caminhava em gelo quebradiço. Um passo
em falso e podia atravessá-lo para dentro de água suficientemente fria para lhe parar o coração.
Pese toâas as palavras antes de dize-las, disse a si mesmo. Tomou um longo trago de hidromel, a
fim de ganhar tempo para a resposta. Quando apoiou o corno, disse:
- Diga-me por que virou a sua casaca, e eu direi por que virei a minha.
Mance Rayder sorriu, como Jon esperara que fizesse. O rei era claramente um homem que
gostava do som da própria voz.
- Certamente já deve ter ouvido histórias sobre a minha deserção.
- Alguns dizem que foi por uma coroa. Outros, que foi por uma mulher. Outros ainda, que tem
sangue de selvagem.
- Sangue de selvagem é o sangue dos Primeiros Homens, o mesmo sangue que corre nas
veias dos Stark. Quanto à coroa, você vê alguma?
- Vejo uma mulher. - Olhou de relance para Dalla.
Mance pegou-a pela mão e puxou-a para junto dele.
- A minha senhora não tem culpa. Conheci-a ao voltar do castelo de seu pai. O Meia- -Mão era
esculpido de um velho carvalho, mas eu sou feito de carne e tenho um grande gosto pelos
encantos das mulheres... o que faz com que não seja em nada diferente de três quartos da
Patrulha. Há homens ainda de negro que tiveram dez vezes mais mulheres do que este pobre rei.
Precisa tentar de novo, Jon Snow.
Jon refletiu por um momento.
- Meia-Mão disse que tinha uma paixão pela música dos selvagens.
- Tinha. E tenho. Isso está mais perto do alvo, sim. Mas ainda não acertou. - Mance Rayder
ergueu-se, desprendeu a fivela que segurava seu manto e atirou-o para cima do banco. - Foi por
isto.
- Um manto?
- O manto de lã negra de um Irmão Juramentado da Patrulha da Noite - disse o Rei- -para-íá-da
Muralha. - Um dia, numa patrulha, abatemos um grande e belo alce. Estávamos esfolando-o
quando o cheiro do sangue fez um gato-das-sombras sair de seu covil. Eu afastei-o, mas não antes
de ele ter rasgado meu manto em tiras. Está vendo? Aqui, aqui e aqui? - soltou um risinho. -
Também me rasgou o braço e as costas, e sangrei mais do que o alce. Meus irmãos temeram que
pudesse morrer antes de conseguirem me levar ao Meistre Mullin na Torre Sombria, e levaram-me
até uma aldeia selvagem onde sabíamos que uma velha feiticeira fazia algumas curas. Aconteceu
que ela estava morta, mas a filha tratou de mim. Limpou meus ferimentos, deu pontos em mim e me
alimentou com mingau de aveia e poções até eu ficar suficientemente forte para voltar a subir em
um cavalo. E também costurou os rasgões em meu manto, com um pouco de seda escarlate de
Asshai que a avó tinha tirado dos restos de um barco afundado que apareceu na Costa Gelada, Era
o maior tesouro que ela possuía, e foi um presente para mim. - Voltou a pôr o manto nos ombros. -
Mas na Torre Sombria me deram um manto novo de lã, tirado dos armazéns, preto e preto, e
forrado de preto, para combinar com meus calções pretos e minhas botas pretas, meu gibão preto
e cota de malha preta. O manto novo não tinha Zonas puídas, rasgões ou cortes... e, acima de
tudo, não tinha vermelho. Os homens da Patrulha da Noite vestiam-se de negro, lembrou-me
severamente Sor Denys Mallister, como se eu tivesse me esquecido, Agora, meu velho manto só
estava bom para queimar, disse ele. Parti na manhã seguinte... para um lugar onde um beijo não
era crime e um homem podia usar o manto que quisesse. - Fechou a fivela e se sentou novamente.
- E você, Jon Snow?
Jon bebeu outro trago de hidromel. Só há uma história em que ele pode acreditar.
- Disse que estava em Winterfell na noite em que meu pai ofereceu o banquete ao Rei Robert.
- Disse, porque estava.
- Então viu-os todos. O Príncipe Joffrey e o Príncipe Tommen, a Princesa Myrcella, meus irmãos
Robb, Bran e Rickon, minhas irmãs Arya e Sansa. Viu-os caminhar pelo corredor central com todos
os olhos postos neles e ocupar seus lugares na mesa logo abaixo do estrado onde o rei e a rainha
se sentavam.
- - Lembro-me.
- - E viu onde eu estava sentado, Mance? - inclinou-se para a frente. - Viu onde eles puseram o
bastardo?
- Mance Rayder olhou o rosto de Jon durante um longo momento.
- Acho que é melhor arranjarmos um novo manto para você - disse o rei, estendendo a mão.
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
Sansa
O convite parecia bastante inocente, mas sempre que Sansa o lia, sua barriga dava um nó. Ela
agora vai ser rainha, é bela e rica e todo mundo a adora, por que desejaria jantar com afilha de um
traidor? Supunha que podia ser por curiosidade; talvez Margaery Tyrell quisesse avaliar a rival que
havia afastado. Será que ela se ressente de mim? Será que pensa que tenho má vontade com
ela...
Sansa observara das muralhas do castelo a chegada de Margaery Tyrell pela Colina de Aegon.
Joffrey tinha recebido sua futura noiva no Portão do Rei, para lhe dar as boas-vindas à cidade, e
seguiram a cavalo, lado a lado, através de multidões que os aclamavam, com JofF cintilando numa
armadura dourada e a garota Tyrell magnificamente vestida de verde, com um manto de flores
outonais florescendo em seus ombros, Tinha dezesseis anos, cabelos e olhos castanhos, era
esbelta e bela. O povo gritava seu nome quando ela passava, erguia os filhos para que ela os
abençoasse, e espalhava flores sob os cascos de seu cavalo, A mãe e a avó seguiam-na de perto,
numa alta casa rolante cujos flancos tinham uma centena de rosas entrelaçadas esculpidas, todas
douradas e brilhantes. O povo também as aclamava.
O mesmo povo que me arrancou de cima do cavalo e que teria me matado se não fosse o Cão
de Caça. Sansa nada tinha feito para os plebeus a odiarem, não mais do que Margaery Tyrell
fizera para conquistar seu amor. Será que ela quer que eu também a ame? Estudou o convite, que
parecia ter sido escrito pela mão da própria Margaery. Será que ela deseja a minha bênção?
Sansa perguntou a si mesma se Joffrey estaria ciente daquele jantar. Por tudo que ela sabia,
aquilo podia bem ser obra dele. A idéia encheu-a de medo. Se Joff estivesse por trás do convite,
teria alguma partida cruel planejada para envergonhá-la aos olhos da garota mais velha. Iria
ordenar à Guarda Real que a despisse de novo? Da última vez que fizera isso, o tio Tyrion o
impediu, mas o Duende não podia salvá-la agora.
Ninguém pode me salvar, a não ser meu Florian. Sor Dontos tinha prometido que a ajudaria a
fugir, mas não antes da noite do casamento de Joffrey. Os planos estavam em marcha,
assegurara-lhe seu querido e devotado cavaleiro-feito-bobo; nada havia a fazer até lá além de
agüentar, e contar os dias.
E jantar com a minha substituta...
O
Talvez estivesse cometendo uma injustiça para com Margaery Tyrell. O convite talvez não fosse
mais do que uma simples consideração, um ato de cortesia. Pode ser só um jantar. Mas aquilo era
a Fortaleza Vermelha, aquilo era Porto Real, aquilo era a corte do
Kei joitrey tfarattieon, o Frimeiro de òeu fslome, e se havia alguma coisa que Sansa Stark
aprendera ali era a desconfiança.
Mesmo assim, tinha de aceitar, Agora não era nada, a filha rejeitada de um traidor e a irmã caída
em desgraça de um senhor rebelde. Dificilmente poderia dizer não à futura rainha de JofFrey.
Gostaria que o Cão de Caça estivesse aqui. Na noite da batalha, Sandor Clegane viera aos
seus aposentos para levá-la da cidade, mas Sansa recusou. Ás vezes ficava acordada à noite,
perguntando a si mesma se teria feito bem, Havia escondido o manto branco e manchado do Cão
de Caça em uma arca de cedro, por baixo de suas sedas de verão, Não saberia dizer por que o
guardara. Ouviu dizer que o Cão de Caça tinha se acovardado; no auge da batalha ficara tão
bêbado que o Duende tivera de levar seus homens, Mas Sansa compreendia. Conhecia o segredo
de seu rosto queimado. Ele só temia o jogo. Naquela noite, o fogovivo incendiou o próprio rio, e
encheu o ar de chamas verdes. Mesmo no castelo, Sansa tinha sentido medo. Lá fora,., quase
nem conseguia imaginar.
Suspirando, pegou uma pena e o tinteiro e escreveu a Margaery Tyrell uma graciosa nota
aceitando o convite.
Quando a noite marcada chegou, outro membro da Guarda Real veio buscá-la, um homem tão
diferente de Sandor Clegane como... bem, como uma flor de um cão. Ver Sor Loras Tyrell, em pé,
à soleira de sua porta, fez o coração de Sansa bater um pouco mais depressa. Aquela era a
primeira vez que estava tão perto dele desde seu retorno a Porto Real, à frente da vanguarda da
tropa do pai. Por um momento, não soube o que dizer,
- Sor Loras - conseguiu enfim pronunciar -, está... está muito bonito.
Ele deu-lhe um sorriso embaraçado.
- A senhora é muito amável. E também bela, Minha irmã a espera ansiosamente.
- Aguardei o nosso jantar com tanta expectativa.
- Margaery também, assim como a senhora minha avó. - Tomou seu braço e levou-a na direção
dos degraus.
- Sua avó? - Sansa estava achando difícil caminhar, conversar e pensar ao mesmo tempo, com
Sor Loras tocando seu braço. Sentia o calor de sua mão através da seda.
- A Senhora Olenna. Ela também deverá jantar com você.
- Oh - disse Sansa. Estou falando com ele, e ele está me tocando, está segurando meu braço e
me tocando. - Chamam-na de Rainha dos Espinhos. Não é verdade?
- E. - Sor Loras soltou uma gargalhada. Ele tem a mais quente das gargalhadas, pensou Sansa
enquanto o jovem prosseguia - Mas é melhor que não use esse nome na presença dela, caso
contrário é provável que seja espetada.
Sansa corou. Qualquer idiota teria compreendido que nenhuma mulher ficaria feliz por ser
chamada de "Rainha dos Espinhos". Talvez eu seja mesmo tão burra quanto Cersei Lannister diz.
Tentou desesperadamente pensar em algo inteligente e encantador para lhe dizer, mas a
esperteza a tinha abandonado. Quase lhe disse como era belo, até se lembrar de que já tinha feito
isso.
Mas ele era belo. Parecia mais alto do que quando o vira pela primeira vez, mas mantinha a
agilidade e a graciosidade, e Sansa nunca vislumbrara outro garoto com olhos tão maravilhosos.
Mas ele não é um garoto, é um homem-feito, um cavaleiro da Guarda Real. Achou que sua
aparência era ainda melhor de branco do que com o verde e dourado da Casa Tyrell. O único
ponto de cor que havia nele agora era o broche que prendia seu manto; a rosa de Jardim de Cima
trabalhada em ouro mole amarelo, aninhada em uma base de delicadas folhas verdes de jade.
Sor Balon Swann abriu a porta de Maegor para eles passarem. Estava também todo de branco,
embora a cor nem de perto o vestisse tão bem quanto a Sor Loras. Para lá do fosso dos espigões,
duas dúzias de homens treinavam com espadas e escudos. Com o castelo tão cheio, o pátio
exterior fora dado aos visitantes, para ali levantarem suas tendas e pavilhões, deixando apenas os
pátios interiores, menores, para os treinos. Um dos gêmeos Redwyne estava sendo encurralado
por Sor Tallad, com os olhos postos em seu escudo. O atarracado Sor Kennos, de Kayce, que
mostrava os dentes e bufava sempre que erguia a espada, parecia estar se defendendo bem
contra Osney Kettleblack, mas o irmão de Osney, Sor Osfryd, castigava violentamente o escudeiro
com cara de rã, Morros Slynt. Com ou sem espadas embotadas, Slynt teria uma rica safra de
hematomas na manhã seguinte. Sansa estremeceu só de ver. Eles mal acabaram de enterrar os
mortos da última batalha ejá estão treinando para aproxima.
Na extremidade do pátio, um cavaleiro solitário, com um par de rosas douradas no escudo,
defendia-se de três oponentes. Precisamente no momento em que Sansa os observava, o
cavaleiro golpeou um dos oponentes na parte lateral da cabeça, deixando-o sem sentidos.
- Aquele é seu irmão? - perguntou Sansa.
- Sim, senhora - disse Sor Loras. - Garlan treina freqüentemente contra três homens, ou mesmo
quatro. Ele diz que em batalha é raro que se lute um contra um, e por isso gosta de estar
preparado.
- Deve ser muito corajoso.
- E um grande cavaleiro - respondeu Sor Loras. - Na verdade, é melhor espadachim do que eu,
embora eu seja melhor lanceiro.
- Eu me lembro - disse Sansa. - Cavalga maravilhosamente, sor,
- A senhora é amável por dizer tal coisa. Quando foi que me viu montar?
- No torneio da Mão, não se recorda? Montou um corcel branco, e sua armadura era feita de
uma centena de diferentes espécies de flores. Você me deu uma rosa. Uma rosa vermelha. Nesse
dia atirou rosas brancas às outras mulheres. - Falar daquilo fazia-a co- rar. - Disse que nenhuma
vitória possuía sequer metade da minha beleza.
Sor Loras dirigiu-lhe um sorriso modesto,
- Disse apenas uma verdade simples, que qualquer homem com olhos pode ver.
Ele não se lembra, compreendeu Sansa, sobressaltada. Está só sendo gentil comigo, não se
lembra de mim, da rosa ou de qualquer outra coisa. Tivera tanta certeza de que o acontecimento
tinha significado algo, de que tinha significado tudo. Uma rosa vermelha, e não branca.
- Foi depois de ter derrubado Sor Robar Royce - disse ela, desesperada.
Ele tirou a mão de seu braço.
- Matei Robar em Ponta Tempestade, senhora, - Não estava se vangloriando; sua voz soava
triste.
Ele e outro dos homens da Guarda Arco-íris do Rei Renly, sim. Sansa ouviu as mulheres falar
disso em volta do poço, mas por um momento tinha se esquecido.
- Foi quando Lorde Renly foi morto, não foi? Que coisa terrível para sua pobre irmã.
- Para Margaery? - a voz dele estava tensa, - Com certeza. Mas ela estava em Ponta- marga.
Não viu nada.
- Mesmo assim, quando ouviu a notícia...
Sor Loras afagou ligeiramente o cabo da espada com a mão, O punho era de couro branco, o
botão, uma rosa de alabastro.
- Renly está morto. Robar também. Por que falar deles?
A aspereza em seu tom pegou-a desprevenida.
- Eu... senhor, eu... não pretendia ofendê-lo, sor.
- Nem poderia fazê-lo, Senhora Sansa - respondeu Sor Loras, mas todo o calor tinha
desaparecido de sua voz. Nem voltou a tomar seu braço.
Subiram a escada em espiral num profundo silêncio.
Oh, por que eu tinha de mencionar Sor Robar? pensou Sansa. Estraguei tudo. Ele agora está
zangado comigo. Tentou pensar em alguma coisa que pudesse dizer para fazer as pazes, mas
todas as palavras que passavam por sua cabeça eram capengas e fracas. Fique calada, senão vai
ficar ainda pior, disse a si mesma.
Lorde Mace Tyrell e sua comitiva tinham sido alojados atrás do septo real, na longa fortaleza
com telhado de ardósia, que era chamada de Arcada das Donzelas desde que o Rei Baelor, o
Abençoado, confinara ali as irmãs, para que a visão delas não o tentasse a ter pensamentos
carnais. Junto às suas portas altas e esculpidas encontravam-se dois guardas com meio elmo
dourado e manto verde debruado de cetim dourado, com a rosa dourada de Jardim de Cima cosida
no peito. Ambos tinham mais de dois metros e dez de altura e eram largos de ombros e estreitos de
cintura, magnificamente musculosos. Quando Sansa se aproximou o suficiente para ver seus
rostos, não foi capaz de distingui- -los um do outro. Possuíam os mesmos maxilares fortes, os
mesmos profundos olhos azuis, os mesmos densos bigodes ruivos.
- Quem são eles? - perguntou a Sor Loras, momentaneamente esquecida do embaraço.
- A guarda pessoal de minha avó - disse-lhe ele. - A mãe deles os chamou de Erryk e Arryk.
Minha avó não consegue distingui-los, por isso os chama de Esquerdo e Direito.
Esquerdo e Direito abriram as portas, e a própria Margaery Tyrell surgiu e desceu saltitante o
pequeno lance de escadas, ao encontro dos recém-chegados.
- Senhora Sansa - gritou -, estou tão contente por ter vindo. Seja bem-vinda.
Sansa ajoelhou aos pés de sua futura rainha.
- A senhora me concede uma grande honra, Vossa Graça.
- Por que não me chama de Margaery? Por favor, levante-se. Loras, ajude a Senhora Sansa a
ficar em pé. Posso chamá-la de Sansa?
- Se lhe agradar.
Sor Loras fez o que lhe foi pedido. Margaery mandou-o embora com um beijo fraternal e pegou a
mão de Sansa.
- Venha, minha avó a espera, e ela não é a mais paciente das senhoras.
O fogo crepitava na lareira, e esteiras com um cheiro doce tinham sido espalhadas pelo chão.
Uma dúzia de mulheres estava sentada em volta da longa mesa de montar.
Sansa só reconheceu a alta e digna esposa de Lorde Tyrell, a Senhora Alerie, cuja longa trança
prateada se encontrava presa com anéis incrustados de jóias. Margaery fez as outras
apresentações. Havia três primas Tyrell, Megga, Alia e Elinor, todas com idades próximas à de
Sansa. A roliça Senhora Janna era irmã de Lorde Tyrell, e era casada com um dos Fossoway da
maçã verde; a graciosa Senhora Leonette, de olhos brilhantes, era também uma Fossoway,
casada com Sor Garlan. A Septá Nysterica possuía um rosto modesto e marcado por varíola, mas
parecia alegre. A pálida e elegante Senhora Grace- ford esperava criança, e a Senhora Bulwer era
uma criança, com não mais de oito anos. E "Merry" era como ela chamaria a rude e encorpada
Meredyth Crane, mas decididamente não a Senhora Merryweather, uma apaixonante beleza de
Myr, de olhos negros.
Após todas as outras, Margaery trouxe-a junto de uma mulher encarquilhada, de cabelos
brancos, que mais parecia uma boneca, sentada à cabeceira da mesa.
- Tenho a honra de lhe apresentar a minha avó, a Senhora Olenna, viúva do falecido Luthor
Tyrell, Senhor de Jardim de Cima, cuja memória é um conforto para todos nós.
A idosa cheirava a água de rosas. Ob, ela é uma coisinha minúscula. Nada havia na mulher que
fosse minimamente espinhoso.
- Beije-me, filha - disse a Senhora Olenna, puxando o pulso de Sansa com uma mão suave e
manchada. - É tanta gentileza sua vir jantar comigo e com meu tolo bando de galinhas.
Obedientemente, Sansa beijou a velha no rosto.
- A gentileza foi sua, por me convidar, senhora.
- Conheci seu avô, Lorde Rickard, embora mal.
- Ele morreu antes de eu nascer,
- Sei disso, filha. Dizem que seu avô Tully também está morrendo. Lorde Hoster, certamente
lhe disseram, não? Um velho, embora não tão velho como eu. Seja como for, no fim a noite cai
para todos nós, e cedo demais para alguns. Deve saber disso melhor do que a maioria das
pessoas, pobre criança. Teve a sua cota de luto, eu sei. Lamentamos as suas perdas,
Sansa olhou de relance para Margaery,
- Entristeceu-me saber da morte de Lorde Renly, Vossa Graça, Ele era muito galante.
- E bondade sua dizer isso - respondeu Margaery.
A avó bufou.
- Galante, sim, e encantador, e muito limpo. Sabia como se vestir, sabia como sorrir e sabia
como tomar banho, e, não se sabe bem como, arranjou a idéia de que isso o tornava apto a ser rei.
Os Baratheon sempre tiveram idéias estranhas, certamente. Vem do sangue Targaryen, creio eu. -
Fungou. - Um dia tentaram me casar com um Targaryen, mas rapidamente dei um basta nisso.
- Renly era bravo e gentil, avó - disse Margaery. - O pai também gostava dele, assim como
Loras.
- Loras é jovem - disse com vivacidade a Senhora Olenna - e muito bom em derrubar homens
dos cavalos com um pau, Isso não faz dele sensato. Quanto ao seu pai, gostaria de ter nascido
camponesa com uma grande colher de pau, porque talvez tivesse sido capaz de enfiar na marra
algum juízo naquela cabeça gorda.
- Mãe - repreendeu a Senhora Alerie.
- Chiu, Alerie, não fale comigo nesse tom. E não me chame de mãe. Se tivesse dado você à luz,
certamente me lembraria. Só podem me culpar por seu marido, o lorde idiota de Jardim de Cima.
- Avó - disse Margaery tome tento nas palavras, senão o que Sansa pensará de nós?
- Pode pensar que possuímos alguma inteligência. Uma de nós, pelo menos. - A mulher idosa
virou-se para Sansa. - É traição, eu os preveni, Robert tem dois filhos e Renly, um irmão mais
velho, como seria possível que ele tivesse alguma pretensão àquela feia cadeira de ferro? Vá lá,
diz o meu filho, não quer que a sua querida seja rainha? Vocês, os Stark, um dia foram reis, os
Arryn e os Lannister também, e até os Baratheon, pela linha feminina, mas os Tyrell não passavam
de intendentes até chegar Aegon, o Dragão, e cozinhar o rei legítimo da Campina no Campo de
Fogo, A bem da verdade, até nossa pretensão a Jardim de Cima é um pouco malandra, como
aqueles terríveis Florent andam sempre choramingando. "O que importa" você pode perguntar, e
certamente não importa, exceto para idiotas como o meu filho. A idéia de um dia ver o neto com a
bunda no Trono de Ferro faz Mace inchar como... como é que se chama? Margaery, você que é
esperta, seja boazinha e diga à sua avó meio pateta o nome daquele peixe esquisito das Ilhas do
Verão que, quando é tocado, incha como um balão até ficar dez vezes maior,
- Ele é chamado de peixe-balão, avó.
- Claro que sim. O povo das Ilhas do Verão não tem imaginação nenhuma. O meu filho devia
adotar o peixe-balão como símbolo, para falar a verdade. Podia pôr uma coroa nele, como os
Baratheon fazem com o veado, isso talvez o deixasse feliz. Devíamos ter permanecido bem longe
de toda esta sangrenta babaquice, a meu ver, mas depois de ordenhar a vaca não há como enfiar
o leite de volta nas tetas. Depois de o Lorde Peixe - -Balão colocar aquela coroa na cabeça de
Renly, enfiamo-nos na lama até os joelhos, portanto aqui estamos para levar as coisas até o fim. E
o que você diz sobre isso, Sansa?
A boca de Sansa abriu e fechou. Também se sentia como um peixe-balão.
- Os Tyrell conseguem traçar a sua genealogia até Garth da Mão Verde - foi o melhor que
conseguiu arranjar assim de repente.
A Rainha dos Espinhos fungou e disse:
- Assim como os Florent, os Rowan, os Oakheart e metade das outras casas nobres do sul.
Garth gostava de plantar a sua semente em terreno fértil, segundo dizem. Não me surpreenderia
que não fosse só a mão que ele tinha verde.
- Sansa - interrompeu a Senhora Alerie -, deve estar com muita fome. Vamos comer um pouco
de javali e alguns bolos de limão?
~ Bolos de limão são os meus preferidos - admitiu Sansa.
- Foi o que nos disseram - declarou a Senhora Olenna, que claramente não tinha qualquer
intenção de ser silenciada. - Aquela criatura chamada Varys pareceu pensar que devíamos nos
sentir gratas por essa informação. Nunca entendi lá muito bem qual é o objetivo de um eunuco, a
bem da verdade. Parece-me que são só homens com as partes úteis cortadas. Alerie, mande que
nos sirvam a comida, ou pretende me matar de fome? Venha cá, Sansa, sente aqui ao meu lado,
sou muito menos chata do que essas outras. Espero que goste de bobos.
Sansa alisou a saia e sentou-se.
- Penso que... bobos, senhora? Fala de... do tipo que se veste de quadriculado?
- Nesse caso são penas. De que achava que eu falava? Do meu filho? Ou destas adoráveis
senhoras? Não, não fique vermelha, com esses cabelos, você fica parecendo uma romã. Todos os
homens são bobos, na verdade, mas aqueles que se vestem de quadriculado são mais divertidos
do que os que usam coroa. Margaery, filha, mande chamar o Abetouro, vamos ver se ele consegue
fazer a Senhora Sansa sorrir. O resto de vocês sentem-se, terei de lhes dizer tudo o que for para
fazer? Sansa deve pensar que a minha neta é servida por um rebanho de ovelhas.
O Abetouro chegou antes da comida, vestido com um traje de bobo de penas verdes e
amarelas, com um barrete pendente. Um homem imensamente gordo e redondo, do tamanho de
três Rapazes-Lua, entrou rebolando no salão, saltou para cima da mesa e depositou um
gigantesco ovo bem na frente de Sansa.
- Quebre-o, senhora - ordenou. Quando ela o fez, uma dúzia de pintinhos amarelos fugiram e
desataram a correr em todas as direções. - Apanhem-nos! - exclamou o Abetouro. A pequena
Senhora Bulwer capturou um e entregou a ele, de modo que o homem o enfiou em sua enorme
boca elástica, e pareceu engoli-lo inteiro. Quando arrotou, minúsculas penas amarelas voaram por
seu nariz. A Senhora Bulwer desatou a chorar, aflita, mas suas lágrimas transformaram-se num
súbito guincho de deleite quando o pintinho saiu, contorcendo-se, da manga de seu vestido e
correu pelo seu braço abaixo.
Quando os criados trouxeram um caldo de alho-poró e cogumelos, o Abetouro começou a fazer
malabarismos e a Senhora Olenna inclinou-se para a frente e apoiou os cotovelos na mesa.
- Conhece o meu filho, Sansa? Lorde Peixe-Balão de Jardim de Cima?
- É um grande senhor - respondeu polidamente Sansa.
- É um grande idiota - disse a Rainha dos Espinhos. - O pai também era um idiota. Meu esposo,
o falecido Lorde Luthor..Oh, amei-o bastante, não me entenda mal. Era um homem gentil, e não
lhe faltava habilidade no quarto, mas não deixava de ser pavorosamente idiota. Conseguiu cair
com o cavalo de uma falésia enquanto caçava com falcão. Dizem que olhava para o céu, sem
prestar nenhuma atenção para onde o cavalo o levava.
"E agora o idiota do meu filho está fazendo o mesmo, só que está montando um leão em vez de
um palafrém. Eu preveni-o de que é fácil montar um leão, mas não é tão fácil desmontá-lo; porém,
ele só responde com risinhos. Se algum dia tiver um filho, Sansa, bata nele com freqüência, para
que aprenda a lhe dar ouvidos. Eu só tive um rapaz e quase não bati nele, é por isso que agora ele
presta mais atenção ao Abetouro do que a mim. Um leão não é um gato de colo, eu lhe disse, e ele
me vem com um 'vá-lá-mãe'. Há muito mais'vá-lás' neste reino do que devia existir, se quer saber.
Todos esses reis fariam bastante melhor se depusessem as espadas e escutassem as mães."
Sansa percebeu que estava de novo com a boca aberta. Encheu-a com uma colher de caldo
enquanto a Senhora Alerie e as outras mulheres riam do espetáculo que Abetouro dava, fazendo
laranjas saltarem com sua cabeça, seus cotovelos e seu grande traseiro.
- Quero que me conte a verdade sobre esse real rapaz - disse abruptamente a Senhora
Olenna. - Esse JofFrey.
Os dedos de Sansa apertaram-se em volta da colher. A verdade? Não posso, Não me peça a
verdade, por favor, não posso.
- Eu.,, eu... eu...
- Você, sim. Quem melhor o conheceria? O moço parece bastante régio, admito. Um pouco
cheio de si, mas isso deve vir do sangue Lannister. No entanto, ouvimos algumas histórias
perturbadoras. Há alguma verdade nelas? Aquele rapaz maltratou-a?
Sansa lançou um olhar nervoso à sua volta. O Abetouro enfiou uma laranja inteira na boca,
mastigou-a e engoliu-a, deu um tapa no rosto e assoou sementes pelo nariz. As mulheres riram.
Criados iam e vinham, e a Arcada das Donzelas ecoava com o ruído das colheres e dos pratos.
Um dos pintos voltou a saltar para cima da mesa e atravessou correndo o caldo da Senhora
Graceford. Ninguém parecia estar prestando a mínima atenção nelas, mesmo assim Sansa
sentia-se assustada.
A Senhora Olenna estava ficando impaciente.
- Por que está olhando para o Abetouro de boca aberta? Fiz uma pergunta, espero uma
resposta. Os Lannister roubaram a sua língua, filha?
Sor Dontos prevenira-a para só falar à vontade no bosque sagrado.
- Joff... o Rei Joffrey, ele... Sua Graça é muito justo e bonito, e... e bravo como um leão.
- Sim, todos os Lannister são leões, e quando um Tyrell solta gases cheira mesmo a rosas -
exclamou a idosa. - Mas quão bondoso ele é? Quão inteligente? Tem um bom coração, uma mão
gentil? E cavalheiresco como um rei deve ser? Irá estimar Margaery e tratá-la com ternura,
proteger sua honra como protegeria a própria?
- Sim - mentiu Sansa. - Ele é muito... muito bonito.
- Já disse isso. Sabe, filha, há quem diga que você é tão tola quanto o Abetouro, e eu começo a
acreditar. Bonito? Ensinei à minha Margaery o que vale a beleza, espero eu. Um pouco menos do
que um peido de saltimbanco. Aerion Fogo-Forte era bastante bonito, mas mesmo assim era um
monstro. A questão é: o que é Joffrey? - estendeu a mão para puxar um criado que passava. - Não
gosto de alho-poró. Leve este caldo e traga-me um pouco de queijo.
- O queijo será servido depois dos bolos, senhora.
- O queijo será servido quando eu quiser que ele seja servido, e quero-o servido já. - A velha
voltou a se virar para Sansa. - Está assustada, filha? Não precisa, aqui somos só mulheres.
Conte-me a verdade, nenhum mal acontecerá a você.
- Meu pai sempre disse a verdade, - Sansa falava em voz baixa, ainda assim era difícil forçar as
palavras a sair,
- Lorde Eddard, sim, ele tinha essa reputação, mas mesmo assim o chamaram de traidor e
cortaram sua cabeça. - Os olhos da velha a atravessaram, afiados e brilhantes como pontas de
espadas.
-Joffrey - disse Sansa. - Foi Joffrey quem fez isso. Prometeu-me que seria misericordioso, e
cortou a cabeça de meu pai. Disse que isso era uma misericórdia e levou-me até o alto das
muralhas e obrigou-me a olhar para ela. Para a cabeça. Queria que eu chorasse, mas,,. - Parou
abruptamente e cobriu a boca. Disse mais do que deveria, oh, pela bondade dos deuses, eles
saberão, eles ouvirão falar disso, alguém me denunciará.
- Continue. - Foi Margaery que pediu. A futura rainha de Joffrey. Sansa não sabia quanto ela
teria ouvido.
- Não posso. -E se ela contar para ele, e se ela contar? Ele então vai me matar com certeza, ou
me dar a Sor Ilyn. - Não quis dizer,., meu pai era um traidor, meu irmão também, tenho sangue de
traidor, por favor, não me obriguem a dizer mais.
- Acalme-se, filha - ordenou a Rainha dos Espinhos.
- Ela está aterrorizada, avó, olhe só para ela.
A velha gritou ao Abetouro.
- Bobo! Dê-nos uma canção. Uma longa, penso eu. "O urso e a bela donzela" servirá muito bem.
- Sim! - respondeu o enorme bobo. - Servirá mesmo muito bem! Devo cantá-la apoiado em
minha cabeça, senhora?
- Isso fará com que soe melhor?
- Não»
- Nesse caso, fique sobre seus pés. Não queremos que seu chapéu caia. Se bem me lembro,
você nunca lava o cabelo.
-Às suas ordens, senhora. - O Abetouro fez uma profunda reverência, soltou um gigantesco
arroto, e então endireitou-se, espetou a barriga e berrou: - Havia um urso, um urso, um URSO!
Preto e castanho e coberto de pelo...
A Senhora Olenna inclinou-se para a frente.
- Quando eu era uma garota mais nova do que você, já era bem sabido que na Fortaleza
Vermelha as paredes têm ouvidos. Bem, ficarão entretidos com uma canção e, enquanto isso, nós,
as meninas, falaremos livremente.
- Mas - disse Sansa - Varys... ele sabe, ele sempre...
- Cante mais alto! - gritou a Rainha dos Espinhos ao Abetouro. - Estes velhos ouvidos estão
quase surdos, sabe? Está sussurrando para mim, bobo gordo? Não lhe pago por sussurros. Cante!
- ... 0 URSO/ - trovejou o Abetouro, fazendo ecoar a sua sonora e profunda voz nas vigas do
teto. - OH, VEM, DISSERAM, OH, VEM AO CONCURSO! CONCURSO? DISSE ELE, MAS EU
SOU UM URSO! PRETO E CASTANHO E COBERTO DE PELO!
A encarquilhada velha senhora sorriu.
- Em Jardim de Cima temos muitas aranhas entre as flores. Desde que guardem as coisas para
si, deixamos que teçam as suas pequenas teias, mas quando se põem debaixo de nossos pés,
pisamos nelas. - Deu palmadinhas nas costas da mão de Sansa. - Agora, filha, a verdade. Que tipo
de homem é esse JofFrey, que chama a si mesmo Baratheon, mas parece tão Lannister?
- E DAQUI PARA LÁ AO LONGO DO PERCURSO. PERCURSO! PERCURSO! TRÊS MOÇOS,
UM BODE E UMA DANÇA DE URSO!
Sansa sentia-se como se o coração estivesse preso em sua garganta. A Rainha dos Espinhos
estava tão perto dela que conseguia sentir seu mau hálito. Os dedos descarnados e esguios da
velha beliscavam seu pulso. Do outro lado, Margaery também estava à escuta. Um arrepio
percorreu-a.
- Um monstro - segredou, com uma voz tão trêmula que quase não conseguiu ouvir a si mesma.
- JofFrey é um monstro. Mentiu a respeito do filho do carniceiro e obrigou meu pai a matar a minha
loba. Quando lhe desagrado, manda a Guarda Real bater em mim. E mau e cruel, senhora, é a
verdade. E a rainha também.
A Senhora Olenna Tyrell e a neta trocaram olhares.
- Ah - disse a velha -, isso é uma pena.
Oh, deuses, pensou Sansa, horrorizada. Se Margaery não se casar com ele, Joff saberá que a
culpa é minha.
- Por favor - suplicou -, não impeça o casamento...
- Não tenha medo, Lorde Peixe-Balão está determinado a que Margaery seja rainha. E a
palavra de um Tyrell vale mais do que todo o ouro de Rochedo Casterly. Pelo menos era assim na
minha época. Seja como for, agradecemos pela verdade filha.
- ... DANÇOU E GIROU ATÉ CHEGAR AO CONCURSO! CONCURSO! CONCURSO! - o
Abetouro saltava, rugia e batia os pés.
- Sansa, gostaria de visitar Jardim de Cima? - quando Margaery Tyrell sorria, parecia-se muito
com o irmão Loras. - Todas as flores do outono estão em botão nesta época, e há bosques e
fontes, pátios cheios de sombras, colunatas de mármore. O senhor meu pai sempre mantém
cantores na corte, melhores do que o Abinho aqui, e também flautistas, rabequeiros e harpistas.
Temos os melhores cavalos e barcos de lazer para viajar ao longo do Vago. Você pratica falcoaria,
Sansa?
- Um pouco - admitiu.
- OH, E ELA ERA DOCE E PURA E BELA! A DONZELA COM MEL NOS CABELOS!
- Vai gostar tanto de Jardim de Cima quanto eu, sei que sim. - Margaery empurrou para trás
uma madeixa solta dos cabelos de Sansa. - Assim que vir o castelo, nunca mais vai querer partir. E
talvez não tenha que fazer isso.
- CABELOS! CABELOS! A DONZELA COM MEL NOS CABELOS!
- Chiu, filha - disse a Rainha dos Espinhos em tom penetrante. - Sansa nem sequer nos disse
que gostaria de ir até lá como visita.
- Ah, mas gostaria - disse Sansa. Jardim de Cima parecia ser o lugar com que sempre sonhara,
como a bela corte mágica que um dia esperara encontrar em Porto Real.
- ... CHEIROU 0 ODOR NO AR DE VERÃO. 0 URSO/ 0 URSO! PRETO E CASTANHO E
COBERTO DE PELO.
- Mas a rainha - prosseguiu Sansa -, ela não me deixará ir...
- Deixará. Sem Jardim de Cima, os Lannister não têm esperança de manter Joffrey no trono. Se
o meu filho, o lorde idiota, pedir, ela não terá outra escolha a não ser conceder- -lhe o pedido.
- Ele faria isso? - perguntou Sansa. - Ele pedirá?
A Senhora Olenna franziu a testa.
- Não vejo necessidade de lhe dar outra escolha, Claro, ele não faz a mínima idéia de nosso
verdadeiro propósito.
- CHEIROU 0 ODOR NO AR DE VERÃO!
Sansa franziu a testa.
- O nosso verdadeiro propósito, senhora?
- FUNGOU E RUGIU E CHEIROU-O, BABÃO! MEL NO AR DE VERÃO!
- Tratar de casá-la em segurança, filha - disse a velha, enquanto o Abetouro berrava a
velhíssima canção -, com o meu neto.
Casar com Sor Loras, ok.. A respiração de Sansa ficou presa na garganta. Lembrou-se de Sor
Loras em sua cintilante armadura de safiras, atirando-lhe uma rosa. Sor Loras vestido de seda
branca, tão puro, inocente e belo. As covinhas nos cantos da boca quando sorria. A doçura de seu
riso, o calor de sua mão. Só podia imaginar o que seria tirar sua túnica e acariciar a pele suave,
ficar nas pontas dos pés e beijá-lo, correr os dedos por aqueles espessos caracóis castanhos e
afogar-se em seus profundos olhos castanhos. Uma vermelhidão subiu por seu pescoço.
- OH, SOU UMA DONZELA, E SOU PURA E BELA! NÃO DANÇAREI CUM URSO PELUDO!
UM URSO! UM URSO! NÃO DANÇAREI CVM URSO PELUDO!
- Gostaria disso, Sansa? - perguntou Margaery. - Nunca tive uma irmã, só irmãos. Oh, por favor,
diga que sim, por favor, diga que consentirá em se casar com meu irmão.
As palavras precipitaram-se para fora de sua boca.
- Sim, eu me caso. Nada me agradaria mais. Casar com Sor Loras, amá-lo...
- Loras? - a Senhora Olenna fez uma expressão aborrecida. - Não seja tola, filha. A Guarda
Real nunca se casa. Não lhe ensinaram nada em Winterfell? Estávamos falando de meu neto
Willas. Ele é um pouco velho para você, com certeza, mas um rapaz adorável, apesar de tudo.
Nem um pouquinho imbecil, e além disso herdeiro de Jardim de Cima.
Sansa sentiu vertigem; num instante sua cabeça estava cheia de sonhos sobre Loras, e no
seguinte tinham-lhe tirado todos, Willas? Willas?
- Eu - disse, estupidamente. A cortesia é a armadura de uma senhora. Não pode ofende- Aos,
tenha cuidado com o que diz. - Eu não conheço Sor Willas. Nunca tive o prazer, minha senhora. Ele
é.„ é um cavaleiro tão bom quanto os irmãos?
-.,. ERGUEU-A NO AR C'UMA MÂO! 0 URSO! 0 URSO!
- Não - disse Margaery. - Nunca prestou juramento.
A avó franziu a testa.
- Conte a verdade à garota. O pobre rapaz é aleijado, e é assim que as coisas são.
- Foi ferido quando era escudeiro, ao participar de seu primeiro torneio - confidenciou Margaery.
- O cavalo caiu e esmagou a perna de Willas.
- A culpa foi daquela serpente de Dorne, aquele Oberyn Martell. E o meistre dele também.
- gl/JS UM CAVALEIRO, MAS VOCÊ É UM URSO! UM URSO! UM URSO! PRETO E
CASTANHO E COBERTO DE PELO!
- Willas tem uma perna ruim mas um bom coração - disse Margaery. - Costumava ler para mim
quando eu era uma menininha, e fazia desenhos das estrelas para mim. Vai amá-lo tanto como
nós, Sansa.
- 'SPERNEOU E CHOROU, A DONZELA TÃO BELA, MAS ELE LAMBEU- -LHE O MEL DOS
CABELOS. CABELOS! CABELOS! LAMBEU-LHE 0 MEL DOS CABELOS!
- Quando poderei conhecê-lo? - perguntou Sansa, hesitante.
- Em breve - prometeu Margaery. - Quando for a Jardim de Cima, depois de JofFrey e eu nos
casarmos. Minha avó vai levá-la.
- Levarei - disse a velha, dando palmadinhas na mão de Sansa e abrindo um sorriso suave
cheio de rugas. - Levarei mesmo.
- ENTÃO SUSPIROU E GUINCHOUEATÉ 'SPERNEOU! MEU URSO! CANTOU. MEU URSO
TÃO BELO! E DAQUI PARA LÁ FORAM PELO PERCURSO, 0 URSO, 0 URSO E A BELA
DONZELA. - O Abetouro rugiu o último verso, deu um salto e caiu sobre ambos os pés com um
estrondo que fez balançar as taças de vinho sobre a mesa. As mulheres riram e aplaudiram.
- Achava que essa terrível canção nunca mais acabaria - disse a Rainha dos Espinhos. - Mas,
olhem, aí vem o meu queijo.
O convite parecia bastante inocente, mas sempre que Sansa o lia, sua barriga dava um nó. Ela
agora vai ser rainha, é bela e rica e todo mundo a adora, por que desejaria jantar com afilha de um
traidor? Supunha que podia ser por curiosidade; talvez Margaery Tyrell quisesse avaliar a rival que
havia afastado. Será que ela se ressente de mim? Será que pensa que tenho má vontade com
ela...
Sansa observara das muralhas do castelo a chegada de Margaery Tyrell pela Colina de Aegon.
Joffrey tinha recebido sua futura noiva no Portão do Rei, para lhe dar as boas-vindas à cidade, e
seguiram a cavalo, lado a lado, através de multidões que os aclamavam, com JofF cintilando numa
armadura dourada e a garota Tyrell magnificamente vestida de verde, com um manto de flores
outonais florescendo em seus ombros, Tinha dezesseis anos, cabelos e olhos castanhos, era
esbelta e bela. O povo gritava seu nome quando ela passava, erguia os filhos para que ela os
abençoasse, e espalhava flores sob os cascos de seu cavalo, A mãe e a avó seguiam-na de perto,
numa alta casa rolante cujos flancos tinham uma centena de rosas entrelaçadas esculpidas, todas
douradas e brilhantes. O povo também as aclamava.
O mesmo povo que me arrancou de cima do cavalo e que teria me matado se não fosse o Cão
de Caça. Sansa nada tinha feito para os plebeus a odiarem, não mais do que Margaery Tyrell
fizera para conquistar seu amor. Será que ela quer que eu também a ame? Estudou o convite, que
parecia ter sido escrito pela mão da própria Margaery. Será que ela deseja a minha bênção?
Sansa perguntou a si mesma se Joffrey estaria ciente daquele jantar. Por tudo que ela sabia,
aquilo podia bem ser obra dele. A idéia encheu-a de medo. Se Joff estivesse por trás do convite,
teria alguma partida cruel planejada para envergonhá-la aos olhos da garota mais velha. Iria
ordenar à Guarda Real que a despisse de novo? Da última vez que fizera isso, o tio Tyrion o
impediu, mas o Duende não podia salvá-la agora.
Ninguém pode me salvar, a não ser meu Florian. Sor Dontos tinha prometido que a ajudaria a
fugir, mas não antes da noite do casamento de Joffrey. Os planos estavam em marcha,
assegurara-lhe seu querido e devotado cavaleiro-feito-bobo; nada havia a fazer até lá além de
agüentar, e contar os dias.
E jantar com a minha substituta...
O
Talvez estivesse cometendo uma injustiça para com Margaery Tyrell. O convite talvez não fosse
mais do que uma simples consideração, um ato de cortesia. Pode ser só um jantar. Mas aquilo era
a Fortaleza Vermelha, aquilo era Porto Real, aquilo era a corte do
Kei joitrey tfarattieon, o Frimeiro de òeu fslome, e se havia alguma coisa que Sansa Stark
aprendera ali era a desconfiança.
Mesmo assim, tinha de aceitar, Agora não era nada, a filha rejeitada de um traidor e a irmã caída
em desgraça de um senhor rebelde. Dificilmente poderia dizer não à futura rainha de JofFrey.
Gostaria que o Cão de Caça estivesse aqui. Na noite da batalha, Sandor Clegane viera aos
seus aposentos para levá-la da cidade, mas Sansa recusou. Ás vezes ficava acordada à noite,
perguntando a si mesma se teria feito bem, Havia escondido o manto branco e manchado do Cão
de Caça em uma arca de cedro, por baixo de suas sedas de verão, Não saberia dizer por que o
guardara. Ouviu dizer que o Cão de Caça tinha se acovardado; no auge da batalha ficara tão
bêbado que o Duende tivera de levar seus homens, Mas Sansa compreendia. Conhecia o segredo
de seu rosto queimado. Ele só temia o jogo. Naquela noite, o fogovivo incendiou o próprio rio, e
encheu o ar de chamas verdes. Mesmo no castelo, Sansa tinha sentido medo. Lá fora,., quase
nem conseguia imaginar.
Suspirando, pegou uma pena e o tinteiro e escreveu a Margaery Tyrell uma graciosa nota
aceitando o convite.
Quando a noite marcada chegou, outro membro da Guarda Real veio buscá-la, um homem tão
diferente de Sandor Clegane como... bem, como uma flor de um cão. Ver Sor Loras Tyrell, em pé,
à soleira de sua porta, fez o coração de Sansa bater um pouco mais depressa. Aquela era a
primeira vez que estava tão perto dele desde seu retorno a Porto Real, à frente da vanguarda da
tropa do pai. Por um momento, não soube o que dizer,
- Sor Loras - conseguiu enfim pronunciar -, está... está muito bonito.
Ele deu-lhe um sorriso embaraçado.
- A senhora é muito amável. E também bela, Minha irmã a espera ansiosamente.
- Aguardei o nosso jantar com tanta expectativa.
- Margaery também, assim como a senhora minha avó. - Tomou seu braço e levou-a na direção
dos degraus.
- Sua avó? - Sansa estava achando difícil caminhar, conversar e pensar ao mesmo tempo, com
Sor Loras tocando seu braço. Sentia o calor de sua mão através da seda.
- A Senhora Olenna. Ela também deverá jantar com você.
- Oh - disse Sansa. Estou falando com ele, e ele está me tocando, está segurando meu braço e
me tocando. - Chamam-na de Rainha dos Espinhos. Não é verdade?
- E. - Sor Loras soltou uma gargalhada. Ele tem a mais quente das gargalhadas, pensou Sansa
enquanto o jovem prosseguia - Mas é melhor que não use esse nome na presença dela, caso
contrário é provável que seja espetada.
Sansa corou. Qualquer idiota teria compreendido que nenhuma mulher ficaria feliz por ser
chamada de "Rainha dos Espinhos". Talvez eu seja mesmo tão burra quanto Cersei Lannister diz.
Tentou desesperadamente pensar em algo inteligente e encantador para lhe dizer, mas a
esperteza a tinha abandonado. Quase lhe disse como era belo, até se lembrar de que já tinha feito
isso.
Mas ele era belo. Parecia mais alto do que quando o vira pela primeira vez, mas mantinha a
agilidade e a graciosidade, e Sansa nunca vislumbrara outro garoto com olhos tão maravilhosos.
Mas ele não é um garoto, é um homem-feito, um cavaleiro da Guarda Real. Achou que sua
aparência era ainda melhor de branco do que com o verde e dourado da Casa Tyrell. O único
ponto de cor que havia nele agora era o broche que prendia seu manto; a rosa de Jardim de Cima
trabalhada em ouro mole amarelo, aninhada em uma base de delicadas folhas verdes de jade.
Sor Balon Swann abriu a porta de Maegor para eles passarem. Estava também todo de branco,
embora a cor nem de perto o vestisse tão bem quanto a Sor Loras. Para lá do fosso dos espigões,
duas dúzias de homens treinavam com espadas e escudos. Com o castelo tão cheio, o pátio
exterior fora dado aos visitantes, para ali levantarem suas tendas e pavilhões, deixando apenas os
pátios interiores, menores, para os treinos. Um dos gêmeos Redwyne estava sendo encurralado
por Sor Tallad, com os olhos postos em seu escudo. O atarracado Sor Kennos, de Kayce, que
mostrava os dentes e bufava sempre que erguia a espada, parecia estar se defendendo bem
contra Osney Kettleblack, mas o irmão de Osney, Sor Osfryd, castigava violentamente o escudeiro
com cara de rã, Morros Slynt. Com ou sem espadas embotadas, Slynt teria uma rica safra de
hematomas na manhã seguinte. Sansa estremeceu só de ver. Eles mal acabaram de enterrar os
mortos da última batalha ejá estão treinando para aproxima.
Na extremidade do pátio, um cavaleiro solitário, com um par de rosas douradas no escudo,
defendia-se de três oponentes. Precisamente no momento em que Sansa os observava, o
cavaleiro golpeou um dos oponentes na parte lateral da cabeça, deixando-o sem sentidos.
- Aquele é seu irmão? - perguntou Sansa.
- Sim, senhora - disse Sor Loras. - Garlan treina freqüentemente contra três homens, ou mesmo
quatro. Ele diz que em batalha é raro que se lute um contra um, e por isso gosta de estar
preparado.
- Deve ser muito corajoso.
- E um grande cavaleiro - respondeu Sor Loras. - Na verdade, é melhor espadachim do que eu,
embora eu seja melhor lanceiro.
- Eu me lembro - disse Sansa. - Cavalga maravilhosamente, sor,
- A senhora é amável por dizer tal coisa. Quando foi que me viu montar?
- No torneio da Mão, não se recorda? Montou um corcel branco, e sua armadura era feita de
uma centena de diferentes espécies de flores. Você me deu uma rosa. Uma rosa vermelha. Nesse
dia atirou rosas brancas às outras mulheres. - Falar daquilo fazia-a co- rar. - Disse que nenhuma
vitória possuía sequer metade da minha beleza.
Sor Loras dirigiu-lhe um sorriso modesto,
- Disse apenas uma verdade simples, que qualquer homem com olhos pode ver.
Ele não se lembra, compreendeu Sansa, sobressaltada. Está só sendo gentil comigo, não se
lembra de mim, da rosa ou de qualquer outra coisa. Tivera tanta certeza de que o acontecimento
tinha significado algo, de que tinha significado tudo. Uma rosa vermelha, e não branca.
- Foi depois de ter derrubado Sor Robar Royce - disse ela, desesperada.
Ele tirou a mão de seu braço.
- Matei Robar em Ponta Tempestade, senhora, - Não estava se vangloriando; sua voz soava
triste.
Ele e outro dos homens da Guarda Arco-íris do Rei Renly, sim. Sansa ouviu as mulheres falar
disso em volta do poço, mas por um momento tinha se esquecido.
- Foi quando Lorde Renly foi morto, não foi? Que coisa terrível para sua pobre irmã.
- Para Margaery? - a voz dele estava tensa, - Com certeza. Mas ela estava em Ponta- marga.
Não viu nada.
- Mesmo assim, quando ouviu a notícia...
Sor Loras afagou ligeiramente o cabo da espada com a mão, O punho era de couro branco, o
botão, uma rosa de alabastro.
- Renly está morto. Robar também. Por que falar deles?
A aspereza em seu tom pegou-a desprevenida.
- Eu... senhor, eu... não pretendia ofendê-lo, sor.
- Nem poderia fazê-lo, Senhora Sansa - respondeu Sor Loras, mas todo o calor tinha
desaparecido de sua voz. Nem voltou a tomar seu braço.
Subiram a escada em espiral num profundo silêncio.
Oh, por que eu tinha de mencionar Sor Robar? pensou Sansa. Estraguei tudo. Ele agora está
zangado comigo. Tentou pensar em alguma coisa que pudesse dizer para fazer as pazes, mas
todas as palavras que passavam por sua cabeça eram capengas e fracas. Fique calada, senão vai
ficar ainda pior, disse a si mesma.
Lorde Mace Tyrell e sua comitiva tinham sido alojados atrás do septo real, na longa fortaleza
com telhado de ardósia, que era chamada de Arcada das Donzelas desde que o Rei Baelor, o
Abençoado, confinara ali as irmãs, para que a visão delas não o tentasse a ter pensamentos
carnais. Junto às suas portas altas e esculpidas encontravam-se dois guardas com meio elmo
dourado e manto verde debruado de cetim dourado, com a rosa dourada de Jardim de Cima cosida
no peito. Ambos tinham mais de dois metros e dez de altura e eram largos de ombros e estreitos de
cintura, magnificamente musculosos. Quando Sansa se aproximou o suficiente para ver seus
rostos, não foi capaz de distingui- -los um do outro. Possuíam os mesmos maxilares fortes, os
mesmos profundos olhos azuis, os mesmos densos bigodes ruivos.
- Quem são eles? - perguntou a Sor Loras, momentaneamente esquecida do embaraço.
- A guarda pessoal de minha avó - disse-lhe ele. - A mãe deles os chamou de Erryk e Arryk.
Minha avó não consegue distingui-los, por isso os chama de Esquerdo e Direito.
Esquerdo e Direito abriram as portas, e a própria Margaery Tyrell surgiu e desceu saltitante o
pequeno lance de escadas, ao encontro dos recém-chegados.
- Senhora Sansa - gritou -, estou tão contente por ter vindo. Seja bem-vinda.
Sansa ajoelhou aos pés de sua futura rainha.
- A senhora me concede uma grande honra, Vossa Graça.
- Por que não me chama de Margaery? Por favor, levante-se. Loras, ajude a Senhora Sansa a
ficar em pé. Posso chamá-la de Sansa?
- Se lhe agradar.
Sor Loras fez o que lhe foi pedido. Margaery mandou-o embora com um beijo fraternal e pegou a
mão de Sansa.
- Venha, minha avó a espera, e ela não é a mais paciente das senhoras.
O fogo crepitava na lareira, e esteiras com um cheiro doce tinham sido espalhadas pelo chão.
Uma dúzia de mulheres estava sentada em volta da longa mesa de montar.
Sansa só reconheceu a alta e digna esposa de Lorde Tyrell, a Senhora Alerie, cuja longa trança
prateada se encontrava presa com anéis incrustados de jóias. Margaery fez as outras
apresentações. Havia três primas Tyrell, Megga, Alia e Elinor, todas com idades próximas à de
Sansa. A roliça Senhora Janna era irmã de Lorde Tyrell, e era casada com um dos Fossoway da
maçã verde; a graciosa Senhora Leonette, de olhos brilhantes, era também uma Fossoway,
casada com Sor Garlan. A Septá Nysterica possuía um rosto modesto e marcado por varíola, mas
parecia alegre. A pálida e elegante Senhora Grace- ford esperava criança, e a Senhora Bulwer era
uma criança, com não mais de oito anos. E "Merry" era como ela chamaria a rude e encorpada
Meredyth Crane, mas decididamente não a Senhora Merryweather, uma apaixonante beleza de
Myr, de olhos negros.
Após todas as outras, Margaery trouxe-a junto de uma mulher encarquilhada, de cabelos
brancos, que mais parecia uma boneca, sentada à cabeceira da mesa.
- Tenho a honra de lhe apresentar a minha avó, a Senhora Olenna, viúva do falecido Luthor
Tyrell, Senhor de Jardim de Cima, cuja memória é um conforto para todos nós.
A idosa cheirava a água de rosas. Ob, ela é uma coisinha minúscula. Nada havia na mulher que
fosse minimamente espinhoso.
- Beije-me, filha - disse a Senhora Olenna, puxando o pulso de Sansa com uma mão suave e
manchada. - É tanta gentileza sua vir jantar comigo e com meu tolo bando de galinhas.
Obedientemente, Sansa beijou a velha no rosto.
- A gentileza foi sua, por me convidar, senhora.
- Conheci seu avô, Lorde Rickard, embora mal.
- Ele morreu antes de eu nascer,
- Sei disso, filha. Dizem que seu avô Tully também está morrendo. Lorde Hoster, certamente
lhe disseram, não? Um velho, embora não tão velho como eu. Seja como for, no fim a noite cai
para todos nós, e cedo demais para alguns. Deve saber disso melhor do que a maioria das
pessoas, pobre criança. Teve a sua cota de luto, eu sei. Lamentamos as suas perdas,
Sansa olhou de relance para Margaery,
- Entristeceu-me saber da morte de Lorde Renly, Vossa Graça, Ele era muito galante.
- E bondade sua dizer isso - respondeu Margaery.
A avó bufou.
- Galante, sim, e encantador, e muito limpo. Sabia como se vestir, sabia como sorrir e sabia
como tomar banho, e, não se sabe bem como, arranjou a idéia de que isso o tornava apto a ser rei.
Os Baratheon sempre tiveram idéias estranhas, certamente. Vem do sangue Targaryen, creio eu. -
Fungou. - Um dia tentaram me casar com um Targaryen, mas rapidamente dei um basta nisso.
- Renly era bravo e gentil, avó - disse Margaery. - O pai também gostava dele, assim como
Loras.
- Loras é jovem - disse com vivacidade a Senhora Olenna - e muito bom em derrubar homens
dos cavalos com um pau, Isso não faz dele sensato. Quanto ao seu pai, gostaria de ter nascido
camponesa com uma grande colher de pau, porque talvez tivesse sido capaz de enfiar na marra
algum juízo naquela cabeça gorda.
- Mãe - repreendeu a Senhora Alerie.
- Chiu, Alerie, não fale comigo nesse tom. E não me chame de mãe. Se tivesse dado você à luz,
certamente me lembraria. Só podem me culpar por seu marido, o lorde idiota de Jardim de Cima.
- Avó - disse Margaery tome tento nas palavras, senão o que Sansa pensará de nós?
- Pode pensar que possuímos alguma inteligência. Uma de nós, pelo menos. - A mulher idosa
virou-se para Sansa. - É traição, eu os preveni, Robert tem dois filhos e Renly, um irmão mais
velho, como seria possível que ele tivesse alguma pretensão àquela feia cadeira de ferro? Vá lá,
diz o meu filho, não quer que a sua querida seja rainha? Vocês, os Stark, um dia foram reis, os
Arryn e os Lannister também, e até os Baratheon, pela linha feminina, mas os Tyrell não passavam
de intendentes até chegar Aegon, o Dragão, e cozinhar o rei legítimo da Campina no Campo de
Fogo, A bem da verdade, até nossa pretensão a Jardim de Cima é um pouco malandra, como
aqueles terríveis Florent andam sempre choramingando. "O que importa" você pode perguntar, e
certamente não importa, exceto para idiotas como o meu filho. A idéia de um dia ver o neto com a
bunda no Trono de Ferro faz Mace inchar como... como é que se chama? Margaery, você que é
esperta, seja boazinha e diga à sua avó meio pateta o nome daquele peixe esquisito das Ilhas do
Verão que, quando é tocado, incha como um balão até ficar dez vezes maior,
- Ele é chamado de peixe-balão, avó.
- Claro que sim. O povo das Ilhas do Verão não tem imaginação nenhuma. O meu filho devia
adotar o peixe-balão como símbolo, para falar a verdade. Podia pôr uma coroa nele, como os
Baratheon fazem com o veado, isso talvez o deixasse feliz. Devíamos ter permanecido bem longe
de toda esta sangrenta babaquice, a meu ver, mas depois de ordenhar a vaca não há como enfiar
o leite de volta nas tetas. Depois de o Lorde Peixe - -Balão colocar aquela coroa na cabeça de
Renly, enfiamo-nos na lama até os joelhos, portanto aqui estamos para levar as coisas até o fim. E
o que você diz sobre isso, Sansa?
A boca de Sansa abriu e fechou. Também se sentia como um peixe-balão.
- Os Tyrell conseguem traçar a sua genealogia até Garth da Mão Verde - foi o melhor que
conseguiu arranjar assim de repente.
A Rainha dos Espinhos fungou e disse:
- Assim como os Florent, os Rowan, os Oakheart e metade das outras casas nobres do sul.
Garth gostava de plantar a sua semente em terreno fértil, segundo dizem. Não me surpreenderia
que não fosse só a mão que ele tinha verde.
- Sansa - interrompeu a Senhora Alerie -, deve estar com muita fome. Vamos comer um pouco
de javali e alguns bolos de limão?
~ Bolos de limão são os meus preferidos - admitiu Sansa.
- Foi o que nos disseram - declarou a Senhora Olenna, que claramente não tinha qualquer
intenção de ser silenciada. - Aquela criatura chamada Varys pareceu pensar que devíamos nos
sentir gratas por essa informação. Nunca entendi lá muito bem qual é o objetivo de um eunuco, a
bem da verdade. Parece-me que são só homens com as partes úteis cortadas. Alerie, mande que
nos sirvam a comida, ou pretende me matar de fome? Venha cá, Sansa, sente aqui ao meu lado,
sou muito menos chata do que essas outras. Espero que goste de bobos.
Sansa alisou a saia e sentou-se.
- Penso que... bobos, senhora? Fala de... do tipo que se veste de quadriculado?
- Nesse caso são penas. De que achava que eu falava? Do meu filho? Ou destas adoráveis
senhoras? Não, não fique vermelha, com esses cabelos, você fica parecendo uma romã. Todos os
homens são bobos, na verdade, mas aqueles que se vestem de quadriculado são mais divertidos
do que os que usam coroa. Margaery, filha, mande chamar o Abetouro, vamos ver se ele consegue
fazer a Senhora Sansa sorrir. O resto de vocês sentem-se, terei de lhes dizer tudo o que for para
fazer? Sansa deve pensar que a minha neta é servida por um rebanho de ovelhas.
O Abetouro chegou antes da comida, vestido com um traje de bobo de penas verdes e
amarelas, com um barrete pendente. Um homem imensamente gordo e redondo, do tamanho de
três Rapazes-Lua, entrou rebolando no salão, saltou para cima da mesa e depositou um
gigantesco ovo bem na frente de Sansa.
- Quebre-o, senhora - ordenou. Quando ela o fez, uma dúzia de pintinhos amarelos fugiram e
desataram a correr em todas as direções. - Apanhem-nos! - exclamou o Abetouro. A pequena
Senhora Bulwer capturou um e entregou a ele, de modo que o homem o enfiou em sua enorme
boca elástica, e pareceu engoli-lo inteiro. Quando arrotou, minúsculas penas amarelas voaram por
seu nariz. A Senhora Bulwer desatou a chorar, aflita, mas suas lágrimas transformaram-se num
súbito guincho de deleite quando o pintinho saiu, contorcendo-se, da manga de seu vestido e
correu pelo seu braço abaixo.
Quando os criados trouxeram um caldo de alho-poró e cogumelos, o Abetouro começou a fazer
malabarismos e a Senhora Olenna inclinou-se para a frente e apoiou os cotovelos na mesa.
- Conhece o meu filho, Sansa? Lorde Peixe-Balão de Jardim de Cima?
- É um grande senhor - respondeu polidamente Sansa.
- É um grande idiota - disse a Rainha dos Espinhos. - O pai também era um idiota. Meu esposo,
o falecido Lorde Luthor..Oh, amei-o bastante, não me entenda mal. Era um homem gentil, e não
lhe faltava habilidade no quarto, mas não deixava de ser pavorosamente idiota. Conseguiu cair
com o cavalo de uma falésia enquanto caçava com falcão. Dizem que olhava para o céu, sem
prestar nenhuma atenção para onde o cavalo o levava.
"E agora o idiota do meu filho está fazendo o mesmo, só que está montando um leão em vez de
um palafrém. Eu preveni-o de que é fácil montar um leão, mas não é tão fácil desmontá-lo; porém,
ele só responde com risinhos. Se algum dia tiver um filho, Sansa, bata nele com freqüência, para
que aprenda a lhe dar ouvidos. Eu só tive um rapaz e quase não bati nele, é por isso que agora ele
presta mais atenção ao Abetouro do que a mim. Um leão não é um gato de colo, eu lhe disse, e ele
me vem com um 'vá-lá-mãe'. Há muito mais'vá-lás' neste reino do que devia existir, se quer saber.
Todos esses reis fariam bastante melhor se depusessem as espadas e escutassem as mães."
Sansa percebeu que estava de novo com a boca aberta. Encheu-a com uma colher de caldo
enquanto a Senhora Alerie e as outras mulheres riam do espetáculo que Abetouro dava, fazendo
laranjas saltarem com sua cabeça, seus cotovelos e seu grande traseiro.
- Quero que me conte a verdade sobre esse real rapaz - disse abruptamente a Senhora
Olenna. - Esse JofFrey.
Os dedos de Sansa apertaram-se em volta da colher. A verdade? Não posso, Não me peça a
verdade, por favor, não posso.
- Eu.,, eu... eu...
- Você, sim. Quem melhor o conheceria? O moço parece bastante régio, admito. Um pouco
cheio de si, mas isso deve vir do sangue Lannister. No entanto, ouvimos algumas histórias
perturbadoras. Há alguma verdade nelas? Aquele rapaz maltratou-a?
Sansa lançou um olhar nervoso à sua volta. O Abetouro enfiou uma laranja inteira na boca,
mastigou-a e engoliu-a, deu um tapa no rosto e assoou sementes pelo nariz. As mulheres riram.
Criados iam e vinham, e a Arcada das Donzelas ecoava com o ruído das colheres e dos pratos.
Um dos pintos voltou a saltar para cima da mesa e atravessou correndo o caldo da Senhora
Graceford. Ninguém parecia estar prestando a mínima atenção nelas, mesmo assim Sansa
sentia-se assustada.
A Senhora Olenna estava ficando impaciente.
- Por que está olhando para o Abetouro de boca aberta? Fiz uma pergunta, espero uma
resposta. Os Lannister roubaram a sua língua, filha?
Sor Dontos prevenira-a para só falar à vontade no bosque sagrado.
- Joff... o Rei Joffrey, ele... Sua Graça é muito justo e bonito, e... e bravo como um leão.
- Sim, todos os Lannister são leões, e quando um Tyrell solta gases cheira mesmo a rosas -
exclamou a idosa. - Mas quão bondoso ele é? Quão inteligente? Tem um bom coração, uma mão
gentil? E cavalheiresco como um rei deve ser? Irá estimar Margaery e tratá-la com ternura,
proteger sua honra como protegeria a própria?
- Sim - mentiu Sansa. - Ele é muito... muito bonito.
- Já disse isso. Sabe, filha, há quem diga que você é tão tola quanto o Abetouro, e eu começo a
acreditar. Bonito? Ensinei à minha Margaery o que vale a beleza, espero eu. Um pouco menos do
que um peido de saltimbanco. Aerion Fogo-Forte era bastante bonito, mas mesmo assim era um
monstro. A questão é: o que é Joffrey? - estendeu a mão para puxar um criado que passava. - Não
gosto de alho-poró. Leve este caldo e traga-me um pouco de queijo.
- O queijo será servido depois dos bolos, senhora.
- O queijo será servido quando eu quiser que ele seja servido, e quero-o servido já. - A velha
voltou a se virar para Sansa. - Está assustada, filha? Não precisa, aqui somos só mulheres.
Conte-me a verdade, nenhum mal acontecerá a você.
- Meu pai sempre disse a verdade, - Sansa falava em voz baixa, ainda assim era difícil forçar as
palavras a sair,
- Lorde Eddard, sim, ele tinha essa reputação, mas mesmo assim o chamaram de traidor e
cortaram sua cabeça. - Os olhos da velha a atravessaram, afiados e brilhantes como pontas de
espadas.
-Joffrey - disse Sansa. - Foi Joffrey quem fez isso. Prometeu-me que seria misericordioso, e
cortou a cabeça de meu pai. Disse que isso era uma misericórdia e levou-me até o alto das
muralhas e obrigou-me a olhar para ela. Para a cabeça. Queria que eu chorasse, mas,,. - Parou
abruptamente e cobriu a boca. Disse mais do que deveria, oh, pela bondade dos deuses, eles
saberão, eles ouvirão falar disso, alguém me denunciará.
- Continue. - Foi Margaery que pediu. A futura rainha de Joffrey. Sansa não sabia quanto ela
teria ouvido.
- Não posso. -E se ela contar para ele, e se ela contar? Ele então vai me matar com certeza, ou
me dar a Sor Ilyn. - Não quis dizer,., meu pai era um traidor, meu irmão também, tenho sangue de
traidor, por favor, não me obriguem a dizer mais.
- Acalme-se, filha - ordenou a Rainha dos Espinhos.
- Ela está aterrorizada, avó, olhe só para ela.
A velha gritou ao Abetouro.
- Bobo! Dê-nos uma canção. Uma longa, penso eu. "O urso e a bela donzela" servirá muito bem.
- Sim! - respondeu o enorme bobo. - Servirá mesmo muito bem! Devo cantá-la apoiado em
minha cabeça, senhora?
- Isso fará com que soe melhor?
- Não»
- Nesse caso, fique sobre seus pés. Não queremos que seu chapéu caia. Se bem me lembro,
você nunca lava o cabelo.
-Às suas ordens, senhora. - O Abetouro fez uma profunda reverência, soltou um gigantesco
arroto, e então endireitou-se, espetou a barriga e berrou: - Havia um urso, um urso, um URSO!
Preto e castanho e coberto de pelo...
A Senhora Olenna inclinou-se para a frente.
- Quando eu era uma garota mais nova do que você, já era bem sabido que na Fortaleza
Vermelha as paredes têm ouvidos. Bem, ficarão entretidos com uma canção e, enquanto isso, nós,
as meninas, falaremos livremente.
- Mas - disse Sansa - Varys... ele sabe, ele sempre...
- Cante mais alto! - gritou a Rainha dos Espinhos ao Abetouro. - Estes velhos ouvidos estão
quase surdos, sabe? Está sussurrando para mim, bobo gordo? Não lhe pago por sussurros. Cante!
- ... 0 URSO/ - trovejou o Abetouro, fazendo ecoar a sua sonora e profunda voz nas vigas do
teto. - OH, VEM, DISSERAM, OH, VEM AO CONCURSO! CONCURSO? DISSE ELE, MAS EU
SOU UM URSO! PRETO E CASTANHO E COBERTO DE PELO!
A encarquilhada velha senhora sorriu.
- Em Jardim de Cima temos muitas aranhas entre as flores. Desde que guardem as coisas para
si, deixamos que teçam as suas pequenas teias, mas quando se põem debaixo de nossos pés,
pisamos nelas. - Deu palmadinhas nas costas da mão de Sansa. - Agora, filha, a verdade. Que tipo
de homem é esse JofFrey, que chama a si mesmo Baratheon, mas parece tão Lannister?
- E DAQUI PARA LÁ AO LONGO DO PERCURSO. PERCURSO! PERCURSO! TRÊS MOÇOS,
UM BODE E UMA DANÇA DE URSO!
Sansa sentia-se como se o coração estivesse preso em sua garganta. A Rainha dos Espinhos
estava tão perto dela que conseguia sentir seu mau hálito. Os dedos descarnados e esguios da
velha beliscavam seu pulso. Do outro lado, Margaery também estava à escuta. Um arrepio
percorreu-a.
- Um monstro - segredou, com uma voz tão trêmula que quase não conseguiu ouvir a si mesma.
- JofFrey é um monstro. Mentiu a respeito do filho do carniceiro e obrigou meu pai a matar a minha
loba. Quando lhe desagrado, manda a Guarda Real bater em mim. E mau e cruel, senhora, é a
verdade. E a rainha também.
A Senhora Olenna Tyrell e a neta trocaram olhares.
- Ah - disse a velha -, isso é uma pena.
Oh, deuses, pensou Sansa, horrorizada. Se Margaery não se casar com ele, Joff saberá que a
culpa é minha.
- Por favor - suplicou -, não impeça o casamento...
- Não tenha medo, Lorde Peixe-Balão está determinado a que Margaery seja rainha. E a
palavra de um Tyrell vale mais do que todo o ouro de Rochedo Casterly. Pelo menos era assim na
minha época. Seja como for, agradecemos pela verdade filha.
- ... DANÇOU E GIROU ATÉ CHEGAR AO CONCURSO! CONCURSO! CONCURSO! - o
Abetouro saltava, rugia e batia os pés.
- Sansa, gostaria de visitar Jardim de Cima? - quando Margaery Tyrell sorria, parecia-se muito
com o irmão Loras. - Todas as flores do outono estão em botão nesta época, e há bosques e
fontes, pátios cheios de sombras, colunatas de mármore. O senhor meu pai sempre mantém
cantores na corte, melhores do que o Abinho aqui, e também flautistas, rabequeiros e harpistas.
Temos os melhores cavalos e barcos de lazer para viajar ao longo do Vago. Você pratica falcoaria,
Sansa?
- Um pouco - admitiu.
- OH, E ELA ERA DOCE E PURA E BELA! A DONZELA COM MEL NOS CABELOS!
- Vai gostar tanto de Jardim de Cima quanto eu, sei que sim. - Margaery empurrou para trás
uma madeixa solta dos cabelos de Sansa. - Assim que vir o castelo, nunca mais vai querer partir. E
talvez não tenha que fazer isso.
- CABELOS! CABELOS! A DONZELA COM MEL NOS CABELOS!
- Chiu, filha - disse a Rainha dos Espinhos em tom penetrante. - Sansa nem sequer nos disse
que gostaria de ir até lá como visita.
- Ah, mas gostaria - disse Sansa. Jardim de Cima parecia ser o lugar com que sempre sonhara,
como a bela corte mágica que um dia esperara encontrar em Porto Real.
- ... CHEIROU 0 ODOR NO AR DE VERÃO. 0 URSO/ 0 URSO! PRETO E CASTANHO E
COBERTO DE PELO.
- Mas a rainha - prosseguiu Sansa -, ela não me deixará ir...
- Deixará. Sem Jardim de Cima, os Lannister não têm esperança de manter Joffrey no trono. Se
o meu filho, o lorde idiota, pedir, ela não terá outra escolha a não ser conceder- -lhe o pedido.
- Ele faria isso? - perguntou Sansa. - Ele pedirá?
A Senhora Olenna franziu a testa.
- Não vejo necessidade de lhe dar outra escolha, Claro, ele não faz a mínima idéia de nosso
verdadeiro propósito.
- CHEIROU 0 ODOR NO AR DE VERÃO!
Sansa franziu a testa.
- O nosso verdadeiro propósito, senhora?
- FUNGOU E RUGIU E CHEIROU-O, BABÃO! MEL NO AR DE VERÃO!
- Tratar de casá-la em segurança, filha - disse a velha, enquanto o Abetouro berrava a
velhíssima canção -, com o meu neto.
Casar com Sor Loras, ok.. A respiração de Sansa ficou presa na garganta. Lembrou-se de Sor
Loras em sua cintilante armadura de safiras, atirando-lhe uma rosa. Sor Loras vestido de seda
branca, tão puro, inocente e belo. As covinhas nos cantos da boca quando sorria. A doçura de seu
riso, o calor de sua mão. Só podia imaginar o que seria tirar sua túnica e acariciar a pele suave,
ficar nas pontas dos pés e beijá-lo, correr os dedos por aqueles espessos caracóis castanhos e
afogar-se em seus profundos olhos castanhos. Uma vermelhidão subiu por seu pescoço.
- OH, SOU UMA DONZELA, E SOU PURA E BELA! NÃO DANÇAREI CUM URSO PELUDO!
UM URSO! UM URSO! NÃO DANÇAREI CVM URSO PELUDO!
- Gostaria disso, Sansa? - perguntou Margaery. - Nunca tive uma irmã, só irmãos. Oh, por favor,
diga que sim, por favor, diga que consentirá em se casar com meu irmão.
As palavras precipitaram-se para fora de sua boca.
- Sim, eu me caso. Nada me agradaria mais. Casar com Sor Loras, amá-lo...
- Loras? - a Senhora Olenna fez uma expressão aborrecida. - Não seja tola, filha. A Guarda
Real nunca se casa. Não lhe ensinaram nada em Winterfell? Estávamos falando de meu neto
Willas. Ele é um pouco velho para você, com certeza, mas um rapaz adorável, apesar de tudo.
Nem um pouquinho imbecil, e além disso herdeiro de Jardim de Cima.
Sansa sentiu vertigem; num instante sua cabeça estava cheia de sonhos sobre Loras, e no
seguinte tinham-lhe tirado todos, Willas? Willas?
- Eu - disse, estupidamente. A cortesia é a armadura de uma senhora. Não pode ofende- Aos,
tenha cuidado com o que diz. - Eu não conheço Sor Willas. Nunca tive o prazer, minha senhora. Ele
é.„ é um cavaleiro tão bom quanto os irmãos?
-.,. ERGUEU-A NO AR C'UMA MÂO! 0 URSO! 0 URSO!
- Não - disse Margaery. - Nunca prestou juramento.
A avó franziu a testa.
- Conte a verdade à garota. O pobre rapaz é aleijado, e é assim que as coisas são.
- Foi ferido quando era escudeiro, ao participar de seu primeiro torneio - confidenciou Margaery.
- O cavalo caiu e esmagou a perna de Willas.
- A culpa foi daquela serpente de Dorne, aquele Oberyn Martell. E o meistre dele também.
- gl/JS UM CAVALEIRO, MAS VOCÊ É UM URSO! UM URSO! UM URSO! PRETO E
CASTANHO E COBERTO DE PELO!
- Willas tem uma perna ruim mas um bom coração - disse Margaery. - Costumava ler para mim
quando eu era uma menininha, e fazia desenhos das estrelas para mim. Vai amá-lo tanto como
nós, Sansa.
- 'SPERNEOU E CHOROU, A DONZELA TÃO BELA, MAS ELE LAMBEU- -LHE O MEL DOS
CABELOS. CABELOS! CABELOS! LAMBEU-LHE 0 MEL DOS CABELOS!
- Quando poderei conhecê-lo? - perguntou Sansa, hesitante.
- Em breve - prometeu Margaery. - Quando for a Jardim de Cima, depois de JofFrey e eu nos
casarmos. Minha avó vai levá-la.
- Levarei - disse a velha, dando palmadinhas na mão de Sansa e abrindo um sorriso suave
cheio de rugas. - Levarei mesmo.
- ENTÃO SUSPIROU E GUINCHOUEATÉ 'SPERNEOU! MEU URSO! CANTOU. MEU URSO
TÃO BELO! E DAQUI PARA LÁ FORAM PELO PERCURSO, 0 URSO, 0 URSO E A BELA
DONZELA. - O Abetouro rugiu o último verso, deu um salto e caiu sobre ambos os pés com um
estrondo que fez balançar as taças de vinho sobre a mesa. As mulheres riram e aplaudiram.
- Achava que essa terrível canção nunca mais acabaria - disse a Rainha dos Espinhos. - Mas,
olhem, aí vem o meu queijo.
Davos
Viu a vela crescer durante muito tempo, tentando decidir se preferia viver ou morrer, jí. Sabia que
morrer seria mais fácil. Tudo que tinha a fazer era rastejar para dentro de sua gruta e deixar que o
navio passasse, e a morte iria encontrá-lo, Fazia vários dias que a febre o queimava por dentro,
transformando suas tripas em água marrom e fazendo-o tremer num sono inquieto. Cada manhã o
encontrava mais fraco. Não demorará muito mais tempo, habituara-se a dizer a si mesmo.
Se a febre não o matasse, a sede certamente o faria. Ali, não tinha água doce além da chuva
ocasional que se acumulava em buracos na rocha. Apenas três dias antes (ou teriam sido quatro?
Naquele rochedo era difícil distinguir os dias), as poças estavam secas como osso velho, e ver a
baía ondulando em verde e cinza por toda a volta quase tinha sido mais do que podia suportar.
Sabia que, uma vez que começasse a beber água do mar, o fim chegaria rapidamente, mesmo
assim quase tomou o primeiro gole, tão seca estava sua garganta. Uma súbita chuvarada o tinha
salvado. Enfraquecera tanto a essa altura que tudo que podia fazer era deitar-se na chuva de olhos
fechados e boca aberta, e deixar a água cair sobre seus lábios rachados e sua língua inchada. Mas
depois sentiu-se um pouco mais forte, e as poças, falhas e fendas do rochedo tinham voltado a se
encher de vida.
Mas isso fora três dias antes (ou talvez quatro), e a maior parte da água já tinha desaparecido
novamente. Uma parte evaporara, a outra ele sugou. Na manhã seguinte, estaria de novo
saboreando a lama, e lambendo as pedras úmidas e frias do fundo das depressões.
E se não fosse a sede ou a febre, a fome iria matá-lo. Sua ilha nada mais era do que uma torre
estéril que se projetava da imensidão da Baía da Água Negra. Quando a maré estava baixa, às
vezes conseguia encontrar minúsculos caranguejos ao longo da praia pedregosa onde tinha sido
depositado pelo mar depois da batalha, Eles mordiam dolorosamente seus dedos antes que ele
pudesse esmagá-los nas rochas para sugar a carne de suas garras e as entranhas de suas
conchas.
Mas a praia desaparecia sempre que a maré subia, e Davos tinha de escalar o rochedo para
evitar ser arrastado de volta para a baía. A ponta da elevação erguia-se cinco metros acima da
água na maré alta, mas, quando a baía se encrespava, os respingos subiam ainda mais alto, então
não havia maneira de se manter seco, nem mesmo em sua gruta (que na verdade nada mais era
do que uma concavidade por baixo de uma saliência de rocha). Nada crescia no rochedo além de
líquenes, e até as aves marinhas evitavam o local. De
vez em quando, algumas gaivotas pousavam no topo do pináculo e Davos tentava apanhar uma,
mas eram rápidas demais para que ele conseguisse se aproximar. Resolveu atirar pedras nelas,
mas estava fraco demais para atirar com muita força, e mesmo quando as pedras acertavam o
alvo, as gaivotas limitavam-se a grasnar para ele, aborrecidas, e levantavam voo.
Outros rochedos eram visíveis de seu refugio, elevações de rocha distantes, mais altas do que a
sua. Estimou que a mais próxima subia a uns bons doze metros acima da água, embora fosse
difícil ter certeza aquela distância. Uma nuvem de gaivotas rodopiava constantemente ao redor
dela, e Davos pensava com freqüência em nadar até lá para assaltar seus ninhos. Mas a água ali
era fria, as correntes pareciam fortes e traiçoeiras, e ele sabia que não tinha forças para tamanho
esforço. Seria uma morte tão certa como beber água do mar.
Lembrava-se, de anos anteriores, que o outono no mar estreito era freqüentemente úmido e
chuvoso. Os dias não eram feios, desde que o sol brilhasse, mas as noites estavam ficando mais
frias e às vezes o vento soprava com força na baía, empurrando à sua frente uma fileira de cristas
de ondas, e pouco depois Davos estaria ensopado e tremendo. Febre e arrepios revezavam-se em
assaltá-lo, e nos últimos dias tinha desenvolvido uma tosse persistente e torturante.
Sua gruta era todo o abrigo de que dispunha, e isso era bem pouco. Madeira flutuante e pedaços
de detritos carbonizados eram empurrados para a praia na maré baixa, mas não tinha como criar
uma faísca ou acender uma fogueira, Uma vez, em desespero, tentara esfregar dois pedaços de
madeira um no outro, mas a madeira estava apodrecida, e seus esforços só lhe renderam bolhas.
Tinha também as roupas encharcadas, e perdera uma das botas em alguma baía antes de dar à
costa naquele lugar.
Sede; fome; exposição às intempéries. Eram essas as suas companheiras, presentes a
qualquer hora de todos os dias, e com o tempo começou a pensar nelas como amigas. Em breve,
uma ou outra de suas companheiras iria se apiedar dele e libertá-lo daquele sofrimento sem fim.
Ou talvez ele se limitasse a entrar na água, um dia, e se dirigir à costa que sabia ficar em algum
lugar para o norte, para além de sua vista. Era longe demais para nadar, fraco como se encontrava,
mas não importava, Davos sempre fora marinheiro; estava destinado a morrer no mar. Os deuses
submersos têm estado à minha espera, dizia a si mesmo. Já é mais que hora de ir encontrá-los.
Mas agora havia uma vela; apenas uma mancha no horizonte, mas crescendo. Um navio onde
não devia haver navios. Sabia mais ou menos em que lugar ficava aquele rochedo; pertencia a
uma série de montanhas submarinas que se erguiam do fundo da Baía da Água Negra, A mais alta
projetava-se a trinta metros acima da maré, e uma dúzia de montes menores subiam entre dez e
vinte metros. Os marinheiros chamavam- -nas de lanças do rei bacalhau, e sabiam que para cada
uma que rompia a superfície, uma dúzia espreitava traiçoeiramente logo abaixo. Qualquer capitão
com juízo mantinha sua rota bem afastada delas.
Com olhos pálidos e rajados de vermelho, Davos observou a vela inflar-se e tentou ouvir o som
do vento capturado nela. Ela vem para cá. A menos que mudasse de rumo em breve, passaria a
distância de um grito de seu estéril refúgio. Podia significar a vida. Se a quisesse. Não tinha certeza
se queria.
Por que devo viver?, pensou enquanto lágrimas embaçavam sua visão. Pela bondade dos
deuses, por quê? Meus filhos estão mortos, Dale e Allard, Maric e Matthos, talvez também Devan.
Como pode um pai sobreviver a tantos filhos fortes e jovens? Como poderia prosseguir? Sou uma
carapaça vazia, o caranguejo está morto, nada resta aqui dentro». Eles não sabem disso?
Tinham entrado na Torrente da Água Negra, exibindo o coração flamejante do Senhor da Luz.
Davos e o Betha Negra tinham estado na segunda linha de batalha, entre o Espectro de Dale e o
Senhora Marya de Allard. Maric, seu terceiro filho, era mestre dos remadores no Fúria, no centro
da primeira linha, enquanto Matthos servia como imediato do pai. Sob as muralhas da Fortaleza
Vermelha, as galés de Stannis Baratheon tinham travado batalha com a frota menor do rei rapaz,
JofFrey, e durante alguns momentos o rio ressoara com os disparos dos arcos e o estrondo de
espigÕes de ferro despedaçando tanto remos como cascos.
E então um grande animal desconhecido soltou um rugido, e havia chamas verdes por toda a
volta: fogovivo, mijo de piromante, o demônio de jade. Matthos estava em pé ao seu lado quando o
navio pareceu erguer-se da água. Davos deu por si no rio, batendo os braços enquanto a corrente
o agarrava e o fazia rodopiar, dando voltas e mais voltas. No sentido da nascente, as labaredas
tinham rasgado o céu, a quinze metros de altura. Viu o Betha Negra em chamas, e também o
Fúria, e uma dúzia de outros navios, viu homens em chamas saltarem na água para lá se
afogarem. O Espectro e o Senhora Marya tinham desaparecido, afundados, despedaçados, ou
escondidos por um véu de fogovivo, e não havia tempo de procurá-los, porque ele estava quase na
foz do rio, e os Lannister tinham erguido uma grande corrente de ferro na embocadura. De
margem a margem, nada havia além de navios em chamas e fogovivo. Aquela visão pareceu ter
parado seu coração por um momento, e ainda se lembrava do ruído, o crepitar das chamas, o silvo
do vapor, os gritos dos moribundos, e o bater daquele terrível calor contra seu rosto quando a
corrente do rio o arrastou para baixo, na direção do inferno.
Só precisava deixar-se levar. Alguns momentos mais, e estaria com os filhos, descansando na
fria lama verde do fundo da baía, com peixes mordiscando seu rosto.
Mas, em vez disso, tinha inspirado um grande trago de ar e mergulhado, batendo os pés na
direção do fundo do rio. Sua única esperança era passar por baixo da corrente, dos navios em
chamas e do fogovivo que flutuava na superfície da água, nadar com força em busca da segurança
da baía que se estendia do outro lado. Davos sempre fora um bom nadador, e naquele dia não
usava nada de aço além do elmo que tinha perdido quando o Betha Negra naufragou. Enquanto
cortava através da escuridão verde, viu outros homens lutando sob a água, puxados para baixo,
afogando-se sob o peso de armaduras e cotas de malha. Davos passou por eles nadando,
batendo os pés com todas as forças que restavam às suas pernas, entregando-se à corrente, com
a água enchendo seus olhos. Desceu mais fundo, e mais fundo, e ainda mais fundo. A cada
braçada tornava-se mais difícil manter a respiração presa. Lembrava-se de ter visto o fundo, suave
e indistinto, quando um rio de bolhas explodiu de seus lábios. Algo havia tocado sua perna... uma
raiz submersa, um peixe ou um homem que se afogava, não sabia dizer.
A essa altura, já precisava de ar, mas tinha medo. Já teria ultrapassado a corrente, estaria já na
baía? Se subisse por baixo de um navio, iria se afogar, e se chegasse à superfície entre as
manchas flutuantes de fogovivo, sua primeira inspiração torraria seus pulmões, transformando-os
em cinzas. Virou-se na água para olhar para cima, mas nada havia para ver além de uma
escuridão verde, e então já tinha virado demais e não conseguia distinguir entre o que ficava em
cima e o que ficava embaixo. O pânico dominara-o. Suas mãos bateram contra o fundo do rio,
levantando uma nuvem de areia que o cegou. Seu peito ficava mais e mais apertado. Arranhou a
água, batendo os pés, empurrando-se, virando, com os pulmões gritando por ar, batendo os pés,
batendo os pés, agora perdido na escuridão do rio, batendo os pés, batendo os pés, batendo os
pés até já não conseguir batê-los mais. Quando abriu a boca para gritar, a água jorrou para dentro,
salgada, e Davos Seaworth soube que estava se afogando.
Quando voltou a si, o sol estava no céu, e ele jazia numa praia pedregosa por baixo da projeção
de uma rocha nua, com a baía vazia ao seu redor e um mastro quebrado, uma vela queimada e um
cadáver inchado a seu lado. O mastro, a vela e o morto desapareceram com a maré cheia
seguinte, deixando Davos sozinho no seu rochedo entre as lanças do rei bacalhau.
Seus longos anos como contrabandista tinham feito com que as águas ao redor de Porto Real
lhe fossem mais familiares do que qualquer lar que alguma vez tivera, e compreendeu que seu
refúgio nada mais era do que um ponto nos mapas, um lugar de onde os navegantes honestos se
afastavam em vez de se aproximar... embora o próprio Davos tivesse andado por ali uma ou duas
vezes em seus dias de contrabando, a fim de melhor passar despercebido. Quando me
encontrarem morto aqui, se me encontrarem, talvez deem ao rochedo o meu nome, pensou. Vão
chamá-lo de Rochedo da Cebola; será a minha lápide e o meu legado. Não merecia mais. 0 Pai
protege seus filhos, ensinavam os septões, mas Davos enviara os filhos para o fogo, Dale nunca
daria à sua esposa o filho pelo qual tinham rezado, e Allard, com sua garota em Vilavelha, sua
garota em Porto Real e sua garota em Bravos, faria todas chorarem em breve. Matthos nunca
capitanearia seu próprio navio, como sonhara fazer. Maric nunca seria ordenado cavaleiro,
Como posso viver quando eles morreram? Morreram tantos bravos cavaleiros e senhores
poderosos, homens melhores do que eu, e bem-nascidos. Rasteje para a sua gruta, Davos. Rasteje
lá para dentro e encolha-se, o navio irá embora, e você nunca mais se incomodará com
ninguém. Adormeça em sua almofada de pedra, e deixe que as gaivotas arranquem seus olhos
enquanto os caranguejos se banqueteiam com a sua carne. Já se banqueteou de muitos dos seus,
tem uma dívida para com eles. Esconda-se, contrabandista. Esconda-se, fique calado e morra.
A vela já se encontrava quase ao lado do rochedo. Alguns momentos mais e o navio teria
passado em segurança, e ele poderia morrer em paz.
Estendeu a mão para a garganta, em busca da pequena bolsa de couro que usava sempre em
volta do pescoço. Guardava lá dentro os ossos dos quatro dedos que seu rei tinha encurtado no dia
em que armara Davos cavaleiro. A minha sorte, Os seus dedos encurtados deram pancadinhas no
peito, apalpando, sem nada encontrar. A bolsa tinha desaparecido, e os ossos desapareceram
com ela. Stannis nunca conseguiu compreender por que Davos tinha conservado os ossos.
- Para me recordar da justiça de meu rei - sussurrou através de lábios rachados. Mas agora
tinham desaparecido. O fogo levou minha sorte como levou meus filhos. Em seus sonhos o rio
ainda estava em chamas e os demônios dançavam sobre as águas, com chicotes flamejantes nas
mãos, enquanto homens enegreciam e ardiam sob a chibata. - Mãe, tenha mercê - rezou Davos. -
Salve-me, Mãe gentil, salve-nos a todos. A minha sorte partiu, tal como meus filhos. - Estava agora
chorando livremente, com lágrimas salgadas correndo pelo rosto. - O fogo levou tudo... o fogo.,.
Talvez fosse apenas o vento soprando contra a rocha, ou o som do mar na costa, mas por um
instante Davos Seaworth ouviu sua resposta.
- Você chamou o fogo - sussurrou ela, com uma voz tão tênue quanto o som das ondas numa
concha, triste e suave. - Você nos queimou... nos queimou... nosssss queimoooou.
- Foi elal - gritou Davos. - Mãe, não nos abandone. Foi ela quem os queimou, a mulher
vermelha, Melisandre, elal - Conseguia vê-la; o rosto em forma de coração, os olhos vermelhos, os
longos cabelos acobreados, seu vestido vermelho movendo-se como chamas quando ela
caminhava, um turbilhão de seda e cetim. Tinha vindo de Asshai, no leste, para Pedra do Dragão e
conquistado Selyse e os homens da rainha para seu deus estrangeiro, e depois o rei, o próprio
Stannis Baratheon. Este chegou ao ponto de colocar o coração flamejante em seus estandartes, o
coração flamejante de R'hllor, Senhor da Luz e Deus da Chama e da Sombra. Por insistência de
Melisandre, tinha tirado os Sete de seu septo em Pedra do Dragão e os queimado diante dos
portões do castelo, e mais tarde queimara também o bosque sagrado em Ponta Tempestade, e até
queimara a árvore- -coração, um enorme represeiro branco com um rosto solene.
- Foi obra dela -Davos disse mais uma vez, com menos força.
Obra dela e sua, cavaleiro da cebola. Suas remadas levaram-na a Ponta Tempestade na noite
cerrada, para que ela pudesse libertar seu filho de sombra. Não está livre de culpa, ah não.
Cavalgou sob o estandarte dela e içou-o em seu mastro. Viu 05 Seíe arder em Pedra do Dragão e
nada fez. Ela entregou ao fogo a justiça do Pai, e a misericórdia da Mãe, e a sabedoria da Velha.
Ferreiro e Estranho, Donzela e Guerreiro, queimou todos para glória de seu deus cruel, e você
ficou quieto e de boca fechada. Mesmo quando ela matou o velho Meistre Cressen, mesmo então,
você não fez nada.
A vela estava a cem metros de distância e deslocava-se rapidamente pela baía. Em alguns
momentos passaria por ele e começaria a minguar.
Sor Davos Seaworth começou a escalar o rochedo.
Impulsionou-se com mãos trêmulas, com a cabeça ardendo em febre. Duas vezes seus dedos
mutilados deslizaram na pedra úmida e ele quase caiu, sem saber como conseguiu se segurar na
rocha, Se caísse, morreria, e tinha de sobreviver. Pelo menos mais um pouco. Havia uma coisa
que precisava fazer.
O topo do rochedo era estreito demais para que pudesse ficar em pé com segurança, fraco
como estava, por isso acocorou-se e acenou com os braços descarnados.
- O do navio - gritou ao vento, - O do navio, aqui, aquil - Daquele ponto elevado conseguia ver o
navio com mais clareza; o casco esguio e listrado, a figura de proa em bronze, a vela cheia, Havia
um nome pintado em seu casco, mas Davos não tinha aprendido a ler, - O do navio - voltou a
chamar -, ajudem-me, AJUDEM-ME!
Um tripulante no castelo de proa o viu e apontou em sua direção. Davos ficou vendo outros
marinheiros deslocarem-se até a amurada e o encararem de boca aberta. Pouco depois, a vela da
galé desceu, os remos deslizaram para fora, e ela deu a volta na direção de seu refugio. O navio
era grande demais para se aproximar muito do rochedo, mas, a trinta metros de distância, lançou
um pequeno barco. Davos agarrou-se ao seu rochedo e observou o barco deslizar em sua direção.
Quatro homens remavam, enquanto um quinto permanecia sentado à proa.
- Você - gritou o quinto homem quando já estavam a poucos metros da ilha -, você aí na rocha.
Quem é?
Um contrabandista que chegou mais alto do que deveria, pensou Davos, um tolo que amou seu
rei em excesso e esqueceu seus deuses.
- Eu... - sua garganta estava ressecada, e tinha se esquecido de como se falava. As palavras
causaram-lhe uma sensação estranha na língua e soaram ainda mais estranhas aos ouvidos, -
Estive na batalha. Era... um capitão, um... um cavaleiro, era um cavaleiro.
- Sim, sor - disse o homem -, e a serviço de que rei?
Davos percebeu de repente que a galé poderia pertencer a Joffrey. Se proferisse agora o nome
errado, ela o abandonaria ao seu destino. Mas não, o casco do navio era listrado. Era uma galé
lisena, era de Salladhor Saan. A Mãe enviara-a para aquele lugar, a Mãe em sua misericórdia.
Tinha uma tarefa para ele. Stannis está vivo, soube então. Ainda tenho um rei. E filhos. Tenho
outros filhos, e uma esposa leal e dedicada. Como era possível que tivesse esquecido? A Mãe era
realmente misericordiosa.
- Stannis - gritou aos lisenos. - Deuses, sejam bons, sirvo o Rei Stannis.
- Sim - disse o homem no barco -, e nós também.
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